Lúcida

Por Mabelle Bandoli*

lúcida

O profundo sono se esvai, aos poucos. A réstia de sol filtrada pela fina cortina translúcida convida os olhos a se abrirem. No longo suspiro, o peito inicia novo compasso. O ar fresco e salino desperta as vias.

Jogamos os corpos ainda dormentes na areia, sob um pano macio. Dividindo um espaço limitado, as peles se encontram com mais freqüência, deslizando em breves encontros. Prolongamos essa letargia doce, sem palavras, deixando que o sol da manhã nos aqueça aos poucos. Sob a luz, todo movimento desnecessário é suspenso.O calor aumenta aos poucos e vai dissipando a inércia. Minha pele se agita e arde, levemente. Resolvo me levantar sem perturbar seu repouso.

Com a consciência ainda vaga, vou cambaleando de encontro à brisa. Quase sem pisar, traço um caminho sinuoso. Essa embriaguez de sonho se combina ao som da areia que canta entre os meus dedos, embora eu sinta como se não tivesse peso que me prendesse ao chão. O passo vacilante se detém diante da renda branca. Deixo a água chegar aos tornozelos e a observo levar conchinhas que rolam pelos meus pés, até que a espuma se afaste novamente.

Ergo os olhos, encaro a imensidão inquieta. Novamente, o ritmo do peito se altera. Sinto a violência do vento aumentar. Os verde-azuis se agigantam em tanto fascínio que quase me assombram de luz. Cedo primeiro os pulsos e a base da coluna, para em seguida advertir o pescoço do encontro. Fecho os olhos uma última vez e o raciocínio se esvazia, completando a liturgia de purificação. Enfim me sinto apta à oferenda .

Tomo distância, pego impulso. Contraio com firmeza os músculos e disparo. Mantenho os olhos fixos. Cabeça erguida. Movimento ritmado. Venço as primeiras resistências, aumento a investida. Reúno forças. Dou combate. Pernas. Braços. Fluxo febril. Pulsação acelerada. Cadência frenética. Insisto. Resisto. Contorço. Recuso a corrente. Vislumbro a inevitável devoração. Tomo fôlego. Lanço o último assalto. Me entrego vencida.

A parede fluida me devora. O corpo cansado se rende, manso. Sinto aquela força tomar conta de cada célula e todos os nervos se abrandam. Tudo é silêncio. Entregue aos deslocamentos suaves e sem rumo, me deixo perder a direção. A torrente me domina e absorve, não cede espaço para reação. Só  resta a sujeição irrestrita, a anulação completa. Toda vontade cessa.

Recobrando os sentidos aos poucos, aprecio o movimento suave das ondas passando pelos meus cabelos. O afago me desperta e encoraja. Deixo o ar sair dos pulmões em bolhas que me anunciam à superfície. Encosto os pés no fundo granulado, dobro os joelhos e abro os braços para o impulso. Abandono o ventre azul gentilmente e me lanço rumo à luz, sentindo a água se despedir do meu corpo.

Emerjo refeita. Tudo parece renovado. Sorvo o ar fresco como se estreasse os pulmões recém-nascidos. Da garganta escapa um riso rouco e curto, rugido de bicho desafiando o mundo. Reconheço cada parte do meu corpo e cada membro, para me certificar da sua potência. Constatar esse vigor me estimula à saída, me encoraja rumo à areia. Eu sigo o ímpeto e me desvencilho das ondas que não desistem do embaraço.

Caminho lúcida na sua direção.

mabele*Mabelle Bandoli é cientista política, formada pela Universidade Federal do Paraná. Carioca radicada em Curitiba, acha o “Rio de Janeiro uma beleza” e “ora sim, ora não” crê que “dor não é amargura”. Feminista com raízes que vão desde sua “mil- avó”, “carrega bandeiras”, hoje, no cotidiano não institucionalizado de movimentos sociais e partidos políticos, sabendo-se profundamente devedora deles para sua (trans) formação como ser humano. Na batalha pra ser uma “mulher desdobrável”, vai levando a vida e pelejando pra “cumprir a sina”, escrevendo, falando e vivendo o que sente.

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