Meninas, brincos e Delegadas

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Essa semana é a Semana da Visibilidade Trans*. E eu vou falar sobre a minha experiência, de mulher cis (que se identifica com o gênero que lhe foi designado ao nascer). Eu podia acrescentar meus outros privilégios, privilégios que talvez você leitor(a) também tenha, ou não. Mas hoje vou me deter nesse ponto.

Eu, me identificando como “menina”, tinha os cabelos curtos, estilo “joãozinho”, e aos cinco anos de idade me foi negado o direito de usar o banheiro de meninas, que tinha uma peixinha de brincos e lacinho rosa, e me indicaram o banheiro de meninos, com o peixinho de bigode e gravata azul. Uma menina, mais velha (hoje, em retrospecto, imagino que ela devia ter uns nove ou dez anos) me disse que o meu banheiro não era aquele. Era inverno, o uniforme era moleton marron e eu não usava brincos.

banheiro menino

Ao sair da aula e encontrar com minha mãe, em prantos eu exigi que minhas orelhas fossem furadas e me fosse concedido aquele precioso símbolo da minha identidade de gênero. Não foi possível furar as orelhas no mesmo dia, e então, mesmo no frio, usei o uniforme de verão, sainha curta, para ir às aulas no dia seguinte.

Esse episódio se tornou meio que uma anedota familiar, e eu meio que o ignorei, afinal, não fazia sentido ficar remoendo. (…)

Já adulta, Delegada de Polícia, a militância em Direitos Humanos, que me acompanha desde o ensino médio, me aproximou de grupos ditos (e feitos) vulneráveis, entre eles o grupo das pessoas trans*, dentre a população LGBT.

Em uma conferência de Segurança Pública, dentre toda a fauna de policiais, gestores, sociedade civil, tive o prazer de conhecer Walkíria la Roche. Me impressionou sua delicadeza e feminilidade, fez com que eu, a menina “tomboy” dentro de mim, me sentisse quase “masculina”.

E depois, conheci, em 2012, pelo Blogueiras Feministas, Haley Kaas e outras pessoas trans*, mulheres e homens, e comecei a conhecer (um pouco) mais e pensar (muito) mais sobre as questões de gênero e identidades.

Percebi que o que eu achava que era “natural” não é bem assim. Que muitas mulheres em processo de transição sofrem enormes pressões para serem femininas e delicadas, para se enquadraram perfeitamente no molde da “MULHER”, esse ser que não se nasce, se torna, para todas nós, cis e trans*, mas que para uma mulher trans* é ainda mais opressivo.

No texto que abriu essa semana, a Daniela Andrade falou sobre as profissões que são designadas à mulheres trans*, às travestis: a prostituição ou os salões de cabeleireiros, quase sempre vilipendiadas, estereotipadas, violadas pelo preconceito.

Na semana passada, foi divulgado o fato de uma mulher trans* haver se submetido à cirurgia de redesignação de sexo, em uma profissão que muitos consideram masculina, e que por coincidência, é a minha profissão: Delegada de Polícia Civil. Foi em Goiás, e a mulher é a dra. Laura.

Eu tenho tentado não ler comentários em portais de notícias. O anonimato permite uma virulência que enoja, assusta, entristece. Mas li alguns, na matéria malfeita e maldosa de um jornal local. E uma das “preocupações” de alguns comentaristas era com a situação juridico administrativa da delegada. Afinal, ela entrou como “homem”, e de repente, “virou” mulher. Logo, ela fraudou o sistema.

Muito me espanta, gente até inteligente e estudada, falando isso. Não há cotas, nas policias civis e federal, como há nas PMs. Logo, a situação juridico-administrativa, ao meu ver, não sofreu alterações.

Outros, preocupavam-se com a dita “reserva de mercado” das DEAMs, que são as delegacias de atendimento à mulher, delegacias que tradicionalmente são ocupadas por mulheres.

Voltando ao tema, eu torço para que Laura, minha colega na PC, em Goiás, seja feliz, no caminho que trilhou. Seja na DEAM, seja numa depol de área, aquelas “chão de fábrica”, como a minha. Onde cabe “macheza” suficiente em uma mulher, como cabe em mim, o que quer que seja isso.

Porque hoje eu luto por um mundo onde a falta ou não de brincos não seja definidora de gênero. Para que crianças possam crescer sabendo que os banheiros não devem ser motivo de opressão de gênero, e que meninas podem ter bigode, meninos podem usar lacinhos e cor-de-rosa, e que isso não define quem somos.

Luto e torço e espero por um mundo onde papéis de gênero não sejam tão fixados que impeçam que um homem possa ter empatia e capacidade de sensibilidade suficiente para trabalhar com mulheres em situação de violência, em uma DEAM, ou que, pelo oposto, imponham a todas as mulheres a obrigação de sermos sensíveis e “boazinhas”, portanto, ideais para trabalharmos “na Mulheres”.

Queria voltar ao passado e dizer para a Renata de 5 anos que tudo bem usar o banheiro de meninos, e que ela não precisa furar as orelhas se não quiser.

banheiro menina

Mas o que realmente dói é saber de tantas meninas em situação de disforia que não tem apoio, não tem amparo, não tem a quem recorrer.

Hoje eu vejo que o meu trauma é meu, e não é “bobo”,não vou diminuí-lo, pois ele me ajuda, agora, a calçar por alguns segundos, o sapato de uma criança trans*. Meus brincos me garantiram de imediato o ingresso no meu mundo, onde nunca mais me foi negada a minha condição de mulher. Eu quero que meus filhos vivam em um mundo onde não seja preciso um par de brincos ou um médico ou juiz para garantir que todos e todas possam ser felizes, da forma como escolheram.

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