O caso da menina Ana Clara: crônica de uma morte anunciada ou Deus e o diabo em São Luís do Maranhão

Texto escrito por Danielle Castro, professora de Língua Portuguesa da rede pública estadual do Maranhão: 

Anunciada sim porque todos os dias vemos o desamparo da nossa população gerado pelo caos de um (des)governo – na verdade, de um modo de governar, porque não se restringe a uma família apenas, se bem pensarmos. E não vejo luz no fim do túnel. Há bandeiras que se dizem distintas, mas já se aliam ao mesmo tipo de canalha político, basta observar. O que é mais triste é pensar em quantas Anas ainda serão. Não é um problema de votação, apenas. É um problema de um modo de pensar (ou não pensar?) que o maranhense em geral perpetua. Saiba você, que se indigna com a maldade dos presidiários de Pedrinhas, mas que não se indigna com as benesses da corrupção deslavada dos que estão no poder (ou almejam) que você deveria também chorar sua culpa.

“Rosengana” Sarney pode agora querer desviar o foco para a Justiça, dizendo que é por conta dela que as coisas estão como estão. Mas cabe lembrar: quem indicou desembargadores? Sarney é um sobrenome conhecido na seara do tribunal local, são tantos Sarneys e adjuntos, são tantas lástimas travestidas com bandeiras diferentes que a única coisa que posso fazer é ter a fé de que nosso povo comece a se sensibilizar e tirar a cegueira dos olhos. De outro modo, tudo será um “mais do mesmo”. Tanto faz se o partido é vermelho, azul, verde, amarelo ou furta-cor.

Ampla divulgação nacional. Uma menina foi morta carbonizada. Fiquei me perguntando: quem é Ana? Ana Clara saiu na companhia da mãe Juliane, de 22 anos, e da sua irmã, ainda de colo, para passear. O ônibus foi invadido e incendiado por homens armados na Vila Sarney Filho. A Vila Sarney Filho fica na periferia de São Luís do MA, na zona rural, onde também fica o Complexo Penitenciário de Pedrinhas. É um bairro dos arredores. No Terminal de Integração do Distrito Industrial (que fica na zona rural), podem-se pegar alguns ônibus que vão para o Complexo de Pedrinhas, passando pela BR, em frente à Vila Sarney.

Já visitei a penitenciária. Foi no cumprimento de uma atividade curricular de uma disciplina chamada Criminologia, no curso de Direito. Peguei um ônibus nesse terminal. O que mais me chamou atenção, de pronto: a fila de mulheres de presos, irmãs, filhas, a irem visitar seus homens queridos. Na frente do presídio, avisos sobre quem pode ter acesso às visitas íntimas. Dentro do presídio, o vexatório momento da revista, necessário para a liberação da entrada no local. São as mesmas mulheres “dadas” em barganha de estupro quando da explosão da revolta no presídio, uma facção contra a outra.

É até possível que, um dia desses, Ana Clara e Juliane, indo para casa, tenham pegado o mesmo ônibus que uma Maria, irmã de preso. Porque por mais que não se queira enxergar, os presos têm família. Eles mesmos são seres humanos. Há muitas Anas filhas de presos no bairro de Pedrinhas. Feitas do coito institucionalizado, num espaço do presídio pintado de cal sugerindo que ali há amor. É como ainda me lembro, da minha visita. E lembro também de ter pensado em várias situações como: e se a mulher que tem relação com o preso não tiver em união estável ou casada (condições para a visita)? E se for transexual, teria o mesmo direito? Não, não teria. Porque ali são bichos é que sobre Ana se ateou fogo, como se ela própria não fosse uma menina linda, sorridente, como se fosse ela, também, bicho. E na frente do governo, uma mulher também.

Há bairros criados na zona rural constituídos, na maioria, pelas famílias dos presos. Vendem os seus poucos, mas preciosos, bens no interior onde nasceram e se criaram para acompanhar seus homens. Para viver numa cidade como forasteiras, parentes de pessoas consideradas bichos, de homens para os quais, no julgamento da sociedade em geral, serem decapitados ainda é muito pouco. Mas nasceram da sua barriga. Com eles têm filhas e filhos, Anas, Marias, Pedros. Eles todos brincam no mesmo quintal, comem da comida vendida na mesma quitanda de bairro. E é ainda incrível, surreal, que as pessoas não enxerguem que a dor da mãe de Ana é a dor da mãe de Elson, borracheiro de 43 anos, preso por receptar 4 pneus furtados, decapitado para servir de exemplo na rebelião. Em tempo: somente no ano passado, 60 presos foram mortos das formas mais brutais possíveis. Este ano que ainda está nos seus primeiros dias, já se contabiliza um saldo de dois mortos. Nesse ritmo, eliminaremos em breve toda a população carcerária via o assassinato sistemático.

É o retrato de um Maranhão cronicamente inviável. Tragédia social dolorosa, sobretudo, para a população desassistida e abandonada à própria sorte. Que reage vomitando violência através da periferia que se canibaliza a si mesma, como resposta às décadas de miséria orquestrada pela política corrupta do grupo Sarney e seus correligionários. Estamos vivendo em um caos autofágico, numa guerra de trincheiras e desrazão, que começa e termina vitimando o lado mais vulnerável desse jogo trágico e bandido: a população (pobre) do Estado a agonizar feridas, decapitações, estupros e corpos carbonizados de homens, mulheres e crianças inocentes.

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