A saudade, o calor, a falta de grana e o preconceito

Por Niara de Oliveira

Ou… Estou me guardando pra quando o outono chegar

montagens_135_Derretendo - Sapo2

Tempos bicudos, esses. Muito distante do meu habitat natural, tenho sérias, seríssimas dificuldades em me achar nesse espaço de agora. A dificuldade em me achar não me é estranha, mas não me saber nesse lugar incomoda demais. Faltam as pessoas conhecidas para encontrar por acaso na rua, e os “quanto tempo!”, “como vai a tua mãe?”, “ainda moras no mesmo lugar?” acabaram se tornando tão importantes quanto os rostos, ruas, casarões, esquinas e — óbvio — bares familiares.

Nesse calor do Ridijanêro pouco sobra de energia para qualquer coisa após o trabalho, cuidados da casa, filho. Dia desses lendo a Lu falar que são os sonhos pequenos que a fazem feliz (não era bem isso, mas foi assim que entendi), fiquei a me perguntar onde andariam os meus sonhos, grandes ou pequenos… Onde estão os meus sonhos? Nesse calor, querides, se perdem facinho. O cérebro amolece junto com o corpo e tudo se esvai. Cá estou eu, no subúrbio aguardando a tão desejada chuva em mais um final de dia… Esclareço: chuva não é sonho ou delírio. É necessidade, concreta, para suportar o dia a dia nesse pedaço “privilegiado” do inferno, abandonado até mesmo pelo diabo (dizem que foi passar férias em praias mais frescas do Caribe). E ainda tem os outros calores que estão fazendo um carnaval com meus hormônios… Sim, acho que estou entrando na menopausa. (spoiler!)

Se eu tivesse um ar condicionado, mais ventiladores, pudesse morar numa rua mais arborizada… O subúrbio do Rio é devastado, e nas lajes que tentam aliviar o sufoco das moradias precárias e ampliar um pouquinho o conforto só o que cresce é cimento, nenhuma árvore é plantada, nem mesmo em vasinhos. Falta de grana está diretamente ligada à precária qualidade de vida na “cidade maravilhosa”. Mais que uma cidade partida é uma cidade desumana para seus moradores — o Freixo tinha razão.

Além de rebaixar a qualidade de vida, a falta de grana te expõe mais aos preconceitos. E aqui me reservo e preservo o direito de não relatar pormenores. Porque dói se expor tanto, embora a necessidade de desabafo seja premente.

A saudade e a sensação de não pertencimento, o calor e a impossibilidade de sonhar com ele, combinados com a falta de grana e essas pressões e opressões cotidianas colocaram minha biscatice em xeque… Sou biscate, mas não estou biscate. Chuif.

Quem sabe quando chover e arrefecer um pouco, tudo o mais fique menos pesado… Quando é mesmo que começa o outono?

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

8 ideias sobre “A saudade, o calor, a falta de grana e o preconceito

  1. Oi!
    Poxa, outra geografia. Mas, a situação que descreve me soa familiar demais… quase sinto que poderia ter escrito o que diz. Com menor habilidade no arranjo das palavras e na exposição das ideias, mas poderia.
    Se não estivesse tão ocupada fazendo questão de não querer perceber que algo muito sonhado e acalentado pode, realizado, não ter sido a melhor coisa do mundo. Não é muito fácil transferir um treco desse tamanho para o lugarzinho das coisas que não nos fazem bem. Assim como com os amores que acabam. Cidades são amores.
    Não sei se gosto desse espelho grandão que jogou na minha frente, viu? Por isso, não agradeço. Não sei se é o caso.
    E se eu não gostar da imagem refletida? Se depois de desgostar de tudo e gostar outra vez ficar esperando um outono que não vem sozinho? Sei lá, o derretimento das calotas polares, o efeito estufa, o desmatamento, tanta coisa pode ter mexido com as estações… E se eu precisar buscar esse outono em algum lugar? Descobrir que não sou forte e ousada como sempre pensei que fosse? Não me reconhecer no espelho?
    É, não vou agradecer ainda não.
    😉
    Bjo.

    • Não precisa agradecer, não, Fabi. Saber que minhas palavras, tão minhas, fazem sentido para outras pessoas é uma alento, um afago. Agradecida eu, a ti. Bj!

  2. Niara, tamos juntas aguardando esse outono, com ventos melhores e mais arejados. Firmeza, companheira que não está por hoje biscate, teu texto bateu fundo…

  3. Ni, já disse que adoro teus textos????
    Gostei muito das tuas palavras. Te desejo chuvas refrescantes. Mas te contar viu, aqui tá quente por demais também (não reclamo porque, como a Su, não gosto de inverno). Ontem a sensação térmica, dizem foi de 50°. Sim, te entendo, uma coisa é 50° no teu lugar e outra é naquele outro espaço que não te pertence.
    Beijão e força <3

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *