Transfobia no espaço escolar: a exclusão que não é ocasional

contra a transfobia

Sou professora e pedagoga. Em quase uma década de trabalho, venho presenciando cenas de exclusão (e também algumas poucas de acolhimento) de pessoas no espaço escolar que desafiam as normas impostas de gênero. Sem buscar homogeneizar a questão trans* que tratarei adiante, alunxs e professorxs homossexuais já costumam causar algum tipo de estranhamento, porque, de certo modo, tiram as pessoas da zona de conforto de seus preconceitos, pautadas em preceitos heteronormativos. No exercício da convivência diária, percebo que algxns optam em se abrir pra lidar de forma positiva com as diferenças, enquanto outrxs apenas reforçam todos os seus estereótipos discriminatórios. Não foram poucas as vezes que tive a infelicidade de ouvir de algum colega piadas homofóbicas, misóginas e sexistas, quando não, dxs próprixs alunxs. Difícil (mas não impossível) desestabilizar tais configurações e relações assimétricas de poder.

Claro, a cultura escolar é algo maior que a postura dos professorxs, dxs alunxs e da equipe pedagógica. Assim, a exclusão operada é também proporcionada pelo silêncio das abordagens curriculares que segmentam uma pretensa fala sobre diversidade, divididas em temas transversais. Quer dizer, eu até posso abordar sobre algumas questões candentes de gênero, desde que ocupem um espaço acessório (ou irrisório?) no currículo. Mas, para subsidiar minha aula, onde estão os materiais didáticos? As oficinas de formação continuada? Por que foi vetada a distribuição do kit do programa Brasil sem Homofobia? Por que tanto medo em falar sobre as relações de gênero? O que está para ser desestabilizado é algo tão grande assim que não se pode sequer questionar profundamente a norma hetero no espaço escolar?

Além da homofobia, a transfobia também provoca sofrimento. Eu me interrogo sobre a condição dxs alunxs trans* nos bancos escolares. Já é sabido que a população trans* tem grande índice de abandono e evasão escolar, o que não é ocasional de forma alguma; transexuais e travestis são expulsxs da educação formal a partir de mecanismos muito eficazes que operam na construção de suas invisibilidades. O currículo escolar não contempla suas identidades. Existe toda uma série de dificuldades até para que sejam chamadxs por seus nomes sociais, causando-lhes grande constrangimento público. Relatos que chegaram até mim, de pessoas trans*, falavam de perseguições e ameaças de professorxs e gestorxs, de tratamento inferior e de desprezo dispensado (lembro do caso de umx alunx que me relatou que tinha virado uma “coisa”. Chamavam-na na própria faculdade que estudava, de “isso” ou “aquilo”). São postos obstáculos para se usar o banheiro (como se alguém tivesse que se definir pra ser autorizado em suas necessidades fisiológicas), dentre outras histórias de abuso e discriminação. Hostilidades parecem ser a regra nesses casos em que o ser humano merece nada mais ou nada menos que compreensão, respeito e acolhimento em suas diferenças.

Lembro de um episódio exemplar quando trabalhava como supervisora pedagógica em uma escola pública de ensino fundamental. Atuava no turno vespertino. No entanto, fiquei sabendo de um ocorrido bastante simbólico disso que estamos tratando, no turno matutino. Tratava-se dx alunx, denominadx ao nascer, como Gabriel. Tinha sete anos. Gabriel queria e pedia insistentemente pra ser chamada de Gabriela, gostava de ter amigas meninas e de se comportar como uma delas. Aí a diretora interveio e quis conversar pessoalmente com a criança. E sabe o que lhe disse? Que Deus tinha lhe dado um pintinho, portanto, era homem. Que parasse com esse absurdo de querer ser menina. Na lógica de Deus, explicou que quem nasce com vagina era menina e quem nasce com um pintinho era menino. E só, somente só. E mandou Gabriela de volta a sala. Assunto resolvido.

Eu fico me perguntando onde estará Gabriela hoje. Nas minhas contas, deve estar com 12 ou 13 anos. No que aquela traumática conversa deve ter lhe afetado? Como deve ter elaborado isso, em sua cabeça de criança, ter negada, de forma tão brutal, a sua identidade naquele momento? E se Gabriela só gostasse mesmo de brincar de ser menina, qual o problema disto a ponto de merecer um sermão da diretora? E se não, se Gabriela fosse mesmo uma criança trans*, quais consequências terríveis essa conversa teve na construção de sua auto-estima?

Difícil ver uma luz no fim desse túnel. Mas uma vontade imensa de ver a escola que temos hoje, sem querer essencializar o que se entende por escola, aberta para Gabrielas, Gabys, Sofias, Pedros, Pamelas, Felipes, Maitês e Danielas.

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2 ideias sobre “Transfobia no espaço escolar: a exclusão que não é ocasional

  1. A Jeane situou a transfobia no espaço escolar, depois ampliou a critica para o sistema de ensino, as práticas epistemológicas e o pavor da desestabilização do gênero. Depois exemplificou a transfobia na figura da evasão escolar (alguns pensam que transfobia é só assassinar) e do não-lugar dessas pessoas no espaço escolar. E no exemplo de Gabriela vc mata dois monstros com uma paulada só : trás a tona a não laicidade da escola e o discurso biologizante do corpo e da vida…
    Só achei que no final faltou um pouco mais de esperança no final do túnel…kkkkk Talvez levantar alguns ganhos nessa luta contra a transfobia, alguns estados e universidades que já aderiram ao uso do nome social, a lei de identidade de gênero que tramita no congresso… beijos e parabéns pelo texto!!!

  2. Texto lindo e sensível, Jeane. Me emocionou e me lembrou de histórias de crianças que conheci muito de perto. Um caminho longo ainda. Com sensibilidade e abertura de idéias, há que se acreditar que ele pode ser percorrido. Beijo grande.

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