Visitando colônias em Marte, longe do casal blindado

Eu devia estar em Marte, possivelmente. Visitando as novas colônias. Só isso pode explicar o fato de que apenas ontem eu tenha sido apresentada ao casal que dá conselhos para “blindar o casamento”.

Ainda não me recuperei de todo.

Soube, depois, que o Casal Blindado é conhecido, que já virou (no singular, né, porque é “o casal”) celebridade, que tem um programa na TV.
Gente. Gente. Gente. Não só eles dizem essas coisas aí que eles dizem, mas tem pessoas pagando a eles para dizerem. O livro, parece, é um sucesso. Gente.

O Casal Blindado recomenda compartilhar o feicebúqui, excluir todos os ex, dar a senha para a “outra metade da laranja” – com o perdão da má palavra. Assegura que o ideal é que todos os amigos sejam amigos em comum. Vai o trecho, melhor do que qualquer paráfrase: “Obviamente, não é preciso abrir mão da liberdade, e todo casal que vive bem tem amigos — o ideal, porém, é que não sejam amigos exclusivos, mas sim amigos em comum, a fim de não gerar desconfianças.”

 A primeira observação, evidente, é que esse povo deve ter uma noção de liberdade no mínimo esdrúxula. Mais do que isso: a palavra “liberdade” entra aí como Pilatos no Credo. (aproveitando pra usar a expressão, que acho divertida. fecha parêntesis). Pega mal dizer que as pessoas têm que abrir mão da liberdade: mas é exatamente isso que os blindados tão dizendo, não é não? Num nível assustador de tão fusional? Dar senhas, compartilhar página em rede social, não ter amigos próprios? E quem decide quais são os amigos que permanecem? Quer dizer, quando você conhece alguém, se apaixona e tal, você já tem lá seu lote de amigos, não é verdade? A outra pessoa também. Aí o que é que faz? Cada um fica amigo de todos os amigos do outro (e quem disse que eles vão querer, não é mesmo)? Um dos dois joga seu lote de amigos no lixo? Os dois abandonam os “amigos prévios” e adquirem, a preço módico, um novo lote de amigos talhadinhos para serem amigos do casal? Só perguntando.

E o motivo? “A fim de não gerar desconfianças”. Acuma? Quer dizer que se você tem amigos próprios, se você não quer compartilhar suas senhas ou sua página em rede social, isso é motivo para desconfianças? Desconfiança de quê? Ah, sim. Claro. Ela. Ela, a famigerada. Aquela-que-não-deve-ser-nomeada. Já escrevi sobre ela aqui, neste biscablog mesmo. Ali, eu, ingenuamente, dizia que “Amigo a gente compartilha, a gente apresenta aos outros amigos e torce pra que eles também fiquem amigos: entre amigos a gente confraterniza, se abraça, se agarra, se beija ladeira abaixo. Dança junto, bebe junto. Nas dores dos amigos, a gente chora junto. Amigos a gente ama. Ama, de verdade.” Foi mal, galera. Eu ainda não era possuidora da sabedoria blindada: achava que amigo a gente podia ter. Mas parece que não. Risco de desconfiança. Ah, tá.

E aí, vem a pergunta: depois de tudo isso, o que fica? Você foi lá, seguiu todas as regras, se desfez dos seus amigos exclusivos, compartilha redes e senhas, e o que sobrou? O que sobrou, não sei: sei o que não sobrou. Você. Você pessoa. Você com gostos, com vontades, com quereres só seus. Com dores, com história, com vida vivida. Com anseios, com dúvidas, com zonas cinzentas. Você, por quem a outra pessoa se apaixonou lá no começo da história. Se você seguir todas as dicas do casal blindado, uma coisa, acredito, é segura: você vai se perder de você. E não quero vaticinar nada, mas é possível que um dia você olhe para a outra pessoa e também não reconheça a pessoa por quem você se apaixonou. Que era uma. Que era única. Que era ela. Lindamente ela. Com todos os seus riscos e desafios. Com todo seu encanto de não ser você.

O que o casal blindado propõe, na sua distopia fusional, é a morte do eu e do você, nada menos do que isso. Só que não nota que essa morte acarreta, necessariamente, outra morte: a da paixão, do amor que é, necessariamente, amor ao diferente. Ao não-eu. Imprevisto, fugidio, doloroso às vezes. Aventura. E, sobre isso, sigo a sugestão da Fernanda M., que lembrou do preciso texto da Flávia Cera no Sopro n°94:

“Ama-se de corpo inteiro, mas esse corpo inteiro nunca é acessível porque é justamente no inapreensível do ser que está o amor. O amor nunca é completude e plenitude, a “sorte do amor tranqüilo” nunca chega. Ele não preenche, ao contrário, é a forma mais intensa de descobrir o vazio que nos estrutura. Amar não assegura nada, amando perde-se toda a consistência. Longe de toda posse e de qualquer idéia de fusão, o amor pode ser compreendido na soma e nunca na subtração ou na supressão das singularidades. Amar é projetar-se ao mundo, e não no outro. A tentativa de identificação máxima para justificar um encontro, que é sempre inesperado, é o que pode fazer desse amor uma burocracia tediosa. Quando se diz: “somos um só”, anula-se toda a diferença que sustenta o amor.”

Uma burocracia tediosa, diz a Flávia. E essa parece ser, sem tirar nem por, a proposta vendida a peso de ouro pelo casal blindado. Em palestras. Em livros. Em textos. Por cima, uma fina camada de chocolate-sabor-amor-verdadeiro: mas não se enganem. À primeira mordida, o miolo se revela. Em toda a plenitude do seu bolor. Que isso possa ser apresentado como sonho a ser conquistado, como meta de felicidade, me deixa sem palavras (ou quase, como se vê).  E, já que este post acaba sendo uma continuação, na ciranda, do anterior, fecho com o convite final daquele, que também serve para este aqui:

“Espaço. Amor. Encontros. Acolhimento. Vida vivida.
Riscos de dores? Ninguém está imune.
Nem os maracujás de gaveta que se encolhem à ameaça de novos sentimentos.
Joguemo-nos pois. Nos espaços que nos aguardam. Que nos convidam.
Abramos espaços nas rodas. Novas cirandas.
A vida é ciranda e vem. Inevitavelmente vem. Vamos.”

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5 ideias sobre “Visitando colônias em Marte, longe do casal blindado

  1. Esse lix…digo, livro, caiu na minha mão e não dei conta de passar da introdução, muito – confesso – por causa da pegada religiosa. Pelo pouco que li, somado às informações do post, arrisco a supor que o casal dá fórmulas para manter o casamento, como se relações humanas coubessem em equações precisas, com resultados previsíveis. Deve haver quem siga os conselhos do casal e ainda assim, num dia qualquer, se surpreenda com um casamento “sem blindagem”. É ou não é de “cair os butiá do bolso”?

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