Das curiosidade ou O que seria de mim sem o feminismo?

Por Mabel Dias, Biscate Convidada*

feminismo-ideia-radical

Conheci-o na faculdade. Queria namorá-lo. Lembro vagamente das vezes que conversávamos nos corredores do departamento de comunicação. Lembro de sua risada gostosa, de seu jeito alegre e atencioso comigo. Fiquei afim. Era o cara que eu queria.

Mas não foi comigo que ele escolheu ficar. Foi com outra colega de turma. Bom, fiquei triste sim, mais um fora. Superado. O tempo passou, fomos cada um para um lado. Acho que nem a amizade ficou. Não tivemos, desde então, contato algum.

Eis que de repente, passamos a fazer parte do facebook um do outro. Mas nada de diálogos. Ele agora está casado, com filho e tudo. E aquele desejo que havia em mim em relação a ele já havia passado.

Em um determinado dia, passa a me enviar mensagens privadas, dizendo que tinha uma admiração por mim desde a época da faculdade. Surpresa total! Nunca tinha ouvido isto dele antes. Fiquei assustada, tentando entender onde aquele papo via facebook queria chegar.

– Você instiga curiosidade – disse ele.

Questionei com meus botões: o que significa esta curiosidade? Se tinha “curiosidade” em relação a mim desde a época da faculdade, porque não disse ou porque não namoramos? Suspeitei que esta “curiosidade” queria dizer: “quero saber como você é na cama, já que é uma maluca?” (era desta forma que a maioria das pessoas da faculdade me viam, devido as tatuagens, o corte de cabelo, as roupas e as opiniões em sala de aula). Senso comum burro.

Fui juntando as pecinhas do quebra cabeça e percebi que estava diante de mais um homem que vê as mulheres libertárias como “diversão”, aquelas que não são para casar, mas servem, estão disponíveis, para quebrar a rotina do casamento. Senti raiva!

Me lembrei da cantora Anita. Escuto sobre ela os comentários mais absurdos: de que é uma “putinha”, “vagabunda”, por causa de sua dança sensual, suas roupas curtas, e para completar, fez uma propaganda sobre camisinhas. No comercial, ela aparece de sutiã, deitada em uma cama. Pronto, não vale nada, é periguete!

E assim é com todas nós. Em pleno século XXI, muitas pessoas ainda dividem as mulheres pra casar e as para diversão. Ou podemos usar outra classificação, nas palavras desse homem em particular: as que instigam curiosidade, como eu.

Vejam bem, a questão não é ele ser casado. A monogamia dos outros não é assunto meu e acredito que o desejo e o discernimento alheio sirvam de bússola para saberem que relacionamentos querem, não é tópico de minha alçada nem matéria para meu julgamento. Mas me incomoda que ele, no nosso caso específico, tenha me colocado em um lugar estanque, que ele tenha me rotulado – a partir de preconceitos – como uma aventura, como alguém que só serve para um tipo de vínculo, O que me incomoda é que ele não se pergunte e não me pergunte sobre o meu desejo.

Nós mulheres queremos poder transar com quem quisermos, se quisermos, onde e quando quisermos  e quantas vezes forem. As mulheres de saia e cabelos longos, gestos delicados e fãs de música clássica também podem gostar de sexo casual.  Nós mulheres com tatuagens, cabelos moicanos, roupas curtas, também podemos querer um companheiro. Todas nós, biscates. Porque não?

Então, na minha caixinha de mensagens, fica o silêncio que diz, em alto som: é, tu é um Mané, e esta tua conversa fiada só alimenta ainda mais meu feminismo e a certeza de que a luta contra o machismo é diária.

mabela*Mabel Dias, é jornalista, deu uma força na realização da Marcha das Vadias de João Pessoa e faz parte do Coletivo de Comunicação Intervozes. É uma mulher que luta por um mundo melhor para todas!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

2 ideias sobre “Das curiosidade ou O que seria de mim sem o feminismo?

  1. Eu entendo perfeitamente. Sou negra mulata em meio a uma classe média branca. Isso acontece comigo direto. Sou a ”fogosa”, ”cor-do-pecado”, para pegar e se divertir, mas nunca para namorar e apresentar para os pais =\

    • pois é, marcela. me junto a sua luta contra o machismo e o racismo. com certeza, as mulheres negras devem sentir isto bem mais fortes!! é muito pesado tudo isto, temos que nos manter firmes, e apoiando umas as outras para que o patriarcado não vença. não é fácil esta situação, compa.. e não me coloco contra o sexo causal, pelo contrário, mas sim, o modo com os homens, a sociedade vê mulheres como as que citei no texto. forte abraço para vc!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *