Liberdade e beleza não tem idade

Liberdade e beleza não tem idade

Liberdade e beleza não tem idade

Pois parece que, na nossa sociedade marcada por consumismos vazios e padrões de beleza engessados, existe um limite, uma validade imposta à mulher pelos anos que correm no calendário. A beleza plastificada é quase um imperativo para as mulheres mais velhas, uma máscara para esconder o tempo e vedar as rugas e marcas da idade. Nada contra as plásticas, cada um decide como quer envelhecer. Mas é o padrão, e o julgamento, que me incomodam. E o quanto são normativos, e condicionam comportamentos. A beleza rotulada em peles lisas, em falsas perfeições, em estampas de revistas cheias de photoshop. Padrões inalcançáveis, a pirâmide sempre intangível do consumo. E o olhar social, esse perverso, que tolhe as mulheres tanto pela sua condição feminina, quanto pela idade.

Já perdi as contas de quantas vezes escutei a seguinte frase: “nossa, sério que você tem 37 anos? Não parece, está tão bem, bonita, para a sua idade”. Ou ainda: “Nossa, você tem tanta energia, gosta tanto de festa na sua idade né?”. Eu apenas sorrio, distante, e penso nos tantos equívocos que estas frases contém. Como se a mulher fosse chegando aos 40, beirando os 50, 50 e tantos, anos adentro, e não pudesse mais ser considerada bonita, desejável, ter um corpo gostoso, ter vontade de sexo, vontade de vida. Como se a mulher tivesse um prazo de validade para estar no mundo, solta em seus pensamentos e em suas construções de liberdade.

 Se, em qualquer idade, a mulher é tolhida pelos julgamentos morais que afrontam sua liberdade, alongam a sua saia, sobem seu decote, e enquadram as que fogem dessas normas em categorias como “vadia” e “biscate”, a mulher mais velha sofre um fardo maior, por estar fora do “tempo” de ousar qualquer coisa. Uma mulher que não segue convenções sociais machistas, que descasou ou não casou nunca, que trepa com quem quer, como quer e a hora que quer, que sai como quer sair, que dança, que bebe, que descabela os outros e a si própria, não pode –  nem é concebível nessa hipocrisia social que vivemos – que ela tenha mais de 40. Tá certo, não é concebível nunca, mas as mulheres até os 30 ainda podem ser “perdoadas”, ou minimamente compreendidas por algumas almas menos conservadoras, por estarem experimentando. “Ah, a juventude”, dizem por aí. Ela vai se “regenerar”, arrumar um marido, ainda vai ter filhos e se comportar, afinal, a maturidade traz essas coisas.

Mas eis que você não se enquadra. A maturidade só te traz mais liberdade para querer ser quem você é, para viver sem padrões engessados de certo e errado, para trepar mais, para querer mais, para estar mais confortável e bancar suas escolhas fora da curva do socialmente aceito. Eis que você já destruiu a casa, e não quer mais nada parecido. Ou quer uma casa sem paredes, nem porta nem nada. Ou uma casa só. Ou uma casa com quem quer que seja. Quer viver livre, quer sair, ver o mundo, gozar, e tudo que puder abraçar com as mãos e braços cheios de vida. Isso tudo com o corpo marcado pelo tempo, com o rosto banhado por aquelas rugas que já viram tanto, os cabelos coloridos ou brancos enfeitados de flores. E eles que estão bonitos de dar gosto, e cheios de tesão pela frente.

Essa beleza não normativa, esse comportamento não padronizado por uma mulher de quem espera-se, no mínimo, exemplo e disciplina, incomodam ainda mais o apontar de dedos. Ela está, duplamente, afrontando a nossa sociedade conservadora por ser quem é. Porque envelhecer deve ser conformar-se, ainda mais, aos padrões vigentes.

Aí, bom, chegam os 60, 70, 80, quem sabe, e uma mulher, nessa fase da vida, deve se conter ao quadrado da “terceira idade”, onde só se espera que ela vá fazer tricô e cuidar dos netos, esperando vagarosa a morte que ninguém quer ver. Ou dançando em bailes da terceira idade, onde podem ensaiar passos e, quem sabe, dar as mãos e um selinho tímido em alguém do mesmo quadrado. Mas eis que a vó faz sexo, e quer é mais. Eis que a avó é desejada e é gostosa e quer é trepar noite adentro. Pode, não pode? Mas é claro que pode. É só tirar as lentes da mediocridade moralista que tolhe as mulheres e corta suas possibilidades de sentir prazer.

Ademais, as mulheres mais velhas expõem o que a gente não gostaria de ver: que somos perecíveis. Que não somos imortais em nossas belezas padronizadas. Que o padrão é falho. Que a vida é breve. E que a idade vem, com ou sem plástica, com ou sem maquiagem. E, nesse momento, nossa inserção social como mulheres desejáveis e sexualmente ativas, está destinada a mornidão dos sonhos, à fantasia de um dia, ao olhar triste para o que se foi.

Mas, calma! Não, não é por aí. O sexo não tem idade, não tem limite, e a beleza é mutável como a vida. Não tem prazo de validade, só termina quando formos de vez dessa existência, para quem sabe onde. Ou para lugar algum. Sempre é tempo de viver e se deliciar em possibilidades de prazer e desfrute da vida. E nóis, aqui da biscatagi, continuaremos gritando e biscateando idade adentro, sambando na cara da hipocrisia, e nos assumindo livres para sermos o que quisermos ser.

Hilda Hist, diva, maravilhosa, até o fim dos dias.

Hilda Hist, diva, maravilhosa, até o fim dos dias.

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22 ideias sobre “Liberdade e beleza não tem idade

  1. Sentia um pouco de resistência de me considerar parte deste clube. Às vezes até pensava em juntar grupo de amigas com idade a partir dos 50 que não pensam apenas em participar dos tradicionais clubes de “terceira idade” ( nada contra estes clubes, cumprem seu papel e, de uma forma ou de outra, ajudam muitas mulheres a não ficarem no isolamento total). Este texto me fez sentir incluída no clube. Com os meus 57 anos sempre me senti um tanto deslocada por não me ver nos padrões que a sociedade impõe para mulheres dessa idade, mas ao mesmo tempo também não encontrar espaço nas questões e problemas enfrentados pelas mulheres que estão entre os 30 e 40 anos. O fato é que eu me sinto jovem e cheia de vida e não consigo me enquadrar em qualquer idade. Sou todas as idades ao mesmo tempo. Sou criança, sou menina, sou jovem, sou madura ( sei lá o que significa isso, ser madura), estou na menopausa etc e tal. Mas, com certeza, as coisas que penso, o meu modo de estar na vida são alvo de preconceito tanto no mundo virtual quanto no cotidiano da minha vida. Fazer o quê? Sou assim , sou do jeito que sou e é com isso ou com essa pessoa que vou conviver pelo resto dos meus dias. Mas, não é sempre fácil e, muitas vezes, me recolho e me culpo por não me sentir enquadrada. Daí achei esse texto muito legal. Bonito e gostoso de ler. Posso dizer agora, semntemor, que sou biscate.

    • Rejane…seu comentário me fez sorrir tanto! que bom, bem vinda, venha, seja, seja, seja muito. seja conosco, nessa biscatagi sem limites e padrões, buscando a vida mais pulsante e cheia de tesão, em que idade, e em que circunstância for.

    • Viva, Rejane.
      Claro que é, como não.
      Eu outro dia li um comentário de alguém que queria “amigos da sua idade”. Achei curioso… nunca me ocorreria selecionar meus amigos pela idade. Nem as biscates! 🙂

  2. Adorei o texto, parabéns!
    Enquanto eu o lia, lembrei de uma situação: estava eu lá trabalhando, quando do nada uma conhecida diz “nossa vc tem cabelos brancos, mas vc é tão nova!”, eu debochada como sou, respondi: “esquenta não, tenho cabelos brancos, aqui, aqui, um tufo aqui e com certeza devo ter outros em formação…” não satisfeita, a pecinha pergunta ” mas, por que você não tinge os cabelos ou faz mechas?”, eu: “porque a presença deles não me incomoda.”

  3. “A maturidade só te traz mais liberdade para querer ser quem você é, para viver sem padrões engessados de certo e errado, para trepar mais, para querer mais, para estar mais confortável e bancar suas escolhas fora da curva do socialmente aceito. Eis que você já destruiu a casa, e não quer mais nada parecido. Ou quer uma casa sem paredes, nem porta nem nada. Ou uma casa só. Ou uma casa com quem quer que seja. Quer viver livre, quer sair, ver o mundo, gozar, e tudo que puder abraçar com as mãos e braços cheios de vida.”
    Muito prazer, essa aí sou eu. Enfrentando as dores de querer recomeçar a vida depois de mais de 20 anos de casada, me sentindo desse jeitinho aí.

  4. Uma das mais belas declarações de amor ao ‘ser mulher”, Fiquei num estado de profunda emoção. Talvez por narcisismo, porque me senti espelhada nesse texto. Menina escreva mais, escreva muito sobre nós. tenho 66 anos e e sinto assim livre, amando muito, cuidando dos netos e, ao mesmo tempo planejando uma festa só de rock´n roll nos meus 70. Gostei tanto que vou guardar no meu arquivo.
    Parabéns,
    Memélia

    • Memélia, fiquei tão feliz em te ler! tão feliz! bora viver a vida sem se importar com esses padrões engessados e vazios de idade e beleza e liberdade! me convida pra essa festa aí hein?! 🙂

  5. Texto lindo! Ele me lembra (infelizmente) da ideia tão difundida de que a mulher depois dos 30 começa a “decair” por não ter a “beleza e juventude” de antes e o homem começa a ascender, pois é quando ele começa a ganhar dinheiro e fica mais atraente fisicamente. É a lógica masculinista de que, depois dos 30, a situação é invertida e é aí que as mulheres vão implorar pra casar e ter filhos, pois já estão “passando do tempo”. Uma besteira danada!
    Outra coisa que me ocorreu no ano passado: eu sempre vejo fotos da Audrey Hepburn. Ela é mundialmente famosa por ter uma beleza estonteante. Suas fotos são muito difundidas. Mas em todas as fotos, ela está jovem. Até fiz uma pesquisa pra descobrir se ela tinha morrido aos 35 ou coisa assim. Mas não! Descobri que ela viveu até 1993. E pesquisei umas fotos dela mais velha. E amei! Achei tão linda quanto antes, até mais, pois eu particularmente acho muito bonita a expressão de quem viveu e ainda tem beleza nos olhos. Há inúmeros exemplos por aí, outra que eu gosto muito é a Meryl Streep. Linda antes, linda hoje, linda sempre. É isso aí!

  6. Oi Silvia, tenho lido seus escritos com muita felicidade, tocada por sua sensibilidade. Este é muito lindo e cheio de alegria pelo presente da vida vivida com prazer e generosidade. Parabéns. Cris

  7. Boa noite, bem estou procurando modo de vida melhor aos 57 anos. Viúva , filhos resolvidos , moro só.
    Eu amo rock, solos de guitarra, meus cabelos estão grandes, não quero cortar, dizem que corte curto rejuvenesce, mas, eu estou bem , bonita, e com saúde
    para viver, tenho algumas tatoo, discretas ..mas tenho.
    E destoo de pessoas da minha idade que só falam em doenças….affffffff….quero viver, sorrir, dançar, correr descalça na areia, me vestir do jeito que gosto, e posso…mesmo que minha familia alguns , me acham meia irreverente, mas, eu tenho espírito livre. Tenho alguns medos, pois, sofri depressão, sindrome do pânico, mas, estou superando, eu essa semana começo de novo na ginastica, eu gosto, bem umas ruguinhas, tenho que ve-las como vivências….eu posso ser feliz com alguns códigos de barras, meio complicada essa idéia …tento um pouco disfarçar, pois, sou meia vaidosa, mas, dane-se tudo…li tudo aqui…e acho não tenho certeza que , posso viver…até namorar, tenho dificuldade de transar, ainda não me soltei, quero mas, tenho ainda ..marcas de abusos quando criança, mas quero sentir prazer, beijar na boca, andar de moto, sem preconceitos idiotas, eu estou lindaaaa, obrigada por vocês que estão aqui.
    Vou curtir …me vestir como quero, ninguem tem nada com isso né…..e obrigadaaaaaaaaaaa…
    Amei tudo por aqui beijosssss

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