Óculos de aro grosso

Por Danielle Castro*, Biscate Convidada

oculos-fundo-de-garrafa

óculos de aro grosso

Era uma vez Juliana. Era a mulher-ombro. Suportava todas as dores do mundo. Suportava todos os choros. Suportava cada grito ao seu redor. Suportava tudo. Calada. E parecia ser um muro bem forte. Um dia conheceu Francisco. Francisco era de manteiga, mas a embalagem era de concreto. E dizia a Juliana que ela queria só ser forte, mas que nem era tanto assim, embora parecesse gigante quando olhava por cima dos seus óculos transparentes de aro grosso (bem grosso, que era pra combinar com sua figura de muro). Daí que Juliana viveu longos dias ao lado de Francisco. Ouviu Francisco. Fez Francisco (homem de coração mudo?) falar. Aí Francisco descobriu que era de fato de manteiga com embalagem de concreto. Mas aí ele já sabia que era só embalagem mesmo. Pro mundo ele poderia ser só embalagem. Pra Juliana, não era mais. Nem precisava, que manteigas com embalagem de concreto se entendem. Até que chegou o dia de Francisco seguir sua vida. Juliana também. Juliana e Francisco não se amavam mais como casal, mas seguiram se amando como pessoas.

Juliana, então, decidiu que era hora de brincar. Passou toda a vida sendo sisuda, suportando, sendo muro das lamentações alheias (mas como ela amava ouvir os outros…! Era de coração mesmo que o fazia.). Bastava: hora de descer pro play! Juliana conheceu Antônio. Antônio não parecia grave. Não fazia questão de parecer. Antônio parecia uma fragilidade ambulante. Antônio era só docilidade, era lindeza de alma, era leveza de passarinho. Antônio poderia passar horas só vendo Juliana através de uma telinha à distância, só mesmo para vê-la. Juliana também. E Juliana gostou disso. E Juliana se sentiu absurdamente cativada por Antônio, essa pessoa que derramava encantos pelos dedos, olhos e ouvidos. Acontece que Antônio achou os buraquinhos do muro das lamentações. Pingou muitas gotas de doce. Pingou tanto doce, que o muro, encharcado, transbordando doçura. Juliana sucumbiu. Juliana não conseguia mais brincar. Porque brincar é festa, mas Antônio só gostava de festejo cheio de gente e Juliana concentrava toda a sua brincadeira em Antônio. Antônio era os braços pra onde Juliana queria ir. Ela saiu correndo, pulou o vento, saiu na chuva, se molhou, abriu os braços pra Antônio. Mas Antônio não. Antônio tinha duas mãos. E achava Juliana legal, mas não o suficiente para um abraço de verdade (tanta gente pra abraçar? Desperdiçar um abraço inteiro com Juliana?!). Só abraço de brincadeira. Abraçou Juliana, mas só de brincadeirinha. Daí que um belo dia Juliana, num desses saltos e corridas na direção de Antônio, olhou bem fundo (não viu os olhos de Antônio), abriu os braços, deu um impulso forte (Antônio não deu. Só um pulinho.) e começou a se desequilibrar. Suas fundações começaram a ruir pouco a pouco. E o muro desmoronou com poucos empurrões. Antônio, doído porque o muro não parecia mais ser tão bonito, resolveu passar em cima do muro. Pisou no muro. Estava irritado com o muro, porque não podia mais brincar com ele.

Daí que Juliana, muro quebrado, começou a perceber que gostava, como diria o poeta, “de pés livres, mãos dadas e olhos bem abertos”. Antônio não dava as mãos. Francisco as dava, mas não tinha os pés livres. E Juliana decidiu que a partir daquele momento, os pés livres seriam os dela. As mãos dadas seriam as das pessoas que gostassem de mãos dadas. Dadas de verdade. Não de brincadeira. E os olhos bem abertos, esses seriam os faróis. Seus próprios olhos. A olhar pra frente. Seus olhos-faróis, por cima dos óculos de aro grosso.

convidadabiscate *Danielle Castro, nordestina do meio-norte, da ilha de São Luís do Maranhão. Mulher, professora, filha, irmã. Mergulhada com os dois pés na arte do mundo. Equilibrista nas horas vagas. E nas outras horas também. Quer seguir no FB?

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

9 ideias sobre “Óculos de aro grosso

  1. Que sorte de Juliana. Antônio não tinha bons olhos para enxergar o mundo, pq pelo que o texto diz, ele só via a si mesmo. Juliana é bem maior que o pequeno mundo de Antônio. Juliana é vida e movimento. Antônio não lhe alcança. Danielle, que texto lindo, cheio de elegância e força!

  2. Lindo texto…
    Gostei de Juliana, ela parece nunca desistir, apesar de tantas oportunidades para isso… ela se reinventa, cada vez que algo não dá certo.. e vai andando, seguindo em frente…
    Quisera eu, ter a bravura de Juliana…

  3. Dani, que lindo texto!!! Minha visão “desesperançada” da vida é que todos sempre só dão as mãos de brincadeira, para uns a brincadeira dura mais, para outros duram menos, mas no final das contas nunca ninguém dá as mãos de verdade. Juliana de fato é a utopia que todos buscamos… Amei seu texto.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *