Sabe a Miss Bumbum e o Cadeirante? Não é da sua conta

Texto escrito com a consultoria/parceria de Patrícia Guedes*, Biscate Convidada

Vou contar um segredo pra vocês: desejo, tesão, amor, sexo, afeto… nada disso é exclusividade de pessoas jovens, magras, sem deficiências, brancas, heterossexuais e cisgêneras. Afeto, sexo, amor, tesão, desejo, tudo isso é humano e tá presente em todos nós de fio a pavio.

Ontem de manhã uma amiga me perguntou se eu estava acompanhando a polêmica sobre o namoro da Miss Bumbum. Eu disse que não e fiquei preparada pra ouvir o relato mais usual sobre as pessoas com preconceito sobre mulheres que “usam o corpo pra subir na vida”, “mulheres que não se dão ao respeito” e outras bobices assim. Mas os preconceitos relatados não eram (apenas) o machismo e conservadorismo nosso de cada dia.

O preconceito da vez é contra as pessoas com deficiência. Nem é novidade, o preconceito em relação a pessoas com deficiência é aquele mesmo de todo dia, mas no todo dia vem meio disfarçado de benevolência e paternalismo.

1798854_259083914261162_938926218_n

Só não pode tratar de sexo. Aí, cumpade, o buraco é mais em baixo (ou, no caso, melhor seria dizer que o buraco é mais em cima ou que nem se admite a existência do buraco). Magina que pessoas com deficiência (seja física, motora, psíquica, cognitiva, whatever) vai ter desejo. Tesão? Não, não, não (quase que a gente escuta o “eca”). O corpo com deficiência é visto como assexuado, defeituoso, impróprio. Aliás, não só o corpo, à pessoa com deficiência é vedado, implicitamente, o desejo. Não só não pode fazer sexo como não pode desejar fazê-lo. Sobre esse assunto, ninguém fala, ninguém sabe, ninguém viu. Talvez nem exista.

Mas qual a história mesmo? Uma moça que namora um moço. E o moço é cadeirante. E uma enxurrada de comentários imbecis. De maneira geral as pessoas destilam preconceito ao julgar que paraplégicos e tetraplégicos (pra ficar mais próximo do tema, mas isso se estende a vários outros tipos de deficiências) não podem ter vida sexual. Não precisamos nem pensar muito pra ver como o senso comum é limitado na sua compreensão de sexualidade, julgando-a a partir do paradigma heterossexual-cis-penetração-pênis-vagina-homem-no-controle. Sério mesmo que ainda se pensa que sem pau não tem o que fazer na cama? (Sexo sem… #ficadica e é só uma das inúmeras) Esse caso é agravado por outro preconceito: ela, por ser miss bumbum, é hipersexualizada e supõe-se que é difícil de ser satisfeita sexualmente. Mais de um comentarista enfatiza que é “sacanagem deixar um mulherão desses só na vontade”.

Não devia, mas ainda me impressiona a facilidade com que as pessoas se sentem no direito de invadir a privacidade alheia, questionar, julgar e rotular a vida sexual do outro. Sério mesmo, que é que a galera tem a ver com o jeito que as pessoas trepam? Não interessa se eles usam mão, língua, acessórios, se tem ereção, se tem ejaculação, se convidam mais alguém pra festa. Cada adulto, com seu desejo e seu gozo.

Mas é preciso reconhecer, se um corpo não desejável passa a demonstrar desejo, temos um problema grande com o qual a sociedade não consegue lidar. E a reação a ele costuma ser bem violenta. Não por acaso costuma haver tanto preconceito no que tange a sexualidade de pessoas gordas (leiam o gorda e sapatão, leiam sim), trans (leiam o transfeminismo, leiam sim), negras (leiam o blogueiras negras, leiam sim). E pessoas com deficiências.

Lembro quando assisti o excelente filme “As Sessões” (que narra, basicamente, a relação entre uma sex surrogate – parceira sexual substituta – e seu cliente – Mark O’Brien, que é deficiente físico) e quantos comentários desconfortáveis surgiram pelas redes sociais. Um monte de gente incomodado por uma pessoa tetraplégica sentir, manifestar e procurar satisfazer seu desejo sexual.

sessões

O filme é muito feliz ao mostrar, com leveza, o desejo do seu protagonista e (não menos relevante) tratar com naturalidade o corpo não padronizado de Helen Hunt (grande parte das cenas da atriz são realizadas despida ou semi despida). Uma grande parte do incômodo que encontrei nos comentaristas do filme é em relação às coisas que considero grande mérito: a) a naturalidade com que o filme nos leva a encarar a busca da relação sexual e do conhecimento do próprio corpo, empreendida pelo moço com deficiência, b) a desglamourização dos corpos, tirando o foco da beleza esteticamente aceitável, c) o sexo como um elemento presente e ativo na vida de toda e qualquer pessoa, manifestado de forma específica segundo sua vivência e subjetividade (seja o protagonista, a parceira sexual substituta, o padre, o marido da parceira sexual substituta, etc), sem moralismos ou julgamentos de caráter.

Supor a incapacidade de alguém de desejar ou ser desejado tem nome: capacitismo. Ao negarmos a sexualidade de alguém, lhe negamos, automaticamente, representatividade política e social, entre outros direitos. A inclusão sexual da diversidade de corpos existentes é, talvez, a mais difícil a ser feita, já que com tabu não se discute. Mas precisamos. Precisamos desconstruir a noção disseminada que pessoas com deficiência não são aptas a decidir sobre suas vidas. Precisamos desconstruir a idéia de que sexo é exclusividade de pessoas que se inserem no padrão que a sociedade avaliza. Precisamos debater a noção de que existem corpos que “não servem” pra o prazer. Precisamos incluir, precisamos visibilizar, precisamos ouvir. Precisamos sair do paradigma da sobrevivência digna para o da existência gozada.

E como dizem que uma imagem vale mais que mil palavras, temos a Jane Fonda em Amargo Regresso, com seu amante paraplégico, pra não nos deixar cair no moralismo (pode ver aí)

E o que a gente faz com a moça capa-de-revista e o moço cadeirante? Não faz. Deixa que eles façam. Sexualidade e autonomia caminham de mãos dadas. Que entre eles exista (ou não) desejo, tesão, amor, sexo, afeto, apenas: não é da minha conta, não é da sua conta, não é da nossa conta.

patrícia*Patrícia Guedes é arquiteta, feminista, biscate militante e a favor do piriguetismo consciente.

PS. Nosso obrigada à Jussara, com quem conversamos e de quem pescamos umas boas questões.

PS2. Nosso obrigada à Renata Lins que lembrou da Jane Fonda <3

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

3 ideias sobre “Sabe a Miss Bumbum e o Cadeirante? Não é da sua conta

  1. Show o texto. Concordo em todos os aspectos. Por outro lado, sempre reflito, “e se fosse a mulher cadeirante? Será que ela namoraria? E será que ela conseguiria namorar com alguém não cadeirante?”.

  2. Textaço, Lu e Patrícia. Obrigada por ele.
    E fico feliz pelo texto, pelas palavras necessárias.
    Fico triste e me dá um cansaço de pensar o quanto elas ainda são necessárias.
    Respirando, pra poder andar.
    Valeu pela ajuda na caminhada. Sempre.

  3. depende… nem todos(as) que tem algum problema fisico levam a fama de assexuados(as) se uma garota(nao so as meninas como os meninos tambem) tiver feicoes harmonicas e for bonita de rosto e tiver pernas grossas bunda grande cintura fina e sensualidade (desculpe o palavreado) enfim um puta de um corpao e se essa mesma garota(o) tiver algum problema leve tipo pe torto congenito usar bengala ou ate mesmo uma amputaçao abaixo do joelho … o preconceito nao desaparece mas diminui bastante …. o mesmo acontece com as pessoas negras/pardas/mesticas quando as mesmas tem as feiçoes finas ou harmonicas …..mas independente de como a pessoa seja alta ,baixa gay,lesbica ,bi ,gorda ,magra,deficiente,pobre ,rica, negra ,amarela,branca bonita ou feia (pq que eu vou me incomodar com quem o vizinho(a) namora ou trepa? sendo que isso nao vai alterar em nada a minha vida? ) todo mundo merece respeito cada um namora, casa ou trepa com bem entender e ninguem tem o direito de se meter na vida dos outros(mais amor e menos recalque) sem preconceito mas falo isso com conhecimento de causa … ah e o namorado da miss bumbum e um gato 😀 (estou sem acentos aqui)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *