Virtual

Esse post é por causa desse.
Esse texto é por causa dela. 
E por causa de um ele. Sem link.

cadeira

Já estive em tantas esquinas que me esqueço nas ruas: asfalto, calçamento, barro. Agora piso no nada. Ou ainda: transitamos em letras. Uma nova geografia dos encontros. Deseje-me sorte, eu digo, mas queria mesmo era escrever: deseje-me. Queira. Isso e aquilo. Forte. Agora. Enquanto. Me queira. Mas não escrevo. Não isso. Mas continuo fazendo estradas, desenhando mapas virtuais. Escrevo a dificuldade de dizer. E espero que você adivinhe. Porque eu preciso tanto. Preciso: acreditar que é possível. O quê? Um encontro. Com um pouco de sorte: o encontro. Ou apenas: que você me saiba. Que você me leia. Que você me diga. Que você esteja. Na volta. Envolto.

Volto a suas letras: uma sinuca. Verde. Ver-te. As palavras deslizam. Soo inconstante? Eu sou. Vai e vem. Vou e venho. Chego. Acho graça no que não sei. E no que faço de conta. Desaprendo pra te deixar chegar. Porque é tudo miragem, contamos com as letras e nos inventamos. Um-dois, feijão com arroz. E o sonho: baião.  Você se irrita, não acompanha o meu passo. Eu insisto: dois pra lá, dois pra cá. O bem querer é de verdade. E o abismo. É muita estrada, eu sei, você sabe, o Edu Lobo sabia e avisou. Mas eu sou teimosa, eu alerto como um desafio. Porque é isso que te peço com os meus silêncios: insista.

O que eu sei é que às vezes já não vou pra rua, já não espio a janela, já não anseio concretos. Em borrões o que não é letra. Suspiro. Escrevo no guardanapo: me aproveita enquanto estou querendo ficar. Rasgo em tirinhas. E coloco izmália a cantar tão alto pra que eu não escute a vontade. Rodopio com a lua. Entorno o vinho. Faço uma fotografia em preto e branco da alça da minha camisola vermelha e envio com um email desaforado dizendo que se você quiser mais cores, pinte por aqui. Acordo com vergonha da legenda óbvia e torço pra ter escrito o endereço errado. Não escrevi. Até quando acerto eu me saboto.

Você pergunta, eu desconverso. Falo de outros homens, outras camas e exagero na risada. Rimo embaraço com exagero e invento histórias como elas foram mesmo. Você chama de fantasia minha memória e eu me surpreendo porque nunca pensei nisso. Antes. Dá vontade de chorar escondido, mas eu não consigo esperar e digito alegrias com os dedos manchados do rímel que escorre.

Eu me dissolvo. Porque há horas em que é preciso fechar os olhos, fazer compras, ir pra rua. Porque há horas em que sou risada, esquecimento, corpo em outros abraços, ditos em outras conversas. E a distância que a gente faz de conta que não, grita que sim. Eu repito teu nome como um mantra, pra você permanecer existindo mesmo quando não é. Vejo os trilhos e deslizo no óbvio, siga a trilha e me encontre na próxima estação: será primavera. Eu acredito em fadas e bato palmas, eu acredito em você e rio alto e as pessoas me olham na rua. Eu percebo o incongruente: fadas, coelhos com ovos, bruxas em vassouras, você. Volto correndo, deixo as sacolas no balcão e procuro o sinal. Verde. Ver-te. Pra você existir. Em mim.

E isso seria lindo, apesar de. Ou talvez por causa.
Mas é que tenho precisado te tocar.
Além de mim.

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Uma ideia sobre “Virtual

  1. Pára de roubar as minhas palavras antes mesmo que elasnasçam dentro de mim. De traduzir os sentimentos que eu tenho, antes mesmo que eu consiga traduzi-los. Assim não vale.
    Bjs

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