Adoro Ser Viado

Por Cristiano Lucas Pereira, Biscate Convidado*

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Tenho 38 anos e “dou o cu” desde 1988.

E nesses 25 anos de proveitosa viadagem já vi de tudo (ou quase tudo). Fui batizado com meu nome de guerra pelas bichas mais velhas no chafariz da praça principal da cidade; aprendi logo cedo o “pajubá” pra poder desaquendar dos “alibãs” e dos “ocós” homofóbicos; já dei todo o tipo possível de pinta em todo o tipo de lugar; já levei curra; já fodi em lugares que deixariam Madame Satã corada; vi muitos amigos gays morrerem assassinados; vi a grande maioria de meus amigos da adolescência perecerem diante da AIDS.

Mas de tudo que já vi, vivi, ouvi e presenciei, tenho a convicção de que algo estranho tem acontecido entre os viados dos dias de hoje que eu ainda não consigo analisar por completo.

O fato é que nunca vi tanto conservadorismo entre nós, tanta repressão ao sexo, às pintosas e às fechativas e tudo aquilo que denuncia a homossexualidade.Não sei se por causa da AIDS, por causa da internet, de novos padrões de beleza e comportamento ou por essa necessidade doentia de “sermos aceitos” pela sociedade que tanto nos despreza, tudo isso junto e misturado tem provocado nas bichas uma verdadeira aversão à liberdade sexual duramente conquistada pelas pioneiras de Stonewall ou, aqui no Brasil, pelos militantes que editaram o jornal “Lampião da Esquina”.

Aliás, as bichas nem gostam de serem chamadas mais de bichas ou viados. Inventaram agora o tal homoafetivo. Homoafetivo de cu é rola!

A impressão que tenho é que entre nós, gays, é preciso ser monogâmico, ter aversão ao sexo livre, às trepadas inesperadas, às bichas que dão pinta (já que pra ser viado não precisa desmunhecar). É preciso parecer ser hétero, a ponto de queimar qualquer “gaydar”!.

Não estou falando que todos nós temos que sair como cadelas no cio, roçando em tudo quanto é homem na rua(se bem que isso não seria ruim…). O que quero dizer é que o desempenho, a performance e a satisfação sexual são experiências individuais. Alguns preferem pau pequeno, outros preferem sexo grupal, outros gostam de levar uns tapas, outros de dar uns tapas.

Cada um procura a sua maneira de sentir prazer sem apontar os dedinhos para aqueles que sentem prazeres de forma diferente. Por isso, acho mesmo que os caras que aparecem no vídeo de Floripa, durante o Carnaval desse ano, estavam eram muito felizes!

Essa questão toda me faz lembrar do personagem Brian do seriado “Queer As Folk” (bichas mais novas, assistam). Para ele, a forma de combater a homofobia era trepando, esfregando na cara da heteronormatividade a nossa existência, a nossa libido, o nosso tesão.

Até mesmo porque, a gente pode até emular parecer hétero, casar, adotar crianças, deixar pra trás a putaria. Mesmo que a gente seja bonitinho, arrumadinho, sem dar pinta, com o cabelo de primeira comunhão ou escola dominical, sem ter voz de pato, “sem usar gola V” e com as mãos controladas, JAMAIS seremos plenamente aceitos por uma questão muito simples: Não somos héteros!.

E eu particularmente ADORO ser viado.

 

562469_10200325776844636_1182282969_nCristiano Lucas Pereira escreveu esse texto no seu perfil de Facebook. Nós, que somos atentxs às pessoas livres e biscas, pedimos permissão e reproduzimos aqui. Como ele disse: idéias precisam circular. Cristiano é professor na rede pública de ensino do DF, atuando no Núcleo de Diversidade e Educação Inclusiva na Escola de Formação de Professores/as do DF, militante na Cia. Revolucionária Triângulo Rosa e orgulhosamente bicha. (quer saber mais? veja esse vídeo)

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