A delicadeza do amor possível

Porque eu descubro a cada dia,

Com os olhos fundos de agradecimento

Que ainda melhor que o sonho

É a vida possível.

A delicadeza do amor possível

A delicadeza do amor possível

O cheiro do café invade a casa no sábado de manhã, cheiro morno de aconchego saindo pelas frestas da janela que nos guarda da chuva. A casa desarrumada e nossos restos de ontem espalhados pelo chão. As crianças brincando no quarto, o pão quase queimado, a louça desordenada na pia que a gente não lavou. Você.

Nossos pés enlaçados enquanto você devora o livro comprado na mesa do bar. Em meio aos nossos copos sempre cheios de risadas e indagações sobre a vida. Você me beija e volta os olhos curiosos para os mistérios de Philip Roth, perdida nas letras e em outros tantos lugares. Aí eu te abraço forte e deito sobre seu corpo, perdida em outras paragens. Tão lá e tão aqui, tão junto, tão. Tão bom. Tão eu.

Volto ao café, preparo o filme na Tevê, enrosco-me no tesão que me sobe o corpo quando você levanta meio dormindo, enche a xícara e acende o cigarro. Então eu te digo algo sobre as minhas pirações existenciais, o papo vai da preguiça de fazer o almoço até a falta de qualquer definição sobre sexualidade, de Foucault até a fofoca que a gente leu no facebook. Filosofamos e rimos das nossas maluquices acolhidas, falamos besteiras, o dia passa, a manhã se vai.

Sorrio de repente ao estar feliz, tão feliz no possível que me invade o coração. Semeio os grãos, coloco os pés na terra com um prazer indescritível de sentir o molhado, vivo, por entre os dedos. E oscilo como sempre, visito a tristeza da finitude, olho de longe a angústia da vida que vai e nunca mais volta a mesma. Dessas que eu te falo, e te choro em silêncio quando a noite vem e eu não sei.

Então abro as mãos e deixo ser. Na beira dos meus abismos, flerto o escuro e a vertigem me acorda. Não, eu já não pulo. Escolho as trilhas que me levam para o alto da montanha, para a beira da praia, para o meio do caos da cidade que a gente passeia com vontade de mais. Para a felicidade possível de se apalpar em suspiros. Para a coragem de poder, e ser permitir, ser feliz no que tocamos com os olhos admirados de encanto. O possível que nos enche de pequenas e extraordinárias grandezas.

E mesmo aqui a gente continua não sabendo, a gente tem medo, a gente fraqueja em nossas humanidades e contradições de ser. E a gente também é forte (ou quase) para seguir em frente assim, como for, na reinvenção sempre constante de ser quem se é. E quem se é mesmo?

Olhamos a pergunta e nos perguntamos. Alto, consentido. Aqui onde o amor invade e as perguntas podem ser feitas. Onde a gente não é nada e pode ser tudo ao mesmo tempo. Onde não temos definições, apenas mais querer e não saber. E que assim cresça, com nós duas tão despidas de certezas e tão vivas no presente. Aqui, e agora. E que.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

4 ideias sobre “A delicadeza do amor possível

  1. Querida Sílvia, quase sempre eu queria ter escrito os textos que você posta. Porque são lindos (e também plenos e ricos no conteúdo). Mas é um querer que tem aquele agridoce de saber que nunca poderia, porque o estilo, ah, Flaubert já anunciava Madame Bovary sou eu! e eu nunca duvidei. Até que, hoje. Eu sei, você pôs as letras, uma a uma, fez as frases, deu o laço. Tá aí, assinado e tudo. Mas tô quase reivindicando os quatro primeiros parágrafos de tão meus, de tão eu que são/estão. Loveyou.

  2. “Então abro as mãos e deixo ser. Na beira dos meus abismos, flerto o escuro e a vertigem me acorda. Não, eu já não pulo. Escolho as trilhas que me levam”…
    Leio e choro.
    Choro de repente de tanto me reconhecer.
    Embora não saiba se já não pule.
    É busca permanente.
    E o chorar é de alívio.
    Ainda estou aqui, afinal.
    Obrigada pelo texto, Silvinha.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *