Dos extermínios

Dos extermínios

Dos extermínios

Pátria amada

O que oferece a teus filhos, sofridos

Dignidade ou jazigos?”*

Pois então. Vivemos num Estado Democrático e Social de Direito. Um Estado que garante, já no seu primeiro artigo constitucional, incisos II e III, respectivamente, a cidadania e a dignidade da pessoa humana. Dignidade, esse conceito amplo, que tentamos diariamente alocar para dentro do Direito. De que tentamos nos apropriar para agir e lutar diante das atrocidades que vemos todos os dias estampadas em jornais, revistas, mídias sociais e nas ruas deste país. É, esse mesmo país.

De quem é essa dignidade? Quem é essa “pessoa humana” que tem direito à dignidade? E mais, quem tem direito à vida? Essas perguntas ecoam diante do extermínio que assistimos, cotidianamente, da população negra e pobre. (Sem contar o feminicídio e as mortes de homossexuais por homofobia).

Abre parênteses = “Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”. Fecha parênteses.

Não, não somos. Não temos todos o mesmo direito à vida e à liberdade. A essa famosa dignidade. Pelo contrário. Esses direitos, na prática, são relativos e pertencentes a uma minoria branca e abonada. Para a maioria sobra assistir, em mornas rebeldias, o extermínio consentido e declarado do “resto” da sociedade.

“Vamos às atividades do dia:

Lavar os corpos, contar os corpos,

E sorrir,

A essa morna rebeldia…”*

Essa semana foi a vez da Cláudia. Mulher, negra, pobre, executada cruelmente pela polícia carioca (aqui). Cláudia foi comprar pão, num dia como outro qualquer. E nesse trajeto foi baleada erroneamente pela Polícia. Para se livrar do “corpo estendido no chão”, a polícia arrastou Cláudia, ainda viva, com seu corpo batendo fora da viatura em movimento. Como um saco, um objeto que não serve mais, um dejeto que não merece sequer um lugar para ser depositado.

Essa cena hedionda me fez chorar tanto. Essa mesma cena hedionda que é cotidiana nas favelas e em tantas comunidades periféricas. Tantas mortes protagonizadas pela Polícia que deveria, em tese, garantir exatamente a segurança de todos nós, cidadãos brasileiros, independente de etnia, condição social, gênero, sexualidade ou cor da pele.  É o Estado exterminando gente que não interessa para a elite. Gente que atrapalha porque ameaça a segurança das posses e propriedades capitalistas e higienistas. Das tradições cristãs desse Estado machista e homofóbico.

Cláudia é mais uma mulher exterminada pela polícia. Mais uma negra. Mais uma vítima do nosso pretenso Estado de Direito. Mais um corpo jogado fora pelos nossos “donos do poder”, que são os únicos nesse país que podem bater no peito e fazer valer seus direitos de cidadania, vida, segurança e dignidade.

E andam ressaltando pelas notícias internet afora que Cláudia era mãe de 4 filhos, casada, e cuidava de mais 4 sobrinhos. Uma mulher de “respeito”. Uma mulher “correta”. Preocupa-me esse argumento porque não importa se Cláudia era mãe, auxiliar de enfermagem, prostituta, traficante, dona de loja, se tinha ou não filhos, se dava pra todo mundo, dançava até o chão no baile funk ou era casada. Cláudia era um ser humano que merecia respeito. Não porque era casada ou tinha filhos. Mas porque era uma cidadã deste país, que deveria zelar pela sua integridade e dignidade.

É, vivemos em uma sociedade que executa seus cidadãos pobres e negros, bem como suas mulheres, sob o manto de um Estado Democrático e Social de Direito. Já é hora de destruirmos esse véu, de desnudarmos a realidade, e de fazermos valer esse Estado que no papel é de todos.

Vamos ao Criolo?

*Versos da música Lion Man, do Criolo

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