E a Propaganda da Riachuelo no Dia da Mulher?

Vocês viram a propaganda da Riachuelo? Eu vi. Você se indignou? Eu também. E depois fiquei matutando. E terminei achando que foi muito consistente com as representações de mulher presentes na nossa publicidade e na cultura em geral. Nós não existimos. Não temos rosto. Não somos sujeitos. Não temos vontades, desejos, gerência. Nós servimos. Nós suportamos. Nós somos braços, pernas, corpo que se molda ao desejo alheio, por “vontade” (cof, cof) ou à força bruta.

Na propaganda do Miojo Light, somos, novamente, invisíveis, só existimos pela narrativa dos homens que estão lá, pedindo “desculpa” numa montanha de clichês. Desculpas por coisas que não tem relação direta com nossa existência individual (baixar a tampa da privada, oi? ficar jogando videogame ou deixar roupas espalhadas), mas por quem nós, mulheres, somos supostas, em relação a eles (sem falar da aberração transfóbica, cissexista e biologizante que é relacionar “comportamentos masculinos” machistas com “ser homem” com “cromossomo y”).

No Bem Estar, programa matinal da Globo, na véspera do dia da mulher e em referência a esse dia, para falar da saúde da mulher, nós tivemos, tchanrã: dois homens. E no decorrer do programa ouvimos a pérola: “com todo respeito ao marido da Fulana, a Fulana está um chuchuzinho”. Ou seja, ela, Fulana de tal, não merece o respeito por si mesma, não pode decidir quem e como falam do seu corpo… esse privilégio é do marido (e no programa seguinte, a discussão sobre o dia da mulher se refere a “ser uma boa mãe”. Pausa pra gente refletir o quão errada é essa abordagem… aí seguem depoimentos de mães dizendo o tanto se sentem culpadas por trabalharem e não poderem ficar levando o filho pra escola pessoalmente todo dia – mais uma pausa pra desengasgar da raiva).

Na mesma semana um blog de um comentarista político publica nota sobre a presidenta…sobre as políticas públicas para mulheres? Não. Sobre a posição do Brasil na situação da Ucrânia? Não. Sobre a omissão do Brasil em relação ao massacre diário das minorias no Brasil? Não. Sobre a repressão policial violenta de qualquer manifestação pública? Não. Sobre qualquer tema político de relevância? Na-na-na-não (e eu me sentindo na música do Plunct-Plact-Zum). A nota super importante era sobre a presidenta repetir uma blusa. Atenção: a nota política relevante sobre a atuação da presidenta de um país enorme e contraditório é sobre uma peça de roupa repetida. Certamente não uma gravata ou paletó. Uma blusa. Um blusa de mulher. Porque, claro, antes das preocupações relativas ao cargo a gente tem que saber se a mulher está cumprindo direitinho sua principal tarefa social: servir de enfeite.

Uma das músicas que anda fazendo sucesso atualmente tem uma lista de reclamações do “moço-super-legal-trabalhador-que-não-faz-farra-e-paga-as-contas”: banheiro bagunçado, pia cheia de pratos sujos, roupas amarrotadas… porque, óbvio, a existência da mulher é definida pela sua precisão em deixar mais confortável a vida do homem, dos filhos, do chefe, da mulher mais rica, whatever, a vida de alguém que é sujeito e tem voz e imagem (e rosto, né, Riachuelo). E, a seguir, vem a ameaça: “se eu largar o freio vão dizer que eu sou ruim”. Olha, a gente não quer nem pensar no que é esse freio aí. Mas boa coisa já se sabe que não é. E, claro, ele está com a razão, no imaginário da sociedade que não se cansa de arrumar boas justificativas pra legitimar a violência contra a mulher: justificativas que vão desde a roupa curta ao não cumprimento de suas tarefas domésticas, com um amplo espectro entre um e outro pra você inserir todos os preconceitos possíveis.

A gente podia passar um tempão aqui elencando exemplos da cultura onde as mulheres, sua diversidade, sua voz e seus desejos são silenciados e invisibilizados. Li o excelente texto das Blogueiras Negras sobre a propaganda da Riachuelo e fui fazer um teste simples no google, coloquei na busca de imagens e escrevi “propaganda Dia da Mulher” e as primeiras imagens que vieram são as que se seguem. Não é preciso ser especialista em análise de conteúdo pra entender a representação cristalizada, cisnormatizada, elitista, heteronormativa reproduzida em todas elas.

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Aí pensei que o termo propaganda pudesse ter desvirtuado a busca e coloquei apenas “dia da mulher” e o festival de horrores se acentuou:

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A mulher é, nessas narrativas, em função de. E não espera recompensa (pra que, né? sua satisfação deve ser se submeter e agradar ao Outro ou a Outra que se coloca, eventualmente, no lugar de poder que oprime). O segundo cartaz/mensagem é ainda mais explícito: somos passíveis de adjetivação, não se substantivação. Não há materialidade, história, classe, geografia pra nós, mulheres. E daí pra biologização dos comportamentos e a naturalização dos papéis sociais…

Repetimos: Nós não existimos. Não temos rosto. Não somos sujeitos. Não temos vontades, desejos, gerência. Nós servimos. Nós suportamos. Nós somos braços, pernas, corpo que se molda ao desejo alheio, por “vontade” (cof, cof) ou à força bruta. E esse nós é assim mesmo, escalonado. Na ordem patriarcal, não existe um jeito certo de ser mulher. Não existe uma forma fácil. “É como o pecado original, você nasceu e isso já te condena. Variam as punições, não o veredito.”* Sofrimento não tem trena nem balança. Não é pesável, medível ou comparável. Ainda assim, para além das vivências individuais, sabemos que há grupos que, estruturalmente, arcam com ônus maiores por vivermos em uma sociedade machista, sexista, classista, racista, homofóbica e transfóbica. Sem fazer Olimpíada de opressão é preciso reconhecer que, mesmo sendo impossível o papel da mulher perfeita, as mais imperfeitas estão aí pra serem repudiadas e execradas todo tempo: se for gorda, se for negra, se for índia, se tiver pênis, se não puder ou quiser ter filhos (ou, mesmo, parir), se for lésbica, bissexual…

Nesse Dia da Mulher, nós, biscates, queremos não só lembrar que esse é um dia de luta. Queremos nos juntar à pergunta que a Thayz Athayde fez no Blogueiras Feministas: Dia das mulheres? De quais mulheres?.

Queremos dizer que existimos e somos diversas (e a pesquisa sobre a Mulher na Propaganda, feita pela Agência patrícia Galvão, ecoa). Biscates. Nós temos rostos que não são representados na publicidade mas marcados pelo riso, pelo gozo, pelas perdas, pelo engolir em seco, pelo engolir o sapo, pelo grito de protesto… Nós somos sujeitos, fazemos escolhas, pensamos e decidimos, mesmo limitadas pela conjuntura, cultura e história. Nós temos vontades… seja de consumir, de amar, de trepar, de pertencer. Temos desejos… de ser feliz, amadas, livres, o que for. temos gerência, mesmo quando reconhecemos os obstáculos estruturais. Queremos dizer que somos diversas e nossa luta é pra poder dizer. Poder sermos vistas além do que fazemos e somos para o outro. Podemos cuidar, mas não nos reduzimos a isso. Podemos servir, mas não nos reduzimos a isso. Podemos suportar, mas não sempre.

Não aceitamos ser reduzidas. Silenciadas. Apagadas. Reconhecemos que é contra a propaganda da Riachuelo a nossa luta. Pelo que ela é e pelo que representa.

(como sugestão, espiem os textos da nossa tag #LuzNasMulheres que, no ano passado, recebeu com alegria o discurso de várias mulheres em suas especificidades. Não falamos por elas e isso nos faz muito feliz).

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