Maria de Fátima Pimentel Lins é sujeito da história

Por Renata Lins.  Fotos: Antonio Miotto.

Ela. com o nome todo. Maria de Fátima, e não Fáfa (assim com acento no primeiro “a”), porque ela gosta desse. Pimentel que é o nome da família de onde veio e a que pertence, tanto, sempre: de Paudalho, meu avô e minha avó. Lins que é o nome que ela adotou depois que casou, que é tão dela também.

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Dali vem. A família, que nutre e que se espalha,  que dá origem e sentido. Tradições, como a “Folhinha do Sagrado Coração de Jesus” que ela compra todo ano e dá para os filhos, os irmãos, os sobrinhos. Como fazia meu avô. A religião, que faz parte dela de um jeito alegre, que lhe abriu a porta para a política. Porque ela levou a sério essa história de “somos todos irmãos” e foi lá tentar ver o que dava pra fazer. Entrou pro movimento de juventude católico, filhote da teologia da libertação. JEC, JUC. Viagens, amizades. Ampliação de horizontes. Vontade de transformar. Veio dali.

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Veio dali também, acho, a escolha do curso: Serviço Social, na escola onde Paulo Freire dava aula. Pra botar a mão na massa, pra fazer o que estivesse ao seu alcance. Utopias concretas. O primeiro projeto de conclusão de curso era um projeto de alfabetização pelo método Paulo Freire. Numa favela do Recife. Ela sempre conta que ficou surpresa quando, junto com algumas colegas de curso, foi perguntar do que era que aquelas pessoas tão despossuídas sentiam mais falta: essa seria a base do projeto delas. Pois bem, foi isso. Aquelas pessoas queriam saber ler. Saber ler pra poder entender com a própria cabeça. Escrever com as próprias palavras. E elas entraram de cabeça no projeto: alfabetizar aquele grupo de gente que não tinha nada, mas queria cidadania. Pela alfabetização.

Corria o ano de 64 e estava tudo planejado: ela iria se formar e casar no final do ano. Seu noivo Marcos (noivado recente, do ano anterior) trabalhava com o prefeito do Recife, Pelópidas da Silveira. Ventos de mudança por ali, pelo Nordeste inteiro. No Rio Grande do Norte, a campanha “De Pé No Chão Também Se Aprende A Ler” era símbolo da prefeitura de Djalma Maranhão. Método Paulo Freire, ainda.

E teve o golpe. E mudou tudo. Pelópidas foi preso, Marcos saiu do Recife, por dúvida das vias. Pra São Paulo. O Dr. Antônio Pimentel decretou: “filha minha não sai de casa sem estar casada”. Pois muito bem: casou por procuração. E até hoje ela comemora “o dia em que casei com meu pai”, rindo de ter realizado a freudiana fantasia de toda menina. Casou no religioso, depois, em São Paulo. E foram pra Paris, assim de repente. Depois para a Argélia. E, quando ela ficou grávida, voltaram para o Brasil, para sair de novo, dez anos depois, fugindo da polícia da ditadura.

Com isso tudo, a formatura não aconteceu. História interrompida. Fio solto e sempre, apesar de todas as realizações, meio dolorido. Tanto que foi o pedido feito à Comissão de Anistia: ter o direito de se formar. Só faltava a monografia, o trabalho de conclusão de curso.

E assim, cinquenta anos depois, ela vai se formar. Na UFRJ, dessa vez. Apresentando um memorial em que conta essa história, sua história.
“Não é a história toda… mas é a minha verdade”. Esse o título do memorial. Depois de tanto tempo. Tanta luta. Tantas perdas. Tantas paisagens: Paris, Argel, Genebra, Brasília, Roma. E o Recife como pano de fundo, onde começava o mundo. Pelo menos o mundo deles.

E a gente, os filhos, a gente vai tar lá pra bater palma, pra ver a reparação dessa perda que parece pequena, e é tanto. A gente se alegra, a gente vibra, a gente lembra daquele que foi seu companheiro durante quarenta anos e que não vai tar aqui pra ver isso. Mas, de alguma maneira, vai.
Esse texto é pra ela, é pra ele também. Com orgulho e gratidão.

Viva você, mãe. Vai ser lindo.

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Lu e Fátima. Biscateando…

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6 ideias sobre “Maria de Fátima Pimentel Lins é sujeito da história

  1. Que lindo, Rê! Todos, todos os vivas para a Fátima e para a família, comemorem muuuuuuuuito!!!!!!!! Essas história tem me feito ganhar o dia vários dias…
    Beijo muito grande, vai ser lindo sim, lindo demais…

  2. De encher os olhos d’água, o sorriso no rosto e a esperança no peito. Linda. Quero ler esse memorial. Se houver divulgação eletrônica, compartilha com a gente Rê. Bjus

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