Minha Mãe Biscate

Por Adriana Torres*, Biscate Convidada

Seis de  março.

Você acordaria cedo, mãe, (como acordava todos os dias de sua vida, nunca entendi o motivo) e faria o café já pensando no lanche que serviria para as “meninas” (suas amigas e irmãs eram meninas para você, não importa com qual idade estivessem) em comemoração aos seus setenta e um anos de vida.

Provavelmente, entre um cigarro e outro, entre um telefonema e uma “paciência”, puxaria da memória alguns dos diversos momentos que marcaram sua caminhada. Tropeços? Vitórias? Perdas? Não importa. A cada lembrança, resgataria uma música que representasse a cena…

Poderia ser sobre seu relacionamento com meu pai, e com certeza sairia um “Solamente una vez, ame en la vida…”, para logo depois levantar a sobrancelha, estreitar os olhos num ar de desafio e berrar para todos os vizinhos ouvirem: “Nunca, nem que o mundo caia sobre mim, nem se Deus mandar nem mesmo assim as pazes contigo eu farei…”

Com lágrimas nos olhos lembraria da sua filhinha, Patrícia, que morreu tão jovem, com apenas sete anos de idade e transformaria o canto em um lamento de dor com a valsinha que fez para ela: “… era ela linda, uma jóia uma rosinha em botão, quando partiu levou junto pedaço do meu coração…”

Mas logo estaria novamente dançando e sorrindo, cantando até acordar quem se atreveu a ficar mais tempo na cama: “Viver e não ter a vergonha de ser feliz…”

Você levou a vida cantando, biscateando e sambando na cara da sociedade. E essa lembrança me acompanha a cada dia, mesmo após quase seis anos de sua partida para o mundo de lá.

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Tinha tudo para ser apenas mais uma madame da high society, mas quis o destino pregar-lhe uma peça de horror e você, com seu atrevimento, com seu orgulho e – porque não? teimosia – transformou sua vida em um exemplo para mim.

Quando a Patrícia morreu, seu mundo dourado desabou. Você tinha mais do que o necessário, material e emocionalmente falando. E, mesmo assim, agarrada ao túmulo de sua filha, ainda gemeu dizendo que agradecia a Deus não ter levado seu marido, seu grande amor, a razão de sua existência…

Ah, tolinha. Um pedaço dele se foi com a pequena Kika. E ele não conseguia ter a sua força, a sua incrível capacidade de se reinventar. Entregue à bebida e ao carinho de outras mulheres, a cada dia destruía o amor que construíram com o menosprezo, com agressões, com seu machismo.

Quando você mais precisou de sua presença, do seu amor, ele não deu conta, mãe. E você não deu conta disso também. Não era justo. Não era nem um pouco justo.

O divórcio foi o início de sua vida biscate, não é mesmo, minha mãe? Você, que nunca trabalhou na vida (para que, dizia ele? Eu sou diretor de empresa, temos dinheiro, você não precisa trabalhar, cuide de nossa família…) se viu com alguns trocados por mês e quatro filhos para criar.

Só, profundamente só. Familiares lhe desprezaram. Amigos. A tal high society. Divórcio em uma TFM? Horror, horror, horror! Era preferível manter a aparência, mulher direita não separa!

Você sambou na cara deles e foi em frente, com a cara e a coragem.

Fez o supletivo e por poucos pontos não conseguiu entrar na faculdade de direito, seu sonho. Enquanto isso, fazia bicos como chofer do pai, entregando marmita para os novos amigos, trabalhando aqui e ali, quando os filhos deixavam, quando a vida deixava.

Mas a vida biscate não se resumia aos freelas. Deve ter sido por ter virado uma biscate que o ginecologista, sem sequer examiná-la, ao saber que era uma mulher separada afirmou que você teria uma perigosa doença venérea. Ainda bem que a Tia Olga levou-a a outro médico, para provar que era “apenas” machismo, né?

Também deve ter sido pelo seu lado biscate que o marido da vizinha resolveu começar a tocar a campainha lá de casa nas madrugadas, com a esperança de receber algo mais da “nova desquitada” da cidade.

Foram muitos casos, muita mágoa, mas também muita diversão. Ah, sua biscatagi era a salvação da rotinha massacrante de criar quatro filhos contando cada centavo, arrumando um trabalho aqui e ali, sem deixar de sonhar, de cantar, de sorrir.

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Dos diversos namoros, das desilusões, das cantorias e do dia a dia, você foi construindo pérolas, que transmitia diariamente para suas crias:

“Nunca case virgem. Sexo é 50% do casamento e você deve gostar de fazê-lo com seu marido. Como saber se será bom se você não conhecer antes?”

“Mulher deveria se valorizar mais. Casa com qualquer coisa, nunca vi. Só não casa com carrapato porque não sabe o sexo, senão casava!”

“Filhos, marido, amigos, todos são muito importantes na vida. Mas lembre-se: em primeiro lugar deve estar você; em segundo lugar, você e em terceiro lugar, você. Ninguém pensará nessa ordem ao seu respeito.”

“Acha fulano muito bonito para você? Lembre-se que ele caga, faz xixi, tem dor de barriga igualzinho a você. “

“Faça da vida o que quiser, mas tenha sua carreira e não abra mão dela. NUNCA, NUNCA DEPENDA DE UM HOMEM” (essa eu grifo pois era uma frase recitada diariamente, como um mantra).

“Não seja como eu. Não se deixe levar tanto pelo coração, use a razão. Ela não vai lhe deixar na mão.”

(Essa última eu fracassei redondamente, D. Inês. Desculpa aí. Ou não).

Sua biscatagi a fazia sonhar em desfilar algum dia pela Mangueira, com um biquíni bem pequenino, não importando se seu corpo não cabia nas métricas da sociedade. Sua biscatagi nos levava em serenatas, butecos diversos, reuniões festivas sempre acompanhadas pelo seu violão, que hoje me observa do cantinho, meio amuado, já que não tenho seu talento para dedilhá-lo…

Não gosto de lembrar das suas atitudes machistas. Elas faziam parte da sua criação. E ainda faz parte da cultura da maioria das mulheres, afinal, o sistema patriarcal é o que nos estrutura. Você privilegiava nosso único irmão homem dispensando-o de tarefas domésticas e isso me deixava realmente injuriada. E as frases machistas eu preferi apagar da memória, memória essa que sempre se torna seletiva após a morte.

Eu gosto de pensar sempre na sua parte melhor. É o que fazemos quando os que amamos se vão e ficam ao mesmo tempo.

Eu prefiro lembrar da minha mãe biscate.

Cantando, de sobrancelha levantada, sorriso irônico no rosto e a voz melodiosa explodindo por todos os cantos da casa:

“Não me venha falar na malícia de toda mulher. Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. Não me olhe como se a polícia andasse atrás de mim. Cale a boca e não cale na boca notícia ruim. Você sabe explicar, você sabe entender tudo bem. Você está, você é, você faz, você quer, você tem. Você diz a verdade e a verdade é seu dom de iludir. Como pode querer que a mulher vá viver sem mentir…”

Feliz aniversário, D. Inês! <3

(mais textos biscates sobre mães: “Para além de mãe e filho“, “Mãe, Feminista, Biscate, Perguntadeira, Operárix em Construção“, “Mãe-objeto“).

adriana torres*Segunda vez que Adriana Torres, essa bisca convidada ingrata, escreve por aqui, devendo muito mais do que dá conta de pagar, mas a gente finge que entende porque tem filhote de um e meio, cinco cachorros, duas gatas, trabalha de frila em frila, tem três trampos voluntários e ainda arruma tempo pra ler comentários no facebook.  Oh dó! =D

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3 ideias sobre “Minha Mãe Biscate

  1. Chorando aqui, Dri.
    Que linda D. Inês.
    Viva ela.
    Parabéns! Alegria, como dizia meu pai.
    Que também gostava de uma biscate… 😉
    Beijo grandão.
    Vou fazer um brinde hoje, pelo aniversário.

  2. Em lágrimas aqui Adriana e me reconhecendo também em muitas partes dessa história. Mas, mesmo dizendo que não ouviu muito o conselho dela, de agir mais com a razão do que com o coração, acho que você herdou a força da sua mãe. Ah! As mulheres, porque duvidamos tanto da nossa força? Da nossa coragem de, apesar de tudo que poderia nos grudar na cama todos os dias, a gente conseguir levantar, correr atrás do prejuízo e viver uma boa e saudável biscatagi.

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