Nunca Te Direi

Há uma porção de coisas que nunca te direi. Porque não quero ou não posso ou não sei. Porque não há palavras para elas. Porque são tão pequenas e a vida tão rápida. Porque os meus dois pés no teu peito me derrubam. Porque doem. Porque são de uma outra eu que já se foi, ficou na memória e no abraço de alguém. Porque ainda não chegaram. 

Há uma porção de coisas que nunca te direi. Farei silêncio espiando os olhos que não procuram os meus. Ensaio conversas que nunca serão. Faço listas. Crio códigos e finjo acreditar que você me decifra. Meu corpo pra você aprender braile. Rio baixinho, um desejo também pode ser companhia, será que isso eu posso te dizer?

Há uma porção de coisas que nunca te direi. Não vou te contar das sombras em mim. Não vou perguntar do outro tanto de sombras que adivinho em você. Em silêncio, corredores cinzentos, pátios semidestruídos, cômodos abandonados. Câmaras escuras onde o risco é a gente se encontrar.

Há uma porção de coisas que nunca te direi, você tem demasiado a perder. E eu só queria te ganhar. Infame, eu sei. Por isso não falo da vontade de andar, firme, pelos espaços seus, como se o anseio legitimasse a invasão. Sinto uma ternura doce e imagino como seria deitar sua cabeça em meu colo e deixar os dedos espalharem-se na sua pele.

Há uma porção de coisas que nunca te direi. Como eu flerto com os abismos. Como faço de conta que podia dar certo. Faço uma prece, ou quase, eu não sei rezar. Não sei dançar tão devagar, canta marina e eu com ela. Não sei dizer. Só queria que você soubesse: há uma porção de coisas que nunca te direi.

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