Ralo

Sabe quando seu moço (ou moça) transa com outra pessoa, resolve aceitar um emprego em outra cidade ou vai passar o fim de semana acampando com os amigos? Uma notícia que não deveria surpreender: geralmente não tem nada a ver com você. Não é porque você está gorda. Nem porque você é magra demais. Não é porque você está trabalhando muito.  Não é porque seus filhos são malcriados.  Ou porque seus pais foram meio ranzinzas no jantar passado. Não é porque você deu pouca atenção.  Ou atenção demais.  Não é porque você está ficando velha. Ou porque você é jovem demais pra entender.  Não é porque você não é boa de cama. Não é porque você gosta tanto de sexo que “ai-meu-deus-essa-mulher-é-uma-vadia”. Não é porque você não gosta de futebol. Não é porque você não entendeu a piada com Jon Snow. Não é porque seu cabelo está curto, branco ou longo demais. Não é porque você não se depilou pro fim de semana na praia. Não é porque você chegou cedo, tarde, não é porque você esqueceu, não é porque você reclamou que elx esqueceu. Não é porque você não é boa o bastante para fazê-lx completamente feliz. Muito provavelmente quando seu moço (ou moça) transa com outra pessoa, resolve aceitar um emprego em outra cidade ou fica contente de passar o fim de semana acampando com amigos é apenas porque elx é uma pessoa. Uma pessoa que sentiu desejo. Ou ponderou a carreira. Ou gosta de natureza, privação do conforto e papear com esses amigos aí. Uma pessoa que demanda além do que qualquer outra pessoa seria capaz de oferecer. Incluindo você.

ralo

Nessa vibe, desenvolvi um dos meus aforismos basilares (ficou chic, hein): o amor é um grande ralo. Um ralo enorme, sem tela, daqueles que suga tudo. Pode deixar a torneira aberta que a vazão está garantida. O amor tudo absorve. E quer mais. Nunca é o bastante, por mais que o outro dê, faça ou diga. Passaram o dia juntos e só se separaram a noite? Não custava ele ter mandado uma mensagem de boa noite. Ela viajou a trabalho e todos os dias, antes de dormir, manda fotos do quarto e mensagens erótico-carinhosas? O que será que ela faz na hora do almoço que ocupa o tempo todo. Se ela mostra que ama, porque ela não diz? Se ele diz, porque não escreve? Se escreve porque não contrata um avião pra escrever a declaração no céu com fumaça? Nunca é o suficiente porque o que desejamos é uma completude impossível. Ansiamos pelo que nem sabemos nomear, pelo que está sempre além, dobrando a próxima esquina. Não, não essa a próxima. A seguinte. Sempre além. E demandamos, demandamos, demandamos.

Como é preciso dois para dançar o tango, muitas vezes o outro tenta oferecer o que supõe que desejamos: tempo, atenção, coisas, sentimentos. O outro tenta suprir o vazio que aquele ralo com sua boca escura e insaciável aponta. Enquanto tenta cumprir a promessa, falhada por vocação e princípio, de nos saciar, o outro vai derramando no ralo ditos e ações que, em algum momento, podem entupir (-nos). E, aí, engasgamos. Regurgitamos (eca). Devolvemos, meio indignados, tudo isso que não pedimos. Eu não queria seus ciúmes. Não queria conhecer seus pais. Não queria as entradas para o show raro desse cantor que eu só fingia conhecer. Não queria as panelas de cobre ou aquelas figurinhas raras dos jogadores da seleção de 74. Não queria tudo isso que entupiu os canos, porque o que eu queria eu não sei, não se pode saber, não se pode delimitar. E, principalmente, nunca está onde supomos. O que eu queria o outro não sabe, ele oferece o que ele supõe querer. O que serviria, acha ele, para o seu próprio ralo.

Já cantava a Fafá de Belém, “viver não é fácil não, pergunte ao eu coração”. Vou falar de mim, então. O que eu fiz e faço. Também fui submetida a essa socialização que demanda de nós, especialmente das mulheres, uma postura de espera do grande-e-perfeito-amor. Mas descobri que não é nisso que acredito e não é isso que quero pra mim. Resolvi que não adiantava esperar “mudar a minha forma de sentir” pra agir diferente. Era preciso agir diferente pra ir mudando minha forma de sentir. Então eu procuro agir de acordo com a pessoa que eu quero ser e, pouco a pouco eu vou me aproximando dessa pessoa (ótimas dicas, aqui, nesse post da Renata). Para além disso, também sou humana e tenho esse ralo enorme no peito.

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Nem sempre é fácil ser quem queremos ser. Nem sempre é fácil agir como escolhemos, fazer concretos os valores que soubemos construir em discurso. O que fazemos com o que sentimos é, penso eu, tão ou mais relevante do que o que sentimos em si. Não se trata de renegar sentimentos ou ser mais racional que emocional. Trata-se, no meu caso, no meu caso, repito, de fazer o que me aproxima do que acredito.

A outra coisa que faço, que me leva mais perto do que me quero, é tentar separar ou inverter algumas coisas que nos ensinam que devem vir juntinhas como sexo e amor, precisar de alguém e esse alguém precisar da gente na mesma medida e hora e forma, completar e ser completa por alguém… Por exemplo: eu acho que a gente precisa de alguéns mesmo e que não funciona bem pensar: eu não preciso de ninguém, porque dá aquela hora que queremos sexo, que queremos dormir de conchinha, que queremos passar a tarde bebendo cerveja e conversando (e aí, pra mim, pode ser – ou não – com a mesma pessoa, por isso eu coloco no plural). Por outro lado eu estou convicta que somos seres de incompletude e nem vários alguéns nem um alguém especial vai alterar essa que é uma condição da minha humanidade então isso faz com que eu tenha mais paciência com meus relacionamentos, que eu não espere que ele (relacionamento) e/ou ele (moço) me completem, me satisfaçam inteiramente, acabem com qualquer dúvida ou vazio. E tento resistir à tentação de tentar preencher alguém, claro. E tento me lembrar do começo desse post: quando ele(s) deseja (m) algo além de mim não é por alguma falha minha, mas porque, nós, humanos, somos seres de desejo.

E daí? Não é fácil, mas é até simples: reconhecer que não há o que baste pra alguém nos completar ou para que nós completemos o outro. E, claro, de vez em quando, faxinar o ralo, como disse uma amiga. Pode ser cantarolando com a Gal:

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5 ideias sobre “Ralo

  1. Lu, texto tão sábio. Assim sábio, daquelas sabedorias de almas muito antigas e vividas. Gente que já viu e ouviu tanta coisa, que sabe separar o joio do trigo, o gostar de… tantos outros penduricalhos que lhe jogam às costas. Mas que não tem nada a ver com o gostar.
    Beijo, obrigada!

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