A relativização do assédio e o corpo público

Por Mariana Vedder, Biscate Convidada*

Por mais que adeptos da teoria crítica achem que Big Brother Brasil não serve pra nada, há que se admitir os debates que ele possibilita, para o bem e para o mal. Na madrugada de sábado para domingo, uma situação mobilizou os participantes do BBB e as redes sociais desde então. Marcelo e Angela estavam tendo um relacionamento dentro da casa. Angela, após ter dito a Marcelo que ele vacilou, desencanou do lance e não quis mais nada com ele. Marcelo tem tentado há vários dias se reaproximar da moça, que já disse inúmeras vezes que não está mais a fim. Pois bem, durante a festa, ele seguiu insistindo (inclusive com certa agressividade), tentou forçá-la. Todo mundo bebeu, Angela bebeu também e ele seguiu do lado dela, insistindo. Quando Angela já não estava mais consciente de tudo o que rolava, ele, depois de jogar água no rosto dela, a beijou, mesmo com ela escondendo o rosto e os lábios durante muito tempo. Ele além de todo o resto, ainda queria dar banho nela, que estava praticamente desacordada. Outros participantes viram e uma briga bastante agressiva começou. Marcelo primeiro afirmou que não tinha feito nada, mas depois admitiu que a beijou sem consentimento. Estava colocada a questão de sempre: exagero ou agressão?

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Não dá pra relativizar. O que rolou ontem na festa do BBB, o que Marcelo fez com Angela, acontece todos os dias, em festas, bares, restaurantes, no play do nosso prédio, na escola, na confraternização do trabalho, na praia (e no próprio BBB, é só lembrar). E as pessoas preferem não discutir. Preferem fingir que falar nisso é exagero das mulheres, que não é assédio, que acontece desde sempre e por isso é normal. Mas não, não é normal, é agressivo, é machista e é doente. É um sintoma claro de que os homens ainda acham que são donos dos nossos corpos e merecedores de tudo o que desejam, apenas por serem homens. Nosso corpo não é público.

Que esse episódio lamentável (que não acontece pela primeira vez na TV, importante pontuar) sirva pra gente discutir os assédios que sofremos diariamente. O encoxamento no transporte público, as olhadas agressivas na rua, puxada de cabelo na boate, tentativas de beijar a força, como recentemente vimos acontecer na UFF, por exemplo.

Espero que homens que já fizeram isso algum dia reflitam sobre seu lugar de poder e o que permite que eles saiam ilesos da situação, porque, afinal, a culpa é sempre da mina (que estava bêbada, que não soube dizer não, que riu). Esse tipo de mentalidade atravessa todos os comportamentos cotidianos. Fico esperançosa quando vejo homens, como o Cassio (participante do programa), indo até o fim na discussão pra mostrar – não só ao agressor mas a todo mundo – que era, sim, assédio. E na mesma medida fico triste em ver mulheres dizendo ‘não é bem assim’.

Não posso dar números precisos, mas em se tratando do universo em que vivo, posso afirmar sem medo que quase todas as mulheres já sofreram algum tipo de agressão desse nível. Relativizar esse tipo de assédio é porta de entrada pra muitos outros. Que possamos debater isso com objetividade, honestidade e deixando em evidência a voz das mulheres, principalmente as que já sofreram com isso. Afinal, é a vida de mulheres que está em jogo.

1465224_660458583974836_1508417344_n*Mariana Vedder é feminista, funkeira, mestranda em cultura e territorialidades, comuna, paulista que mora no Rio, e tem uns afetos: Emicida, Criolo e o São Paulo. Não necessariamente nessa ordem.

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Uma ideia sobre “A relativização do assédio e o corpo público

  1. Não assisto BBB, não assisto a Globo nem essas porcarias mas ontem a noite, dando uma zapeada na tv eu vi umas ceninhas da briga bem rapididnho, sem parar nem perceber o porque. Hoje eu li sobre pois sou leitora aqui de vocês e achei super interessante e depois da leitura me deparei com um site em letras garrafais “gritando” que o tal Marcelo estava no paredão. Por curiosidade eu entrei e votei ( nele) para saber a opinião das pessoas, afinal depois da briga toda e do motivo pelo qual brigaram…pasmem, dos três que estão no tal paredão o Marcelo é o menos votado. Causou-me certo desconforto perceber que apesar de ser um programa bem tolo, as pessoas parece que apoiam esse tipo de comportamento…e olha que, estatisticamente quem assiste programinhas assim são mulheres….acordem mulheres, acordem

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