Sobre crianças e preconceitos

Sobre crianças e preconceitos. Arquivo pessoal

 Uma das poucas certezas que tenho nessa jornada nada objetiva que é ser mãe, é que quero ser sincera com meu filho. Quero sinceridade nessa troca de vida, nessa relação que se convencionou chamar de mãe e filho (aqui conto mais sobre). Quero poder ser quem eu sou, quem busco ser, ou ainda o que não sei, do lado dele. Sou mãe faltante, mãe-avó, mãe que chora, mãe que trepa, mãe que ama, mãe que ri, mãe que não sabe. E acima de tudo – e antes de ser mãe – sou mulher que se quer livre para ser o que quiser. E dentre essas tantas coisas, sou mulher que se relaciona com mulheres. Afetiva e sexualmente.

E sim, meu filho sabe, claro que sabe. Sim, tenho uma namorada que convive em casa conosco. E sim, está tudo bem. Acho engraçado porque escuto, com muita frequência, a seguinte pergunta: “Nossa, mas como seu filho lida com isso?”. Ou, ainda: “Como é para ele? Ele aceita?”. Acho curioso que as pessoas pressupõe, sempre, que eu ter uma namorada é uma questão para ele. Um problema. E não, não é. Temos alguns, mas esse não é um deles.

Quando as perguntas chegam, nós olhamos juntos. Seguramos na mão um do outro, muitas vezes, para dar conta do preconceito que a sociedade nos obriga a passar. E vai ficando cada dia mais fácil, porque vivemos com naturalidade essa estrutura familiar que somos, dentro e fora de casa. Percebo que ele cresce seguro, porque tem amor. E amor nunca dói, ou fere, ou traz problemas. O que dói é o preconceito e a homofobia que a estupidez humana insiste em cultivar e espalhar aos ventos. E que já sentimos cravada na pele, com medo de agressões e violências que pessoas mal resolvidas e criminosas podem cometer.

Mas seguimos, com força e esperança. Ele, aos 7 anos, já sabe que o amor é livre para ser vivido como for. E que a gente pode ser o que quiser, com quem quiser. Desde cedo fomos desconstruindo imposições sociais como: “menina tem que namorar menino”, “família é uma mulher e um homem, mulher com mulher é errado”, “homem que é homem faz isso ou aquilo”, “rosa é cor de menina”. E fomos aprendendo a sorrir para o apontar de dedos. Jogamos o problema para quem aponta.

Vivemos o que é bonito com confiança, e ele segue com a alegria de acompanhar pessoas que se amam partilharem esse amor. Tenho algumas histórias boas desse nosso pequeno militante e sua amiga-irmã Sol, vamos ouvir algumas?

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Almoço em família no fim do ano. Estávamos eu, minha mãe, minha sobrinha e Bernardo, conversando sobre coisa nenhuma. No meio da conversa Bernardo conta algo que envolve a Cláudia, minha namorada, na mesa do almoço. Minha sobrinha de 5 anos logo pergunta: “tia, quem é Cláudia?”. Minha mãe se apressa em responder: “É uma amiga da sua Tia Sil”. Bernardo olha feio para a avó. A avó não entende. “O que foi Be?”. Ele não pensa duas vezes: “Vó, a Cláudia não é amiga da minha mãe. Ela é NAMORADA da minha mãe tá? E tudo bem!”. Fim de papo Vó. Vamos para a sobremesa?

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 Fila do supermercado, carrinhos cheios, a noite chegando com seu cansaço de fim de dia. Atrás da gente uma senhora folheia a revista Caras, com a Daniela Mercury anunciando casamento com a namorada. Indignada, tenta puxar papo com a mãe e seu filho na frente da fila. No caso a mãe – eu. O filho Bernardo, que corre por entre os atrativos deixados nas proximidades dos caixas. “Olha só, agora isso é um casamento, onde já-se-viu! Que absurdo”, segue a Senhora. A coisa ia piorar quando Bernardo surge do meio dos chocolates, olha para a Dona Carola e diz: “moça, é igual uma homem e uma mulher. Só que é uma mulher e uma mulher”. Eu só acenei e sorri. E, claro, deixei o Be levar os 3 chocolates que carregava nas mãos.

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Sol e Be correm pelas mesas do bar. Amigos desde sempre, tem aquela boa intimidade de quem cresce junto. Brigam, se amam, inventam jogos e brincadeiras, descobrem o mundo um pouco a cada dia. Uma pessoa dita adulta, querendo fazer graça, pergunta pra Sol: “Sol, o Be é seu namorado?”. O olhar da menina, então com 5 anos, espanta-se. “Nãaaaao, o Be é meu melhor amigo. Minha namorada é a Betina”. Vamos tomar mais cerveja para descer a heteronormatividade chata da pergunta?

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Um dia por curiosidade pergunto: “Be, o que você falaria para alguém que perguntasse para você o que você acha da sua mãe namorar uma mulher?”. Ele pensa, sorri, e diz: “Ah mãe, eu falo que a minha mãe é que decide. Que eu não sou a minha mãe, e ela que sabe. E que ter duas mães é bem legal!”. É, ganhei meu dia. Talvez o ano todo.

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Por fim, deixo um recado para você, homofóbico:

Não use crianças como desculpa para mascarar seu preconceito. Garanto-lhe que as crianças enxergam e convivem com o amor de forma livre e bonita, como for. A estupidez é sua.

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17 ideias sobre “Sobre crianças e preconceitos

  1. E se eu disser que terminei o texto com lágrimas nos olhos e que o Be me emocionou e me cativou?
    Sou mãe de uma menina de 3 anos, sou hetero, mas quero mto repassar esses valores pra minha pequena! Muito obrigada por compartilhar suas histórias!!!

  2. Mais um que terminou o texto com os olhos embaçados. Vamos criando nossos filhos com esses valores e quem sabe um dia alcancemos uma sociedade melhor, sem discriminação, preconceito e hipocrisia.

  3. Silvia. Muito amor para você e sua família linda. Histórias como a sua me enchem de esperança no meio desse mundo louco. E, Bernardo, você ganhou mais uma fã!

  4. Cláudia, fiquei com os olhos marejados! Não tenho filhos, sou heterossexual, mas tenho grandes amigos (ainda bem que eu os tenho!) homossexuais – uns, inclusive, com filhos. É admirável a forma como seu filho convive com a sua escolha e, mais ainda, a forma como ele trata os estúpidos. Ninguém tem coragem de retrucar uma criança cheia de personalidade. Os ignorantes ficam sem graça, se sentem diminuídos e, mais que tudo, se envergonham. Porque o preconceito está na cabeça deles. “Onde já se viu isso? Que absurdo!” deveria ser dito àquela senhora – uma falsa moralista, talvez! – pela indagação ao nada, querendo começar um debate que, certamente, sairia perdendo. Parabéns por criar alguém especial, com uma visão natural e pura do amor. Num mundo onde as pessoas são uma mentira, saber que seu filho semeia o que você ensina é revigorante! Eu sou absolutamente contra qualquer tipo de preconceito. E, sim, levanto a bandeira: “qualquer maneira de amor vale a pena”. Aplausos de pé pra sua família!

  5. E eu, que só cheguei nesse hoje, tô aqui, aos prantos…. mil beijos, amore. Que lindo o Be. Que linda você. Que privilégio poder estar no mesmo clubinho que você.

  6. O choro é livre mesmo, gratidão por isso.

    Gratidão também pelo texto, pelo amor pingado nas histórias de cada dia, por esse menino incrível que você está educando.

    Eu ainda não sei ser mãe, espero aprender antes do fim da vida, mas nesse dia a dia louco em que busco exatamente essa transparência em todas as minhas relações, me comove profundamente encontrar espelhos onde eu possa mirar e dizer – ah, é isso!

    Beijos com gosto de lágrimas.

    Dri

    • um monte de beijos de volta Dri! acho que a gente nunca sabe ser mãe. a gente vai tentando. e no tentar, a gente vai sendo!
      obrigada querida!

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