Sobre Jared Leto e mulheres trans*

Texto dedicado a Danie Segadilha, Ânderson Galdino e Daniela Andrade

A premiação do Oscar deste ano distribuiu suas estatuetas para Matthew McConaughey, como melhor ator e Jared Leto, para melhor ator coadjuvante. Com isso, deu grande visibilidade ao filme Clube de Compras Dallas (2013) e trouxe à tona uma polêmica delicada: um ator interpretando a personagem da Rayon, uma mulher trans*. Após a premiação de Jared Leto, tive a oportunidade de ler, no mundo cibernético, uma enxurrada de textos, geralmente assinado por mulheres trans* militantxs, que não se sentiam representadxs na atuação de Leto. À primeira vista, fiquei curiosa pra saber mais a respeito da opinião destxs militantxs, porque se tem algo que o cinema costuma fazer é se pensar como uma arte livre de questionamentos e enquadramentos. Como se a arte não fosse essencialmente política e não tivesse que se explicar, que se desembrulhar, como se não fosse comprometida com o momento histórico atual, marcado pela exclusão e pelo silêncio de populações marginalizadas. Ainda mais no caso específico do filme, que traz uma personagem trans*. Falar sobre essa população significa chamar a si inúmeros questionamentos éticos e responsabilidades políticas. Querendo ou não, de modo implícito ou não, existe um conteúdo de transfobia rondando a produção (e repercussão posterior) do filme.

Cena do filme Clube de compras Dallas, na qual o ator Jared Leto interpreta a Rayon, uma mulher trans* .

Cena do filme Clube de compras Dallas, na qual o ator Jared Leto interpreta a Rayon, uma mulher trans*

Sim, eu penso que o diretor de Clube de Compras Dallas, Jean-Marc Vallée perdeu uma bela oportunidade de dar visibilidade à causa trans*, quer dizer, visibilizou a partir da invisibilidade. Porque a polêmica foi posta pra gente, ainda que do avesso, ainda que pelo anti-exemplo. O grito político se deu através do silêncio enunciado pelo filme. Ora, não existem mulheres trans*, também atrizes competentes, que possam dar conta da personagem Rayon? O desconforto da escolha de Leto vem justamente do ator, homem cis, representar a antítese da identificação de uma mulher trans*. E sim, isso é doloroso. É a negação de uma identidade. E por que essa dor não foi levada em consideração? Será que a arte está autorizada a passar por cima dessas questões, será que a arte, ela mesma, às vezes posta como uma categoria que paira sobre nós, não precisa se refletir como uma prática igualmente ideológica, atravessada pelas contendas do seu tempo?

Não quero de forma alguma sugerir que a arte deve ser feita aos moldes de um panfleto. A discussão não é esta. Mas, repito e reitero: ela é uma prática política, situada no mundo, envolta de historicidade, ideologias e ambiguidades. Houve um tempo em que homens tinham que representar mulheres, porque as mesmas não podiam atuar. Houve um tempo que atores brancos escureciam o rosto pra representar negros porque negros não podiam ser atores. E agora, o que vemos? Em nossa época, homens cis representando mulheres trans* porque, por quê mesmo, gente? Será que elas não podem ser atrizes? Ou será que na estreiteza do nosso preconceito, da nossa transfobia, só lhes é permitido o trabalho nas ruas como prostitutas ou em salões de beleza como cabelereiras?

Pra traçar um paralelo, deixo aqui uma breve história da modelo e atriz trans* Telma Lipp. Ela explodiu na mídia na década de 1980 e teve uma carreira prolífica na moda e nos palcos. Foi jurada de programa de calouros do Clube do Bolinha e atuou como atriz no teatro e no cinema. Em 2001, fez testes para atuar no filme Carandiru, tendo sido selecionada para interpretar a personagem da travesti Lady Di. De um modo ainda não explicado, perdeu seu papel para Rodrigo Santoro, que interpretou a travesti. Pouco anos depois, sem conseguir nenhum trabalho no meio artístico, Telma Lipp falece em 2004, em virtude de neurotoxoplasmose uma doença degenerativa que paralisa os órgãos.

Telma Lipp, modelo e atriz trans*, sensação na década de 1980

Telma Lipp, modelo e atriz trans* paulistana, sensação na década de 1980

Se nós não dermos visibilidade a esses grupos hoje, se não deixarmos que falem por si mesmxs, como podemos esperar que crianças de grupos minoritários se espelhem em alguém e que em um breve futuro tenhamos mais representantes desses mesmos grupos pra assumirem esses papéis que hoje, salvo algumas exceções, continuam restritos à atores e atrizes cis? Sério mesmo que vamos esperar a Era de Aquário em que tudo será lindo, perfeito e ideal para incluir essas populações marginalizadas? Penso que, infelizmente, até essa época dourada chegar, muita gente vai continuar sofrendo com a ausência de modelos positivos de identificação, com consequências pesadas no que diz respeito à construção de suas autoestimas. E nós, vamos continuar reforçando discursos e práticas de exclusão e transfobia, perdendo uma grande oportunidade de aprender com x outrx, de respeitar o jogo das diferenças, de ampliarmos a compreensão sobre os múltiplos modos de viver, ser e estar no mundo.

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9 ideias sobre “Sobre Jared Leto e mulheres trans*

  1. Duas perguntas me ocorrem: 1. O grande mérito dos atores em foco foi o fato de terem feito esta “grande transformação” nas telonas? (Não vi o filme. Não posso julgar bem, portanto. Pelos comentários pós-Oscar, foi o que me pareceu). 2. Caso se tivesse feito a escolha de abrir o papel para que uma atriz trans fizesse a representação, haveria candidatas? Muitas? Quantas? Se não, por que não chegam a ser atrizes com visibilidade para pegar um papel hollywoodiano?

    Os questionamentos levantados fazem todo o sentido e nem vão no rumo do demérito dos atores que fizeram os papeis, mas simplesmente numa indagação sobre a legitimidade de falar em nome das mulheres trans. Bom texto, me fez pensar um bocado aqui lembrando que nas cantigas de amigo (sou professora de português, inevitável não lembrar) quem escrevia era um homem representando um eu-lírico feminino. Daí que até o nome da cantiga vinha com um tolhimento (que mulher poderia sair dizendo por aí “meu amor” sem se comprometer?), acompanhado do conteúdo (pálido e pudico, se comparado às cantigas de amor). Eram homens escrevendo sobre como mulheres deveriam se portar à espera de um amor. Se houvessem dado alfabetização às mulheres, papel e caneta, acaso não seriam bem distintas narrativas?

  2. Acho que quando a questão é arte, ou mise en scene, é complicado dar um papel pra outra pessoa. Em certos casos papéis são escritos para determinado ator/atriz. Acho complicado desqualificar a personagem, porque ele não foi interpretado por uma trans. Se eu achar que um homem vai fazer um papel melhor (depois de testes) eu não pensarei duas vezes em colocá-lo num papel. Não é que a falta de transsexuais em filmes seja algo bom, mas a escolha do cara é a escolha do cara. Se formos pensar assim, um gay não poderá interpretar um hétero, um trans não poderá interpretar uma mulher, uma mulher não poderá interpretar um homem hétero. E se acha que isso não é comum, basta ver Hedwig, A lei do desejo, O senhor dos anéis. e por questão de estética Divine fez vários filmes com John Waters. Querer que um personagem x seja interpretado por um ator/atriz que possua a mesma característica do personagem é loucura.

    • Seu comentário faria sentido, Erico, se nós vivêssemos em uma sociedade onde os direitos fossem iguais e garantidos e todas as pessoas fossem vistas e respeitadas. Mas se a gente lembrar que para as pessoas trans* o trabalho que resta geralmente é a prostituição (não que eu tenha algo contra, ressalto, mas porque quando não é uma escolha, é uma violência), pra mim qualquer oportunidade que é negada é um acinte. Além disso, não é uma questão de talento, mas de visibilidade. A questão trans já costuma ser tratada, na sociedade, como algo caricato e menor, reforçar esse estereotipo não é politicamente generoso, não concorda? Ninguém está desqualificando o personagem ou a atuação (inclusive isso foi ressaltado no texto). Apenas se está discutindo a lógica perversa que naturaliza essas escolhas (porque não uma mulher cis pra fazer o papel, então? porque, se todo mundo pode fazer qualquer coisa não vemos mulheres trans fazendo personagens homens cis ou mulheres cis fazendo homens cis ou homens trans fazendo homens cis? Mas vemos homens cis fazendo de tudo, né?). Ningu´m está aqui dizendo que uma pessoa trans tem que interpretar sempre pessoas trans e pessoas cis devem interpretar sempre pessoas cis. O que se está apontando é que há uma estrutura perversa e excludente que faz com que pessoas cis, especialmente homens, sejam “naturalmente” contemplados.

      • Ah sim entendi. Estou mais habituado a analisar as coisas pelo lado cinematográfico, então cinematograficamente eu não mudaria os atores nunca. Sobre o Rayon, ele ainda é trans? Sendo exteriormente homem?

  3. … a arte (o cinema) sendo política vejo como um desejo no olhar daquele que a recebe, isso me fez lembrar as polêmicas entre Godard e Truffaut pós 68, por isso acho que você fez bem em ressaltar de que não está dizendo que o cinema tenha que ser explicitamente panfletário. O que se mostra ao nosso olhar (político, politizado, por conhecer e se situar contra as desigualdades historicamente constituídas) é que o cinema estará sempre ocupando uma posição, e neste sentido, concordo com aquela tomada de posição que vê como um silenciamento/invisibilização das mulheres trans* ao serem retratadxs por uma pessoa cis (infelizmente isso já havia acontecido com Transamérica, não é?). Acredito que apenas discutindo à exaustão é que se chegará um dia em que tamanhas discrepâncias de privilégio serão atenuadas com, pelo menos, a possibilidades da/o/s “subalterna/o/s” falarem (por si). Parabéns pelo texto, Jeane!

  4. Na verdade, Lu, me ocorre que já houve mulher cis fazendo papel de trans*. Em novela, a Claudia Raia; em filme – “A Lei do Desejo”, do Almodóvar – , a Carmen Maura.
    E, sim, é como você diz – a princípio, todo ator/atriz pode fazer qualquer papel: isso não seria problema, caso de fato fizessem. Caso atrizes trans* pudessem fazer papel, não só de mulheres trans*, mas de mulheres cis. Homens fizessem papel de mulheres, em situações em que as mulheres não fossem proibidas de atuar (porque isso havia, no teatro grego, no teatro Nô, provavelmente em outros). Se negros fizessem papel de brancos. E não somente brancos fazendo papel de negros, porque aos negros não era permitido atuar.
    Enfim, a utopia é uma: mas na dura realidade, há que se brigar pelos pequenos espaços possíveis. A história contada no texto, do filme Carandiru em que o papel acabou ficando com o Rodrigo Santoro, é exemplar.
    Como contraponto, me ocorre o maravilhoso “Traídos pelo Desejo” (The Crying Game), de Neil Jordan. Ô filme lindo, sô. Em tantos níveis lindo. Quem não viu, veja.

    • Sim, sim, eu não quis dizer que nunca foi, a pergunta era relacionada ao caso específico. Porque um homem cis e não uma mulher cis? Há um discurso e uma concepção nessa escolha, né.

  5. Pingback: ‘Clube de Compras Dallas’ enfraquece atrizes e atores trans |

  6. Interessante. Eu não tinha visualizado este lado da história. Para mim, o Jared Leto fazendo um transsexual no cinema foi até agradável, e realmente, seria bem melhor com um trans de verdade.

    Mas, apesar de tudo, não devemos levar em conta de que trans só pode fazer “papel de trans”. Assim como um homo pode fazer um papel de hétero também os héteros podem fazer papel de homossexual. Não vejo mal nenhum nisso.

    O único mal mesmo é como você disse. Um filme que tinha tudo para retratar a verdadeira realidade do mundo transsexual, não fez de tal forma.

    Enfim, grande blog, grande post. Eu tenho um blog e é sobre negras alternativas e feministas, que sofrem muito com a opressão da sociedade. Eu queria muito que as biscates dessem um pitaco por lá! HEUHUEHU

    Beijos!

    http://madessy.blogspot.com/

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