Ao acaso e ao sabor do vento

“O acaso vai me proteger”, isso é certo. Mas tem uma condição para isso. É “enquanto eu andar distraído” que ele vai me proteger. Só distraído é que a gente encontra o que a gente não estava procurando. Distraidamente, passeando sem necessariamente prestar atenção em nada. Apenas percebendo. Deixando acontecer. Apenas sendo, se é que me permitem. Não? Só dessa vez, vai.

Deixar-se ir. Não ter certezas. Desconfiar das próprias certezas, mais bem. Há regras demais. exigências demais. Intensidade demais, pureza demais, segurança demais. Não é preciso nada disso. Só soltar. Soltar, respirar, e… (depois do e… ficam as reticências mesmo; a gente não sabe. Espaço vazio. Oco. Amplo de possibilidades e riscos.)

O pano de fundo disso tudo é a voz da minha tia-avó Nitinha, uma mulher que viveu a vida, uma presença quente, uma risada carinhosa: “Eu sempre disse que nunca namoraria paraibano, baixinho e careca. Conheci o Lima: careca, baixinho, paraibano. Me apaixonei.” Ah, o acaso. O acaso? O espaço também. Porque consigo vislumbrar uma história em que meu tio-avô Dadu (o Lima, aqui) chegasse e passasse, porque ela estaria tão presa às suas certezas, às suas intenções, que nem perceberia, nem daria chance. Era tudo o que ela não queria. Era tudo o que ela queria e nem sabia.

É esse o reconhecimento: a gente não sabe. Tantas vezes não sabe. A gente acha que quer, acha que gosta. Mas não, na verdade é outra coisa, ou pode vir a ser. Gosto se constrói também, gosto se adquire. Gosto se amplia, se apura. Deixando vir. Contaminando-se. Viralateando-se. Se embolando ladeira abaixo, já que a chuva ajuda a gente a se ver. E, já que a gente se viu, que tal? Um café, uma cerveja, uma passada na praia, uma caminhada pela cidade, um silêncio compartilhado, um banco de praça? Atender o telefone, aceitar o convite, suspender as certezas e as seguranças, ser frágil e ignorante como de verdade se é? Despossuir-se, meio que. (Tá muito? É que achei que cabia tão bem….)

Um dos sonhos mais incríveis: eu, na frente de uma vitrine de papelaria. Uma caixa de lápis de cor e de tintas, grande, luxuosa. Tudo o que eu queria. E era esse o sonho: eu olhando pela vitrine da loja, a caixa de lápis, e, na minha cabeça, todos os desenhos que eu faria com ela. Folha em branco: caminhos.

É claro que há arte no deixar-se levar: como numa dança a dois. Um dos parceiros – tradicionalmente a mulher, mas né – está ali, deixando o fluxo-que-é-o-outro levá-lo. Presença, leveza, um soltar-se que permite sentir o movimento antes mesmo que ele aconteça. Com isso aí que a gente chama de vida, de acaso, de caminho, também: deixar-se ir, descuidado, sentindo o movimento. Se não deu, não deu. Ora. Não é necessário o murro em ponta de faca. Aqui, da mesma maneira. Uma leveza. Um desprendimento que faz ver que a onda leva para outro caminho. Insistir só dói. Só. Não há grandeza, não há mérito. Só dói.

É exercício, é desprendimento. É de todo dia. Olhar o céu, olhar o sol, olhar o mar. Ser o céu e o sol e o mar. Rir e chorar, quando for. Estar. Deixar-se levar mesmo que o plano fosse outro, que o projeto fosse diverso, que houvesse tanta expectativa e – por que não? – tanta esperança. Entender que a esperança e a expectativa são pesos que são dos outros. Não seus. Seu é o caminho. Eventualmente caminhado com outro, com outra, com outros. Por um tempo. Durante um trecho. E, numa curva, de repente.

Nada dava a entender. Mas o acaso, que nos protege como o céu, também dá sinais. E aí. Fazer o quê. A gente segue, sem certezas. Certezas no las hay, lo siento. Porém já não as havia. A certeza era uma falta de capacidade de ver. Uma miopia. Esquece a certeza. Deixa. Larga. Solta.
Vai.

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5 ideias sobre “Ao acaso e ao sabor do vento

    • E então, Tiago…. mas não é fácil não, né? É difícil, leveza é treino também, é aprendizado de confiar, sabe, como aquele exercício em que você pula numa rede formada pelos braços dos outros, entrelaçados. Se você confiar, vai se jogar de forma leve, vai ser sustentado.
      E a confiança é algo que se aprende. Que se adquire. Os machucados fazem a gente se retrair, se encolher. E a gente tem que reaprender a soltar, a respirar, a confiar e ir…

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