Como nossos pais…

Semana santa taí, né? Feriadão, meu aniversário tá pertinho e…

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Bom, é lugar-comum neste nosso País tão cristão, quando alguém quer salientar uma suposta igualdade entre as pessoas dizer que “somos todxs filhxs de Deus”. Crenças à parte, nunca consegui entender isso muito bem (até porque leio as notícias, vez ou outra tentam me “converter” a alguma religião e percebo na maioria dos discursos que mesmo para esse Deus, existiu e existe uns/umas filhxs mais filhos que outrxs)… mas talvez já tenha tido alguns vislumbres do que seja essa ancestral forma de hierarquizar o mundo quando noto jocosidade e ironia ou uma espécie de paciência “sábia” prestes a se esgotar que muitxs demonstram ao chamar alguém ao qual pretensamente tentam “ensinar” algo “sobre a vida” de “meu filho” ou “minha filha”.

Se no cristianismo temos Maria, que nos “contou” da capacidade “feminina” de perfeição e pureza enquanto mulher que se tornou mãe sem “conhecer homem”, também para algumas religiões não “tradicionais” nascemos fadadas a sermos amadas pela(s) “divindade(s)” por nossa suposta “capacidade” em gerar e/ou sermos companheiras/ esposas/ musas. Na de “refletirmos” um(x) outrx. Oi, lua!

Comecei esse texto falando de religião, terreno escorregadio, para discorrer sobre outro buraco, desta vez mais embaixo. Porque acredito que a religiosidade de um povo diz muito sobre o que é de nós esperado e em como são construídas algumas relações. E na maioria delas, x filhx é sempre expectativa de. Que dificilmente cessa. Também porque creio que isso se repete nas relações por aqui, nesse negozi que chamamos de mundo.

Aí eu pergunto: se somos todxs filhxs, em qual “cartilha” você aprendeu a sê-lo? E como (já?) conseguiu “escapar” dessa condição?

Os pais são (ou supostamente deveriam ser) o primeiro contato que temos com outros seres de nossa espécie, nosso primeiro esboço para um posterior entendimento de humanidade e aqueles que (também supostamente) nos ensinam a portar-nos como seres “civilizados” para estarmos e agirmos no mundo. Responsabilidade danada, né? Mas é também no exercício dessa função que alguns experimentam a delícia que pode ser o exercício da soberania sobre um(x) outrx ou a doce e viciante utopia do amor “incondicional”. Escrevo incondicional entre aspas porque que no caso de pais e filhxs estamos em ambos os casos exercendo o amor sob o “jugo” de uma “suposta” condição.

Ah, a ironia…

Daí eu te conto agora é do cotidiano: dia desses cheguei em casa depois de dois dias na casa de uma amiga e a geladeira estava desligada. Minha mãe tinha-me feito esse “favor” não solicitado e levado todos os potes de comida pra casa em que mora com meu pai. Não, não tinha água gelada tampouco. Sim, somos vizinhxs. Liguei reclamando. “É, sou mesmo uma monstra ingrata e blábláblá”. Próximo take: horas depois, estou na cama pelada, me masturbando enquanto falo ao telefone com o gatchênho. Quem abre a porta para trazer um iogurte que tinha sido “esquecido” na tal “mudança”? Meu pai. Sem ligar, sem avisar, sem bater na porta. Fiquei envergonhada e depois irada por ter me envergonhado. Resultado: mais briga. Das feias.

Não, a briga não foi por causa da geladeira desligada ou pelo “flagra”. Mas pode exemplificar como alguns pais (os meus inclusos aí) entendem a casa ou a vida dxs filhxs como uma continuidade de suas próprias. Tendo a ambas livre acesso por um direito que não pode (ou não deve) ser questionado sob o eterno risco destes filhxs serem considerados como “rebeldes” ou “ingratos”. Oi, hierarquia! Alô, cansaço…

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Esse episódio que é até engraçado (e se eu não puder gargalhar não é minha revolução!), mais uma vez me fez questionar seriamente: onde foi que eu errei (ou estou errando?) enquanto filha? Como atestar-me como adulta, se apesar da minha carteira de identidade dizer que tenho 38 anos, sou cotidianamente infantilizada por ações e palavras? Dos meus pais e de toda uma sociedade (falo do aqui e do agora) que se estrutura a partir dessas primeiras e estabelecidas relações de “poder” e “pertencimento”?

Enfim, faz algum tempo que passei a notar no discurso da minha mãe (e olhe que ela é até bem “moderna”!) que apesar de ter ido morar só já com dezessete anos, ter trabalhado desde que e vivenciado experiências diversas só fui considerada “emancipada” ou “independente” enquanto estive casada. Horrível? Eu também acho, mas é muito comum. Para algumas amigas minhas, por exemplo, isso só aconteceu quando tornaram-se (também) mães. E mesmo assim…

Bom, eu que não pretendo ser mãe e também tenho minhas (e muitas) ressalvas quanto ao casamento enquanto instituição, sob a ótica dos meus pais e da sociedade, estarei fadada a ser vista e tratada sempre como “filha”? Aquela que precisa de monitoramento e “educação” permanentemente já que?

Ai, meus sais…

Daí resolvi dividir essa “angústia existencial” com outrxs amigxs queridxs, que me deram alguns “depoimentos” que também compartilho com vocês:

“Eu sei o que você passa! E minha mãe nem é minha vizinha…”

“Se ajuda, digo que meus pais me tratam feito criança e tentam toda hora decidir as coisas por mim. Nem meu pai internado, sem sair da cama sozinho, deixa de fazer isso comigo.”

 “Ô, amore. que difícil. Porque tem coisas boas também, né? Mas os limites tem que ser conversados com muito cuidado. Uma amiga, quando tinha acabado de ter filho, acordou com o sogro dentro de casa, de manhã cedinho, pegando a bebê…. ia sair com ela para os pais dormirem mais. O que é lindo. Só que não avisou! Ela disse que se tivesse acordado depois (foi antes do celular), ia achar que a bebê tinha sido raptada…”

 “Poizé, minha experiência é oposta… meus pais “saíram de casa” quando eu tinha 18 e meu irmão 16. Pra BSB. De lá para Roma, depois BSB de novo… vieram morar no Rio de novo só quando o F. já tinha 6 anos e eu tava grávida do J. Eu me arrepio de ouvir essas histórias, mas sei que ter mãe/pai perto pode ser muito bom também. A negociação é que é delicada…”

 “Eu num pitaqueio por motivos de: meus pais são super entrões mas não são nada entrões. Explico: a gente partilha praticamente tudo lá na minha família. no começo do ano a gente faz uma reunião e cada um conta seus planos, de ter filho a escrever um livro passando por mudança de trabalho, comprar carro, reformar casa, ir em uma praia naturista, etc. daí todo mundo dá pitaco em tudo, se oferece pra ajudar, contesta, etc. Depois, é só suporte. Meio no lance de respeitar o limite como a R. falou. E eu já voltei pra morar dentro da casa dos meus pais depois de separada. Com S. Mas era isso: vá perguntar pra sua mãe se pode e tudo. E se eu ia sair negociava pro S. ficar com eles e nem precisava dizer pra onde que eu ia. Eu ia sair. Acho que passa pela conversa, né. Muita.”

 “Eu já tive cada quebra pau com a minha mãe por causa disso que virge! Só vivendo a mil km de distância…”

“Ah, sim, meus pais são desses (eram, né.  meu pai) super-respeitosos também. Nunquinha que entrariam sem bater. Minha mãe que sempre teve a chave da minha casa, sempre tocou antes de entrar.”

 “Nossa, a minha mãe em compensação…Lia carta minha escondido, mexia nas minhas coisas, mexia nos meus diários, ouvia conversa no telefone, coisa de doido mesmo!!!!”

texto 3Daí eu te pergunto: e vocês, como se entendem enquanto filhx? Ou pais, se acaso o são? Pra qual “ideia” de mundo vocês foram “educados” ou tentam “educar” seus filhxs? E como?

É, não tenho muitas respostas faz é tempo. E poxa, como é difícil continuar perguntando! Ou vai que eu estou mesmo no tal do “inferno astral”. Em todo caso e mesmo assim, Feliz Páscoa para todxs vocês, biscates queridxs!

Fiquem com Elis…

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2 ideias sobre “Como nossos pais…

  1. Já que vc perguntou… mas antes eu só queria agradecer por compartilhar estas experiências e de me proporcionar mais uma oportunidade de compreender como não sou culpada por não ter o preparo que me falta para a vida, do qual meus pais me privaram, pelo excesso de proteção a que me submeteram. Me identifiquei muito com vários comentários. Meus pais não sabem fazer outra coisa a não ser cuidar dos filhos e que se comprazem de deixar isso bem claro, como se dali surgisse uma gratidão obrigatória, em forma de não questionar nenhum ensinamento. Não se enxergam como um indivíduo com vontades próprias e exigem uma participação em aspectos íntimos demais da minha vida, cobrando a obediência cega que eles tinham para com os pais deles. Passei a faculdade inteira morrendo de medo da bateria do celular acabar e eles tentarem me ligar sem sucesso. O mundo caía toda vez que isso acontecia. Até pouco tempo atrás, eu precisava ligar todos os dias pra dar notícias, senão a Interpol seria acionada. Cortar mais esse cordão foi doloroso, mas essa mágoa já tá passando.

    Quantas vezes já ouvi que “filho é pra vida toda”! E quando, depois de muita briga e tensão, a conversa termina com algo do tipo “quer fazer? já não é dona do seu nariz? então vai lá, mas depois vai pensar ‘bem que a minha mãe me avisou’. eu sou macaca velha, sei muito dessa vida”… É tão frustrante ouvir isso!!! O desejo de me ver tentar, e acertar, nunca foi realmente legítimo. No lugar, a certeza de que eu iria errar.

    Pra ajudar, eu fui a primeira a sair de casa, ir pra faculdade, morar sozinha e outras coisas que, pra eles, não trazem mais experiência do que a que eles tem. Eles devem se achar insuperáveis, sei lá. Aquela idéia de criar os filhos pra serem melhores que os pais nem passa pela cabeça da galera lá em casa. Parecem se sentir ofendidos com qualquer situação que possa sugerir que sim, eu já sei mais do que eles em alguns aspectos. Engraçado, os pais deveriam se orgulhar disso, né? Mas a autoridade e a hierarquia sempre pesaram mais.

    Não bastasse a falta de confiança que todos tem em mim, o machismo piora ainda mais as coisas pro nosso lado, mais ainda agora que fiquei solteira. Hoje me acusam de ter perdido os bons valores que meus pais tanto lutaram para me proporcionar, de não ser mais a mesma filha amorosa, cujas piores notas no colégio ficavam entre 8 e 9. Ninguém entende o que leva uma moça de família tão boa a insistir em morar tão distante dos melhores pais do mundo (mesmo depois de formada), já que não tem namorado e declaradamente não pretende ter filhos, enquanto os pais envelhecem apodrecendo sozinhos, doentes e abandonados. Trabalhar??? Pra quê, se eles podem me dar tudo o que eu preciso? A minha busca por independência e desenvolvimento pessoal não tem valor nenhum para as pessoas cujo apoio ainda parece ser o que mais me faz falta. Meu irmão, de apenas 16 anos, é o único capaz de realmente demonstrar que quer me ver feliz como eu realmente sou, o único capaz de me dizer coisas do tipo “eu não concordo com isso aí, mas se vc curte vai lá, aproveita, e se cuida”.

    E digo todos porque não são apenas os meus pais a me fazerem essas cobranças. Tias, primos, avós, todos parecem ter algo muito valioso para me impor, por exemplo sobre como “amigos só servem para brincar enquanto você é criança e te darão as costas quando você mais precisar. Os únicos realmente capazes de nos ajudar nessas horas são a nossa família. Família é pra sempre.” Isso é repetido pra mim mecanica e incessantemente.

    Ainda estou em processo de aceitar que não fui ensinada a acreditar em mim mesma, que existe uma história que me produziu como sou, com baixa auto estima, auto confiança quase nula, me sentindo um lixo incapaz, e que não sou culpada disso. Que não preciso me auto flagelar como punição por simplesmente não saber. Que esta adolescência aos 26 anos não precisa ser motivo de vergonha pra mim. Que eu não sou a única.

    Mas então, algumas revelações esfregaram na minha cara que meus pais também tiveram infâncias que os produziram como eles são. Sou filha de uma mãe que por anos presenciou o pai alcoolatra espancar a mãe quase todos os dias, ao chegar de madrugada depois da “putaria”. Crianças de 3, 5 e 7 anos corriam desesperadas escondendo facas e tesouras e pedindo ajuda aos vizinhos. Sou filha de um pai abusado sexualmente por anos por um tio, fato revelado há apenas poucos meses, além de espancado pelo pai a ponto de ainda hoje carregar deformações em seu maxilar. Às vezes me culpo ainda mais por não conseguir me livrar totalmente da raiva, mesmo sabendo desse histórico tão horrendo. Porque afinal, eles também não são culpados de nada disso. Sou infinitamente grata por, apesar de toda essa lama, ter sido protegida e amada, por mais que as ações dos meus pais nem sempre transmitissem essas mensagens.

    Acho que conhecer a história dos nossos pais facilita muito as coisas. Mas sinceramente, não sei como sair desse ciclo. Minha tática ultimamente tem sido não tocar em nenhum assunto mais íntimo. No máximo falamos sobre o tempo, sobre a saúde deles, o que fizeram no final de semana. E isso me dói, pq sempre fomos muito apegados. A ruptura tem sido sofrida… Força aí com a sua!

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