De olhos bem abertos

Fui ensinada a não falar de boca cheia

e não por os cotovelos na mesa.

Sentei-me ereta por muito tempo,

ganhei da minha mãe, pés de bailarina.

Usei organdi e fui com vovó á igreja.

 

Então se hoje,

por acaso, eu grito,

seja educado,

não tape os ouvidos.

Objeto de Desejo- Foto-poema de minha autoria

Objeto de desejo- Trabalho de Raquel Stanick

Dia desses estava conversando com amigxs e acabei contando como foi difícil e demorado acabar minha graduação.  Pois é, foi só ano passado, quase sendo jubilada e aos trinta e oito anos, que me formei num curso universitário que muita gente nem sabe que existe. Ou não acredita em sua necessidade de existir. Mas foi a licenciatura em Artes Visuais que me trouxe, entre outras coisas, um pensar sobre o mundo em que vivo que mexeu e ainda mexe com muitas das minhas certezas.

Trabalho de Micaela Maia, artista Portuguesa, em seu  extinto blog-manifesto-performance  "Ela só queria ser Arrebatada".

Trabalho/ Performance de Micaela Maia.

Foi ao descobrir-me artista e posteriormente fazer da Arte profissão e modo de ganhar a vida que comecei a entender a máxima que diz que “uma imagem vale por milhões de palavras”, não só pelo seu valor descritivo, mas principalmente por seu valor simbólico.

Performance de Marina Abramovic

Performance de Marina Abramovic

Passei também a enxergar o corpo enquanto objeto, e, por favor, não me entendam mal. Ao dizer do “corpo enquanto objeto”, quero simplesmente apontar o conhecimento, sentimentos e lembranças que emergem dele a partir das experiências vividas por quem tenta “interpretá-lo”. Não há necessariamente “passividade” nisso, acredite.

Todxs nós, e ainda mais especificamente (alguns) artistas visuais contemporâneos, atrizes e atores, bem como prostitutxs com domínio de seu ofício, podem fazer do próprio corpo ferramenta. Com o uso de técnicas e estilos dos mais variados. Esperando este ou aquele resultado. No caso de alguns, sabem e bem o que estão fazendo. Quer um exemplo? Na imagem abaixo observe a reação das pessoas que assistem/ participam da performance. Apesar de existir um certo consenso na linguagem corporal do público, cada pessoa reage e se posiciona à sua maneira.

É, as pessoas são estranhas, como eu sempre repito. E únicas.

Um momento da performance do artista brasileiro Marco Paulo Rolla na 27° edição da Feira de Arte Contemporânea (ARCO- 2008). .

Um momento da performance do artista brasileiro Marco Paulo Rolla.

Sim, você leu direito, escrevi “artistas visuais, atrizes, atores e PROSTITUTXS”!

Continuando…

Então… com os resultados da pesquisa do IPEA (apesar de sua falha metodológica e posterior correção), mas principalmente por causa dos comentários machistas e violentos que o movimento “Não mereço ser estuprada” trouxeram à tona (leia o texto da bisca-amada-irmã Sílvia Badim sobre o assunto clicando aqui), novamente encafifei-me: o que esta ou aquela pessoa “viu” quando estava “vendo” uma mulher com “pouca roupa”? 

Putas? Vadias? Biscates? E qual seria o problema se ganhassem dinheiro com seus corpos, afinal de contas? Que profissional não faz isso? O cérebro não faz também parte do corpo? Qual é realmente o grande problema que deixa machistas de cabelo em pé e prontos para ameaçar tudo e todxs de estupro com seu mítico cetro patriarcal?

Mais uma performance de Marina Abramovic

Mais uma performance de Marina Abramovic

Henrique Carneiro num artigo que trata criticamente da violência como marca do poder masculino (triste, né?), afirma que a violência viril (é assim mesmo que ele a denomina) é um dos emblemas da masculinidade que nasceu com as primeiras civilizações e permanece como essência do próprio conceito desta.

Sim, de acordo com tal teoria, essas pessoas realmente acreditam estar defendendo a civilização como um todo. Seria engraçado se não fosse assustador. Principalmente por entender criticamente de que “civilidade” estão falando.

Performance de Ana Mendieta, assasinada em 1985 pelo seu então marido, também artista.

Performance de Ana Mendieta, assasinada em 1985 pelo seu então marido, também artista.

ana mendieta

Performance/ Pintura de Ana Mendiet

Já Barthes dizia que “a palavra, enquanto instrumento, é símbolo de poder”. A forma de materializar conceitos, apontar desejos e ideias. Vista dessa forma, é pois (e também) um símbolo fálico por excelência. A quem o poder da palavra tem histórica, social e economicamente pertencido durante tanto tempo? Porque gritar, xingar, principalmente no conforto do anonimato, dos falsos perfis ou no meio de um coletivo de “iguais” alguém que escreve em seu próprio corpo a vontade de mudar o mundo a partir de si mesma, do seu referencial “feminino”?

Não enxergam essas pessoas que defendem agressivamente uma “civilização” que já dá mostras de ter fracassado, que estamos vivendo agora e aqui uma necessidade urgente de mudanças no nosso entender de mundo?

Mulheres já são maioria nas universidades Brasileiras e no mercado de trabalho o percentual feminino passou de 38,8%, em 1992, para 40,3%, em 1999. Mesmo com as condições desfavoráveis que toda mulher inserida nesse mercado sente na pele, muitas já são, inclusive, inteiramente responsáveis pelo sustento de suas família.

Ainda assim continuam sendo tratadas como incapazes por uma “civilização” tão cruel que se utiliza de suas próprias vítimas para calar-lhes a voz. Exemplo? Uma médicA e uma juízA revestidas de autoridade por essa mesma ideia opressora chamada Estado de Direito achando que podem decidir (e decidindo!) por outra mulher.

Performance de Bela Reale

Performance de Bela Reale

Então aterroriza-me ver que as mesmas pessoas que louvam ou endossam os argumentos que justificam o estupro na citada pesquisa, bem como questionam a soberania na decisão de uma mulher grávida sobre seu corpo e a escolha de como parir seu filho, são as que usam o vídeo com mulheres ameaçando cortar picas para teorizar acerca duma suposta violência “feminina” inata da qual tem que se defender.

Mais uma performance de Berna Reale

Mais uma performance de Berna Reale

Sim, talvez eu queira mesmo cortar várias picas simbólicas. A da tal juíza, da tal médica, da maioria dos imbecis que comentaram e comentam barbaridades pela internet e no meio da rua e de mais um monte de gente que acha que poder é automaticamente sobre alguém e não sobre si mesmo. Mas acho que assim endossaria uma prática que mostrou não dar lá muito certo, e que acaba por transformar os atuais oprimidxs em futurxs opressorxs. Prefiro pois, questionar a própria estrutura de poder, essa mesma estrutura que faz com que a violência seja entendida como tal. E “masculina”.

Eu, que amo tantos homens que também se sabem capazes de escapar desse tal horror civilizatório, modificando a(s) realidade(s) ao seu redor.

Portanto não cortarei pica alguma. Primeiramente porque não acho que a violência de alguém se resume ao fato desta pessoa ter ou não um pênis (apesar de concordar que histórica e socialmente isso pode contribuir bastante). Mas principalmente porque realmente quero acreditar que somos todxs capazes de conviver, mesmo com nossas diferenças, sejam elas políticas, sociais, intelectuais, de comportamento ou gênero. Utopia? Obviamente…

Então utópica e biscate que sou, escolho falar do falo com carinho e intimidade.

Junto também decido que não mais me calarei por medo. Ou vestirei as roupas que alguém escolheu para mim porque acha que tenho que me envergonhar de quem sou. Aprendi na vida que “ganho” quando consigo argumentar, sorrir e emendar um poesia ou trabalho artístico depois de uma discussão, mesmo que minha vontade seja a de usar uma peixeira. Ganho de mim mesma também. E me humanizo.

Ou você acha que é fácil ser artista visual e tentar enxergar o mundo de olhos bem abertos, onde estou e sendo quem eu sou? E além de tudo, míope?

P.S: E se falei acerca d’Arte, esqueça, não é nada disso ou daquilo, ou então não seria Arte, seria linguagem. E a Arte está além do alcance desta.

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