Do depois

Do Depois, em silêncio de quase amanhã. 

cafe

Então eu te abracei forte, e o quente se fez suspiro. Lá de dentro um sopro cresceu desavisado, e eu só conseguia dizer: fique. Dizer assim meio sem voz, sussurrando aos teus ouvidos colados aos meus, beijando teu corpo nu que dormia no cansaço bom de depois. Fique para amanhã, para ver o sol nascer de mansinho, para ver a chuva cair na janela. Para ver a madrugada romper em silêncio gelado de quase inverno.

Fique para algum dia rirmos do que nunca fomos, para vermos o filme que já saiu do cinema, para desconcertamos os acertos de agora, para criarmos novas e impossíveis metas. Fique para o feijão e arroz do almoço, para o cigarro na beira da janela, para a poesia imprevista do menino correndo pela casa. Por aquela viagem que a gente nunca fez, pelo livro fechado na estante, pelas promessas não formuladas que nunca poderemos cumprir.

Fique para pintarmos as paredes de vermelho, para jogarmos dominó no chão, para comermos pipoca e falarmos do Truffault que nunca vimos, para sorrirmos das besteiras que não cansamos de falar. Para enchermos a cara como se não houvesse amanhã, para nos amarmos de novos e impossíveis jeitos, para tocarmos o intangível que mora ao lado da realidade. E, claro, para cozinharmos a nova receita de panquecas.

Fique para dividirmos essas dores que nos assolam e a gente não consegue dizer por que, para somarmos incompreensões, para nos divertimos na segunda-feira de canal aberto na Tevê. Fique assim meio sem jeito, como quando seguro com medo as tuas mãos, tuas mãos de unhas roídas e cheias de não saber, nossas mãos longas de coragem, nosso desejo vivo por entre os dedos.

E assim vou soltando ao ao seu encontro esse amor com um quê de trágico, com pitadas de exagero sentidas nos ossos, com um quê de riso por trás do choro, com um quê de verde e de fundo de mar. Com os pés fincados na terra fértil, na colheita de algum dia, no porvir das nuvens e das poeiras de agora. E que seja. Até quando ventar e existir sede.

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