A fórmula única – garrafas aos mares

Tem dias que tudo é dúvida. Todo dia, na verdade, é dúvida. E eu penso se estou me perdendo em batalhas perdidas, afundando em derrotas e amarguras.

Tem dias que é Adelir, grávida e em trabalho de parto, sendo arrastada no meio da noite, com um mandado que violou não só a lei federal, a Magna Carta, mas a mais fundamental parcela de dignidade de um ser humano: autonomia.

Tem dias que é brigadeiro de colher e carne moída com batatinha, sabor de colo e aconchego.

Tem dias que a inspiração não vem, sobre nada. Tudo de profundo e relevante já foi dito, por alguém que diz melhor que eu o que eu quero dizer. E só cabe compartilhar, curtir, curtir mil vezes, postar dez vezes o texto fantástico que, olha que fantástico, as vezes foi escrito por gente que eu conheço e gosto pessoalmente.

Essa internet é muito boa, no final das contas. Se permite que grupos de ódio se propaguem, garante também que nós possamos denunciar.

Se permite que personagens caricatos à esquerda e à direita se revelem, de forma anônima e invisível e covarde, garante que a gente possa se juntar, dez doze vinte cem, e formar nossos coletivos de amor. Nosso clubinho.

Sabem, mesmo quando a gente acha que não tem ninguém lendo, nem se importando, a gente pode estar sendo aquela garrafa lançada ao mar e encontrada pelo náufrago, à deriva ou nem tanto. As vezes somos todos náufragos. As vezes o mar é terra firme e concreto, e estamos à deriva.

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Ontem eu li um artigo de um blog sobre criação de filhos com apego. E foi logo depois de ter lido um amigo postar aquele quadrinho da Super Nanny.

E como é que a gente fazia antes, quando não tinha tanta “corrente” dizendo como é que devemos ser/estar/parecer? Como a gente criava filho?

A Deborah Leão respondeu lindamente à minha angústia: “Antes era assim: você fazia como a sua mãe. E cada mãe fazia de um jeito, mas a gente não sabia bem disso. Algumas coisas davam mais certo, outras davam mais errado, mas a humanidade está aí criando filho não é de hoje. (…) Mas isso é meu. Vai ser o meu filho. A minha criação. Vai ter hora em que eu vou deixar chorar, vai ter hora em que vou pegar no colo. Vai ter hora em que vou estimular o apego, vai ter hora em que vou ter certeza que o melhor pra ele é algum distanciamento. E vai ter hora em que eu não vou ter certeza de nada. Já não tenho. Faz parte. Não sofre com isso, não, Rê. Já tem angústia de mais na experiência toda, a gente não precisa acrescentar, não.”

E ai eu pensei também numa mensagem que recebi outro dia, eu também náufraga, na qual uma pessoa que eu conheço pouco e admirava quando conheci, à distância dizia que se sentia feliz em saber que havia mais gente que pensava como ela (no caso, eu) e agradecendo por postagens minhas numa rede social (onde eu sou daquelas que postam “demais”) pois a faziam sair da zona de conforto (acho que saímos juntas dessa zona).

E voltando ao começo, eu acredito que esse clube, esse coletivo, assim como uma rede de amor e amizade, as vezes virtual mas sempre real, mora no meu coração porque não propõe uma fórmula única, não propõe sequer uma única fórmula. Se há algo que tentamos ter aqui é a proposta inicial:

“Este é um blog de princípios, os textos são concretude dos pensamentos individuais e revelam especificidades, mas não se afastam de uma reflexão abrangente e coletiva.

Acreditamos, convictamente, que todos e cada um deve ser livre para fazer o que bem entender, com quem escolher e onde bem quiser. Sim, estamos falando desexo, mas não só.

Escrevemos por prazer. Aliás, é assim que tentamos viver. Beleza, Gentileza, Leveza, eis as musas.

Não sabemos de tudo. Muitas vezes suspeitamos que não sabemos de nada. Não escrevemos pra convencer ninguém, mas para expressar o que sentimos, pensamos, queremos. Tentamos construir diálogos.”

Jogamos mensagens em garrafas, esperando que um dia elas voltem, com a resposta ou só com um oi e um abraço.

Nos dias em que a gente tiver certezas, não vai ser tão divertido.

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