Mais Uma Segunda

Por Patrícia Sampaio*, Biscate Convidada

sisifo

Acordar mais uma segunda-feira e “cuidar da vida”, como dizia a mãe que repetia a avó. A rotina está lá, impávida, à sua espera na cozinha: o lanche da escola, o café da manhã, o almoço dos que ficam em casa, a marmita de quem não dá conta de comer a comida da rua. A roupa na máquina, as plantas na varanda, a comida dos pássaros. Depois, os e-mails intermináveis, os trabalhos sempre atrasados, como se fossem programados pelo próprio Sísifo! Nem acaba, nem fica pouco!! Outra fala da mãe que também era da avó.  Nesses tempos, já nem sabe mais o que ainda é seu ou é herança de tantas mulheres que vieram antes.

Esta herança que nunca quis compartilhar com uma filha. Rezava a cada gravidez por um menino. Tinha verdadeiro pavor de ter uma menina e, por absoluta incompetência, transformá-la em uma igual, pronta para carregar o planeta nas costas, assumir todas as culpas, andar enlouquecida atrás da perfeição em cada passo e em todo ato mínimo da existência: a casa sempre organizada, a família mais-que-perfeita, os filhos impecáveis, a melhor profissional. Chegou a fazer o almoço antes de ir para o hospital parir o filho. Em pleno trabalho de parto, à beira do fogão, não disse nada para ninguém até que tudo estivesse arrumado na casa… Inacreditável, dizem! Sente orgulho quando vê os olhos admirados de tamanha eficiência. Mas, não se engana. Sabe que o orgulho é pelo personagem bem sucedido porque, na verdade, não há vaidade alguma nisso. É uma armadilha. Não queria mesmo isso para sua filha que, afinal, nunca veio. É um alívio.

De repente, a casa fica em silêncio. Todos se vão e as tarefas dão uma trégua. Silêncio na casa e a voz vai ganhando nitidez. De onde vem? Faz tanto tempo que não a escuta que nem lembrava mais que era sua. Tanto a fazer, tanto barulho do lado de fora que a pessoa esquece o que tem para dizer a si mesma.  E ainda tem algo a dizer? Parece que perdeu a prática de pensar sobre si. Desconcertada soa a voz. Titubeante. O que ainda sabe sobre sonho e desejo? Diz que devia ir, para poder lembrar do que era e do como era antes de se tornar essa outra. Que só pensa e age para fora, por impulso. Cuida, provê, organiza, acalenta e, principalmente, antecipa desejos. Os alheios, claro. Aprendeu, como outras, que a maior expressão do amor é a antecipação da necessidade. Qualquer que seja ela. O melhor amor do mundo. Sem lugar para falhas. Nenhuma.

A voz reclama. Já está sendo calada para falar de outrem. Ri e concorda. É a falta de prática de ouvi-la. Carece de tempo para o exercício. Os restos infinitesimais de pão na mesa são capazes de fazê-la calar a voz. Treinada para prestar atenção no que acontece do lado de fora.

Tem medo. Quando o silêncio da casa se tornar permanente. Sim, há de acontecer um dia porque não há outro jeito para a vida. Então, a voz se tornará única. Do que tem medo? Irá aparecer tão alta, rebelde, insana que será capaz de ensurdecê-la ou, ao contrário, terá cansado, desistido e silenciado para sempre? Ainda não pode ir. Não sabe como reaprender a ouvir-se. Tem que terminar o almoço.

patricia-sampaio* Patrícia Sampaio é escorpião com ascendente em Touro. Manauara por opção, botafoguense de longa linhagem e historiadora toda a vida porque é super divertido. Mãe de meninos empenhada em fazê-los entender meninas. Daquelas que adoram aprender. Sempre. @SampaioPatricia

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