Quem tem medo de buceta?

Quem tem medo de buceta?

Quem tem medo de buceta?

Eu sei, eu não deveria dar IBOPE para essxs colunistas machistas, misóginos, e sem graça. Eu sei que não deveria nem comentar as atrocidades que a Folha de São Paulo anda publicando através dos Pondés da vida, mas essa eu não aguentei. Não, não foi nem o Pondé dizendo que não come mulher, foi a tal da Tati Bernardi, essa pseudo-qualquer-coisa, que ganha para escrever atrocidades que além de não terem a mínima graça, nem a menor técnica literária, são preconceituosas e de um machismo agressivo e arrebatador.

Dessa vez Tati resolveu destilar seu veneno às fotos de parto natural que circulam na internet. Não, ela não problematizou o acesso ao parto, nem a cultura da cesárea no Brasil, nem sequer defendeu o direito da mulher ter uma cesárea caso seja da sua vontade (o que eu esperaria de alguém que começa um texto dizendo que gosta mesmo é de luxo e conforto no hospital e nos estabelecimentos de saúde). O problema da moça é ver a xota. A buceta. O que incomoda a pobre pessoa é exatamente ver a buceta das mulheres ao parir.

Buceta. Repete comigo e com a Renata Lima que já escreveu aqui sobre ressignificar a buceta? BU-CE-TA. Quem tem medo de buceta? Buceta pelada, buceta peluda, buceta descabelada. Buceta. Nossa, da outra, de tantas mulheres que as tem. Porque também tem mulher sem buceta. Qual o problema de mostrarmos, e de vermos, bucetas por aí? Não é uma parte do corpo tão importante e tão cheia de bons significados? Porque o horror, o medo, a aversão a buceta ou a xota ou que nome queiramos dar para nossa genitália que tanto pode nos dar prazer?

Vivemos numa sociedade estruturalmente machista. E, nessa sociedade, aprendemos a esconder as nossas bucetas. Buceta é tímida e arredia. Não se mostra. Nem sequer podemos ver as nossas próprias. Nem sequer é autorizado a mulher saber-se, tocar-se e ter prazer. O exercício de pegar o espelho e olhar, intimamente, para as nossas bucetas, é um exercício e tanto. Olhar para dentro e para fora. Olhar os contornos, tocar, ir sabendo-se ali, ir sentindo aonde é bom, aonde tem curvas, aonde tem pelos, aonde tem tesão, aonde tem arrepio. Sentindo seu próprio cheiro, sua própria textura.

Não, não é pecado nem é feio, como dita o moralismo cristão que nos condena. Não, não é ameaçador, como reza o machismo que quer nos dobrar. Nem nojento, como brada Tati Bernardi ao ver uma buceta parindo. É nosso e é, acredite, um terreno cheio de boas possibilidades de prazer.

Acho engraçado que escuto de muitas mulheres ao argumentarem porque não gostam de trepar com outras mulheres: “ah, eu não gosto de buceta, eca”. Ora, não gosta da sua própria? Não teria você também uma buceta cheia de possibilidades para você mesma? Qual o problema da buceta? Não é porque você não tem tesão numa mulher que a buceta é algo repugnante. Não seria, de alguma forma, uma repugnância a você mesma?

Façamos as pazes com as bucetas. Deixemos as mulheres parirem com suas bucetas fotografadas e assumidas. Deixemos as bucetas respirarem livres, olhemos, experimentemos, contestemos o machismo que impede de nos olharmos e sentirmos prazer. Bucetemo-nos!

E Tati Bernardi, beijinho no ombro pro recalque passar longe!

buceta

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28 ideias sobre “Quem tem medo de buceta?

  1. Sinceramente, acho que as discussões estão indo muito além do texto.
    Se gosto da escritora? Nem um pouquinho.
    Escolheu um tema ruim pra falar? Sim (e qual não é nos dias de hoje?)!
    Mas acho que no fundo a discussão não é sobre parto ou buceta. O que ela falou é realidade: as pessoas não possuem limite pra exposição nas redes sociais. E isso não é um problema, desde que quem se expôs esteja consciente que assim como ele se expôs ao publicar determinada coisa, o outro pode se expor como quiser, inclusive demonstrando uma ideia contrária.
    O parto é lindo pra quem gosta de parto. Ah, é humano, é natural…é, é tudo isso. A buceta é sua e você mostra pra quem quiser? É, é sim. Mas a beleza está nos olhos de quem vê, sempre.
    A verdade é que muitas pessoas comprometidas com a causa não conseguem ver as coisas de maneira imparcial.
    Por que, embora pudessem, muitas dessas que pariram não tinham fotos nuas no facebook? O corpo não é o mesmo, a buceta não é a mesma? Por que é que a ideia do parto tem que servir como uma carta branca pra nudez?
    Se fosse sua chefe ou sua empregada nua no facebook não seria ao menos desconfortável, inusitado? Talvez sim, talvez não, depende da pessoa.
    O fato é que a nudez, ao mesmo tempo que para uns é sinal de libertação, para outros é nada mais que a ideia de retrocesso, de comportamento social inadequado, de retorno à animalidade. Simplesmente não dá pra culpar as pessoas por elas seguirem convenções construídas há milênios, assim como não dá pra culpar quem não segue.
    Acredito que os dois lados estejam certos. Quem quer mostrar as fotos da buceta (no parto ou não, né, porque o tratamento não pode ser diferente ;D), do que cagou, do cachorrinho maltratado, que mostre, mas que respeite o direito de quem não gosta de falar sobre aquilo.

    • Rosana,

      a questão é um pouco além de a) você mostra se quiser e b) quem quiser falar mal, fala. Porque não é uma relação equilibrada. O corpo feminino é constantemente estigmatizado e rotulado.

      Mas, vamos supor, por um momento, que a relação fosse de uma natureza diferente, fosse apenas uma questão de “gosto e respeito” como você diz na sua última frase. Se EU publico uma foto minha na MINHA TL eu não estou desrespeitando ninguém. Ninguém é obrigada a me seguir, a ver a minha TL. Não é desrespeitoso. Mas é muito desrespeitoso (pra dizer o mínimo) fazer o que essa colunista fez.

      Pra pensar mais um pouco sobre o tema, sugiro esses dois ótimos textos: http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2012/06/por-que-imagem-da-vagina-provoca-horror.html

      http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2014/04/gata-eu-quero-ver-voce-parindo.html

      • Então, eu acredito de verdade que a questão só esteja além de “a) você mostra se quiser e b) quem quiser falar mal, fala” pra quem quer ver além, em outras palavras, pra quem quer aproveitar a questão do texto para difundir a beleza do parto normal. Não há nenhum mal nisso, só entendo que a questão central ainda seja o quanto as pessoas, querendo ser tolerantes, acabam se tornando intolerantes em relação ao outro.

        No mais, a ideia de que “Ninguém é obrigada a me seguir, a ver a minha TL” não é real numa rede social. Talvez em um site, já que só entra quem deseja acessar determinado conteúdo, mas sabemos que numa rede social, como a palavra diz, as pessoas estão interligadas, estão basta um indivíduo estar associado a você ou mesmo a um amigo seu para que tenha acesso ao seu conteúdo (e ele precisa ver pelo menos uma vez um conteúdo que não goste para que te bloqueie, então não há pra onde correr). Se você tem culpa disso e deve se privar de publicar o que gosta? De jeito nenhum. Mas ele tem o direito de não gostar e até de expressar isso.

        Sobre “Se EU publico uma foto minha na MINHA TL eu não estou desrespeitando ninguém. (…) Mas é muito desrespeitoso (pra dizer o mínimo) fazer o que essa colunista fez”, você está certíssima quando diz que não desrespeita ninguém, mas o que a colunista fez, embora de uma forma que não tenha te agradado por motivos que tenho certeza que são coerentes pra você, foi dizer que não é todo mundo que gosta de ver foto de parto. E é verdade. Há quem ache nojento, feio, desconfortável e nada disso é desrespeitoso, apenas estampa a liberdade de pensamento.

        Aliás, se é, devemos considerar desrespeitosos também os textos que surgiram em réplica, chamando a escritora de “pseudo-qualquer-coisa”, “escritora pop”, porque manifestou uma opinião contrária. E seria no mínimo contraditório se quem defendesse a dignidade da própria conduta ofendesse com palavras a dignidade de outra pessoa, não é mesmo? ;D

        Agradeço pelo espaço de debate e só reforço que o meu comentário traz a única contribuição de tolerarmos mais quem não concorda com a nossa causa quando não está difundindo ignorância. A ignorância deve ser combatida (e ninguém vai deixar de parir por causa do texto dela, tenho certeza!), mas a opinião contrária é saudável e facilita a vivência em espaços tão diversos como as redes sociais (e a vida, por que não? =P).

        • O problema, Rosana, é que discursos de ódio como a xenofobia, a homofobia, o racismo e a misoginia não devem ser tolerados. Não é uma questão de opinião contrária, apenas. Eu sou a favor da tolerância, mas no contexto crítico, entendendo as relações de força presentes no discurso. E, hoje, temos um discurso prevalente que desqualifica a mulher e seu corpo. Hoje temos, no Brasil, 52% dos partos feitos por cesarianas, em rede particular isso chega a 83% – enquanto o índice recomendado pela OMS é de 15%. Hoje temos uma invisibilização do desejo da mulher.

          “Ah, sim. Antes de finalizar. Ver vaginas parindo na rede social, em um país tão moralista quanto o nosso, de mentalidade tão misógina, onde mulheres são constrangidas por amamentar em público, onde dar à luz naturalmente é ainda, muito infelizmente, um privilégio, é um grande avanço.”

          Recomendo o blog da cientistaqueviroumãe.com.br e esse documentário: https://www.youtube.com/watch?v=eg0uvonF25M&feature=kp

          • Dito tudo isso, acredito que não há mais o que discutir, porque o que fica claro é que partimos de paradigmas diferentes.

            Ambas concordamos que “discursos de ódio como a xenofobia, a homofobia, o racismo e a misoginia não devem ser tolerados”, devem, inclusive, ser combatidos, como eu mencionei. A diferença é que você acha que o texto da escritora se enquadra nessa descrição e eu não.

            Como eu disse, o que você está fazendo ao colocar pesquisas e porcentagens é utilizar o texto, que não mencionou a cesariana, diga-se de passagem, pra falar sobre a causa do parto normal.

            E eu havia lido os textos contidos nos links antes de vir aqui , mas colar as opiniões de outras pessoas não é o que torna qualquer argumento indestrutível, porque, no final, é só outra opinião como a sua ou a minha. Mas tudo bem, conhecimento nunca é demais.

            De qualquer modo, acho que agora é o momento de exercer minha tolerância a sua opinião. Hahaha

            Até! =]

          • E o que você está fazendo é ignorar o contexto. E, olha, se você tivesse lido o link com atenção veria que o trabalho e a posição da Lígia (a cientista que virou mãe) não é só uma opinião como a minha e a sua. Enfim, já dizia Luthe King, “O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons.”

    • Parabéns, eu li os dois textos e depois o seu comentário. O texto da Tati trata sobre a imposição da imagem de algo negativo para si, já o segundo tirando a parte que fala sobre a opinião da Tati o que é sem sentido se levarmos em conta a outra parte do 2º texto que por sinal é ótimo. Ja o seu comentário é um ótimo conciliador das duas opiniões.

  2. Que texto maravilhoso !!!!!!!!
    Um VIVA as bucetas cabeludas, peladas, paridas, não paridas, descabeladas, pentiadas, gordas, magras, respeitadas, sacaneadas, roxas, vermelhas. Um VIVA pra minha, pra sua, para as nossas !!!!!!!!

  3. Passeata pela Liberalização da Buceta, apesar que pode aumentar o consumo e tornar o produto escasso……….kkkk….. Em 2014 anos o homem ainda não aprendeu que cada um tem o direito de fazer o que quiser com sua vida, respeitando os direitos dos outros, difícil???????

    • Tô aprovando seu comentário porque entendo que você quis fazer um comentário jocoso, mas que seu foco era que as pessoas devem respeitar o direito das outras pessoas fazerem com seus corpos o que quiserem, né? E nisso concordamos. Da próxima vez eu sugiro que você não fale em consumo e produto ao tratar do corpo das mulheres. A pessoa é seu corpo, o corpo é a pessoa e uma pessoa não é pra ser consumida, né?

  4. Adoro o texto da Renata Lima. E achei este texto bem bucetal.

    O que mais irrita no texto do jornal é a pavonice do senso comum. Aquele papinho chinfrim repleto de melecas para definir (condenar, tabular, construir) padrões estéticos e questões de sexualidade.

    E não cabe, creio, o argumento de que ela se referia aos excessos das redes sociais, tecendo uma crítica…. porque o texto é repleto desses excessos, recheado de impressões pessoais e comentários de quem ficou ali a xeretar, quando a opção de quem não “curte” é simplesmente rodar a página para baixo.

    Silvia, linda escrita de uma bela palavra.

    Tem um poeminha sobre buceta… posso?

    http://contosdealcovatenra.wordpress.com/2009/11/27/caixa-de-surpresas/

    • exatamente isso. Não cabe o argumento de “ah, é crítica aos excessos.” Se era, amiga, repasse, porque dessa vez errou feio, errou rude.

  5. Pagar uma equipe para filmar o parto para mostrar para quem? Para o filho quando estiver crescidinho? Acho que ele vai ficar bem triste ao meu o quanto a mãe sofreu para trazê-lo ao mundo. E se tiver uma personalidade lá não muito forte é capaz de cortar os pulsos pelo sofrimento causado. O problema não é buceta. Mas o que sai dela, num parto. Além, do bebê, o sangue e tudo que o acompanha.

    • Mario, tem tantas suposições não fundamentadas no seu comentário que mal sei como começar a conversar. Talvez o essencial é que não é disso que o texto trata. Mas vamos lá. Primeiro: nem todas as fotos ou filmagens são feitas por “equipes”, as pessoas registram momentos felizes, pode ser o companheiro ou companheira, a doula, um amigo… 2) Você não viu um parto, né? apesar do esforço e do cansaço a sensação geral não é de dor ou sofrimento, é de alegria e prazer. Isso mesmo, prazer (inclusive se você ler o link da cientista que virou mãe que coloquei em um comentário anterior vai entender melhor), 3) as pessoas não “cortam os pulsos” como uma ação trivial e por terem personalidade fraca, essa postura a respeito do suicídio e das pessoas que tentam ou cometem suicídio denota preconceito, falta de empatia e banalização, 4) concordo com você: o problema não é a buceta, mas discordo do que vem a seguir, não, o problema não é o sangue, o bebê, o problema é o moralismo e o machismo que fazem as pessoas darem pitacos sobre uma buceta que não é da conta delas.

      • “(…) o problema é o moralismo e o machismo que fazem as pessoas darem pitacos sobre uma buceta que não é da conta delas.” Exatamente! Uma buceta que não é da minha conta. Tati Bernardi está certa, não sou obrigada a ver bucetas que não são da minha conta só porque se referem a um parto normal e nossa-que-machismo-seu-de-não-querer-ver-minha-buceta! Certa vez, um pouco antes de surgir o Orkut, um colega de trabalho chegou com um álbum de sua viagem a uma praia de nudismo na PB, e foi mostrar para os colegas. Havia fotos dele e da esposa nus. Eu fechei o álbum assim que notei do que se tratava, pedi desculpas e disse que não, não queria ver as fotos dele. É disso que a Tati falou no texto dela – da falta de noção que faz com que pessoas acreditem que seja do interesse geral ver fotos do tipo “minhas últimas férias na praia de nudismo”. Negar a mim o direito de querer ou não ver determinadas fotos não seria, afinal, uma violência contra a minha pessoa? Sou obrigada então a ver fotos de bucetas com bebês saindo e de bilaus pendurados em praias de nudismo? Não, não sou obrigada. Como já andei lendo por aí, “meus olhos, minhas regras”!

        • Sheila, você percebe que há um abismo entre fechar o álbum e dizer que não quer ver e dizer pro seu amigo: não faça essas fotos, que nojo, vocês pelados, eca, não faça as fotos, não divulgue, eca, eca, eca?

          Então, a sua decisão de não ver as fotos é sua, mas a decisão de fazer as fotos e divulgar não é. Esse respeito a Tati não teve.

          (agora é super relevante pensar porque há partes do corpo, do próprio corpo, aliás, que a pessoa tem nojo)

  6. olha, se a Tati Bernardi queria, como ela diz e como dizem , discutir a falta de limites para exposição nas redes sociais, ela podia ter escolhido qualquer coisa – selfies semi-nuas que podem cair em sites pornográficos, fotos de comida, foursquare e o perigo que pode representar avisar onde se está… podia ter escolhido milhões de coisas para discutir a superesposição em redes sociais. E foi, no mínimo, infeliz ao escolher esse tema – o parto natural – e ao tratá-lo dessa forma machista e agressiva, sem nenhuma problematização… ainda mais levando-se em consideração que outro dia mesmo uma mulher foi escoltada por policiais armados para ser obrigada a uma cesárea e que há um esforço grande para se discutir a violência obstétrica. Não só a tal Tati agrediu e ofendeu essas mulheres que lutam para parir num país dominado pela cesárea (e pela violência obstétrica), como o fez de forma mal escrita, mal argumentada, mal escolhida… enfim…

    • Perfeito seu comentário, Rê.
      A agressividade da Tati podia ser melhor direcionada, ainda mais em tempos de Adelir.
      Lembro do documentário sobre humor e opressão, e o humor que faz graça com o oprimido.
      E de Zeca Baleiro, sendo poético mas contundente ao escrever “qual é a graça, desgraça, que há no riso do banguela”.
      Porque uma risada é uma risada, e pode ter graça, mas nesses tempos, recebemos vídeos de pessoas que estão se divertindo, dançando, rindo, cantando, e são ridicularizadas somente por não serem loiras, magras, !”ricas e cultas”, e a graça não é a graça que faz rir, mas rir da diversão daquele que não se encaixa no padrão, rir para se sentir superior.
      O texto da Tati é rude, mal escrito e é uma piada ruim, porque ri do que para muita gente é dor.

      • Isso. Tanto selfie por aí. Ela escolheu o tema e a forma de enquadrá-lo.Sem falar no momento, que torna tudo ainda mais violento e agressivo.
        E a tentativa canhestra de humor.

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