Semana, opa, Santa

Caravaggio_-_La_Deposizione_di_Cristo

Quinta ou Lava-Pés

Ela revisita lembranças. Sabe todos os amores. Inclina-se, saudade e bacia nas mãos, em uma disciplinada procissão. Dedica-se a expurgar o sofrer. Cantarola, mas podia ser uma prece: afasta de mim esse cale-se. Não pode negar o que já disse, não pode repetir. Aprisiona-se em cada grande amor. Resgata os momentos como se os pudesse sentir. Não sabe que autopsiar o amor é reconhecer sua finitude.  A saudade é corpo de delito. Cada um, ela lembra, seria pra sempre. Deixa os olhos perderem-se nos olhos dos fantasmas. Mergulha, prestimosa, as mãos entre as vísceras dos relacionamentos findos. Nem repara o rubro que tinge a água. Seu coração gangrenado.

 Sexta da Paixão

Eu nunca acreditei no amor eterno, na alma gêmea, na metade da laranja. Não esperei sinos, votos de felicidade, flores de laranjeiras. Os homens, ah, os homens em minha cama sempre foram riso. Prazer. Eu nunca quis mais do que o que tinha pra dar. E, ainda assim, em silente resignação, sei que você me tornou imprestável, senão para o amor, para os relacionamentos. Não sirvo ou eles não me servem. Foi você. Escavou abismos ao meu redor. E eu já não sei voar. Eles, os outros, nunca farão o sexo que você não fez e é sempre à luz deste vazio – onde tudo cabe – que eu os julgo sempre. Eles, os outros, nunca farão as letras que você fez e é sempre à luz desta presença que eu os condeno. Não me deixaste oca, esclareço, se assim fosse eu poderia acolher alguém em meus espaços. Ao partir, foi plena que me deixaste. Repleta de tudo que não pôde ser, com sua imagem enorme em todas as minhas esquinas. Compreendo, enfim, que é preciso que saias. Em sangue. Com a ponta mais afiada escrevo saudade na pele e abro veias. Em vermelho me deixas. Envolvo-me com branco lençol em arremedos de abraço e deixo inscritos os dias de solidão. Só é possível seguir se fico a morrer.

 Sábado de Aleluia

Todos os dias como uma prece: não querer. Destemida, percorro os dias tão cheios de você. Como uma pontada: você nunca esteve aqui. Nunca esteve no café cedo da manhã, eu encolhida no sofá, todo os riso do dia já no acordar. Nunca esteve no percurso do trabalho, as impressões do trânsito, do sol, do tempo. Nunca esteve no almoço corrido, nas tardes lentas, nos domingos chuvosos. Você nunca esteve na cerveja na varanda, nas intrigas amorosas, no chafurdar nos livros. Nunca esteve no ocre de Canoa, no azul do mar tão dentro de mim. Nunca, nunca, na estrada, nas perguntas, nas fronteiras, nas conversas noturnas que se tornam sol. Nunca esteve no sertão que construí pra você, letra a letra, terra e calor. Todos os dias, como uma prece: não pensar. Escrevo uma bula com meu método secreto para voltar a sorrir: o luto. Pra esquecer, procurar lembrar-se. Porque há um dia em que você não se lembra de lembrar. Só aí você esqueceu.

 Enfim, Domingo

Domingo eu não quero acordar cedo. Não quero acordar sozinha. Não quero calçar sandálias nem vestir roupa que aperte. Quero deitar no chão frio e pela janela espiar o azul. Quero café preto adoçado com felicidade. Domingo eu não quero ler jornal nem fazer compras no supermercado. Não quero névoa nos olhos nem vazios no peito. Quero cheiro de mar. Quero ignorar os relógios e contar o tempo em abraços. Quero seguir o corpo, comer quando sentir fome, dormir quando sentir sono e o resto do tempo deixar meu corpo saber outro corpo. Domingo eu quero ouvir sambas e ver futebol na televisão. Não quero falar baixo, andar rápido nem fazer a coisa certa. Domingo eu quero ler quadrinhos, tomar banho de mangueira e andar nua pela casa. Não quero cortar cebolas nem descascar abacaxis. Não quero usar talheres nem pôr a mesa, quero desenhar gaivotas em guardanapos. Domingo eu não quero segundas.

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4 ideias sobre “Semana, opa, Santa

    • Dizem que a Páscoa é tempo de transformação, né isso? Vou mudando água em vinho, ausências em desejos, memórias em presentes 😉

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