Um Olhar Biscate Sobre a Novela Em Família

Ano passado escrevi sobre Lado a Lado, a linda novela das 6 que ganhou o Emmy internacional de melhor novela, batendo inclusive a queridíssima Avenida Brasil.

Agora temos na faixa das mais uma novela do Manoel Carlos, o Maneco, como é chamado carinhosamente. Manoel Carlos tem 80 anos e um currículo de trabalhos de sucesso na tv entre eles a excelente Água Viva, onde foi co-autor junto com Gilberto Braga e que está reprisando no viva e Presença de Anita. Também fizeram muito sucesso as novelas de suas Helenas tais como em Baila Comigo, Sol de Verão, Por Amor e História de Amor (das Helenas  a minha favorita).

Maneco escreve novelas sobre a sua vida idílica, a vida como deveria ser. Os vizinhos lindos e amigos se ajudando, as famílias que brigam mas no fundo se amam, o médico da família (Maneco ainda vive do século 18, só pode, hoje a gente nem médico tem, que dirá da família), sempre um tal Dr. Moretti. Os cafés da manhã enormes, e a gente mal come pão com manteiga e toma café de tanta pressa, os vizinhos bacanas (sei nem quem são os meus, prefiro não saber), gente que passeia com o cachorro pelo Leblon..As crianças super fofas (sempre tem criança fofa que sabe tudo na novela do Maneco, maduras, mais que os pais). Empregadas que não tem vida própria e vivem par nos servir (precisa nem achar… OOOOO MIIIRRRNNNAAAA).

E o Leblon… tudo é no Leblon. O Maneco ama o Leblon. Você pisa no Leblon e toca bossa nova. Tem uns pardais treinados em piar Tom Jobim no Leblon. Uma beleza.

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Enfim essa vida idílica, quase comercial do Itaú entremeada por alguns desacertos amorosos, essa aí de cima é a  típica novela do Maneco. Ou Era. Ë que algo mudou desde a Helena passada (Viver a Vida) que já foi bem ruinzinha até essa atual de Em Família.

 A trama central da novela é o Amor, o grande amor, aquele que renasce como a fênix ( (pausa para  cena a la Harry Potter ).  Nada contra o amor, não fosse  o autor da novela entender por “grande amor”, ciúmes e violência. O mocinho da trama, Laerte, é extremamente possessivo, ciumento e violento, comportamentos esses que em geral vem acompanhados um do outro.  Mas o autor justifica o descontrole emocional do mocinho (como se houvesse justificativa possível pra isso), com o comportamento da mocinha, a Helena da vez, que, segundo a narrativa da novela, gosta de “ficar provocando”. Na cena em questão Laerte diz que farai tudo por amor, até matar, um Othelo moderno.

Ora, Othelo é bem interessante, assim como Dom Casmurro e seu atormentado Bentinho. Mas cabe, nos dias atuais, numa trama ambientada nos dias atuais, incentivar e conceber como grande amor um relacionamento baseado em possessividade, ciúmes e violência? Justo quando o noticiário diário das grandes cidades é tão pródigo em notícias de feminicídio? Ou Manoel Carlos não lê mais as notícias? Justo ele que fez o excelente Malu Mulher?

Porque Helena é uma personagem que se culpa o tempo todo pelo ciúmes que posa ter provocado. Muitas mulheres agem assim com seu parceiros violentos. O que falta aprender em termos de relações abusivas é: não sou responsável pelo comportamento do outro em relação ao que faço, mas sou responsável pelas minhas escolhas.

Parece contraditório, mas não é. Se, por exemplo,  quero ter amigas e meu parceiro não deixa e por isso é violento comigo essa não é uma relação em que devo estar se ele não consegue aceitar quem eu sou. Eu claramente não estou aceitando as ideias dele também, não consegui mudá-las. Hora de ir. É resumido. Parece lógico. Mas é dolorido. Quebrar o ciclo de uma relação não é rápido e simples assim, especialmente quando se tem filhos.  Especialmente para mulheres que já tiverem sua autoestima quebrada, sua rede de relações também, muitas vezes estão desempregadas porque abriram mão da carreira para cuidar da família. Várias questões estão em jogo.

E quase sempre esse marido se sente dono dessa mulher, nào aceita que ela se vá, aí acontece o feminicídio, fruto do machismo. Fruto do pensamento do homem que acha que a mulher é sua propriedade. Fruto do ciúmes, da violência e da posse, tantas vezes confundidos com provas de amor e que nada mais são que medo, insegurança e posse mesmo.

E aí vem essa novela dizer que isso é uma amor de 20 anos, que um sujeito violento e descontrolado com claros sinais de psicopatia é assim só porque, tadinho…: ama demais… E a culpa de tudo, claro, é da mulher que dá bola para vários. A culpa não é de quem faz a conduta mas daquela mulher má que instiga, quase uma Eva…

E daí que fico triste que o Manoel Carlos que já fez tantas novelas excelentes, que meu querido Malu Mulher que tanto me ensinou,  tenha chegado aos 80 anos fazendo uma novela que confunde amor com posse e coloque como tema na cabeça de algumas mulheres um amor obsessão que nada tem de amor porque Amor é felicidade, como bem disse Carlos Lombardi em Pecado Mortal, no outro Canal.

(e isso que nem falei dos problemas de racismo, classicismo e proselitismo religioso nessa novela, fica pra próxima…)

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