Uma conversa sobre corpo

Essa experiência começou numa conversa entre a Lu Nepomuceno e eu. Sobre corpo, padrões, formas. E virou isso aqui: uma entrevista a duas vozes. As perguntas a gente fez juntas, eu umas, ela outras; as respostas, separadas. Ela respondeu, eu respondi. Vai assim pra vocês, pra vocês poderem fazer as próprias perguntas, darem as próprias respostas. Que a gente acha que é um assunto  delicado e premente. A gente optou por não botar imagens: aqui, o que conta são as palavras, os relatos, a imagem que a gente tinha da gente mesma.

1. Como era sua relação com essa questão de gordura/magreza na adolescência? você sentia alguma pressão para ser magra? você era magra?

L: Retrospectivamente eu sei que era magra na adolescência. Porque vejo as fotos. Mas era bunduda, comparando com o resto do corpo. Não me sentia nem magra nem gorda. Eu não tinha (e essa é uma coisa que me acompanha) a sensação de ter um corpo de um determinado modelo. Eu não pensava (e não penso muito) sobre meu corpo. Eu sou meu corpo, eu vivo meu corpo. E era um pouco assim na adolescência, só que sem nomear esse processo como hoje nomeio. Eu não sentia pressão pra ser magra ou mais gorda. Se a pressão existia, nunca dei por ela. Credito isso a uma série de fatores que se entrelaçaram com maior ou menor relevância: eu não via novelas nem tinha acesso a revistas ditas femininas, então não tinha modelos imediatos de beleza, minhas referências eram as atrizes dos filmes de sessão da tarde e, principalmente, corujão, geralmente mulheres da década de 40 a 60, com seios e quadris proeminentes e do tipo voluptuosas. Minha mãe é do tipo dessas atrizes, peitão e quadril, então ficava com a mesma referência. E minha mãe nunca me pareceu vaidosa, no sentido usual. Ela não usa maquiagem, não frequenta academia, essas coisas. E meu pai sempre foi bem apaixonado. Então acho que fiz uma operação mental de que pra ser desejável não precisa reproduzir nenhum destes comportamentos ou que determinado tipo de corpo é mais legal que outro. Além disso, eu estudei dos seis aos dezesseis anos em uma escola em que todas as alunas eram mulheres. Me acostumei com a diversidade do corpo, acho, especialmente porque não havia muito esse lance de “mais bonitas” ou “mais magras”. Depois tive o privilégio de fazer a faculdade de psicologia (e, concomitantemente, análise) e essas questões do corpo se tornaram ainda menos importantes em termos de forma e mais no que tange a existência.

R: eu era muito magra, mas isso é algo que vejo também retrospectivamente. Gostava muito de ser magra, mas não me dava conta do quão magra era. Era (sou) muito peituda, e isso me incomodava; naquela época, o bonito era bunda grande/peito pequeno, o modelito da minha mãe, da minha irmã. Eu era basicamente o oposto, e preferiria ser como elas. Minha mãe é muito diferente de mim fisicamente, tem cara de índia, corpo de índia. E eu achava lindo e tinha pena de não ser assim. Olhando fotos hoje, me assusto com o fato de não me dar conta que era tão magra.

2. Você me parece ter uma relação mais livre com o corpo do que quase qualquer pessoa que eu conheço. Isso é natural ou foi fruto de um processo?

L: Como eu comecei a falar antes, nunca foi uma questão pra mim isso de ser magra ou gorda, bonita ou feia, etc. Não diria que é natural, no sentido de inato. Diria que foi um processo que eu não precisei deflagrar conscientemente. Foi mais a forma como eu pude organizar e simbolizar as coisas que me aconteceram e como me aconteceram e como eu agi sobre elas e assim uma coisa leva à outra… Acho que uma coisa importante nessa trajetória de sentir o corpo à vontade (e não só no que se refere a ser gorda, porque como eu disse isso nem era questão pra mim, mais de coisas como se vestir, maquiagem, etc) foi questionar o ridículo, eu lembro de pensar as pessoas importantes pra mim me respeitariam e gostariam de mim independente de como eu me apresentasse e as que não me respeitassem e gostassem usando como critério a forma como me apresento não eram pessoas que eu me interessasse que se tornassem importantes pra mim. Depois generalizei isso pra um monte de coisas, especialmente pros relacionamentos afetivo-sexuais-amorosos (depois relativizei e suavizei, mas, né, as bases já estavam postas).

R: minha relação com meu corpo já foi bastante conflituosa: hoje, a tranquilidade que existe foi absolutamente conquistada. E valorizada. Me sinto muito mais livre, de verdade, do que quando tinha 20 ou 30 anos. E gosto da sensação de ter vencido barreiras. Mas com relação a sexo, acho que sempre foi. Tinha um modelo bacana em casa, tinha uma família (pais, tios, avós) que gostava de sexo e deixava isso transparecer. Além disso, sempre encarei sexo como uma atividade que se aprende. Tenho muita preocupação com esses discursos que enfatizam uma suposta “centelha mágica”, um “clique” e tal. Pra mim sexo é que nem paladar, se educa, como um gosto; é que nem outra atividade física qualquer, se aprende e se exercita. E quanto mais se exercita, mais se descobre.

3. Hoje em dia, pode-se dizer que você seja “fora do padrão”, em termos de peso. Alguém já te cobrou isso? Como é que você lida com isso na vida?

L: De manhã, quando vou tomar banho, tiro a roupa na frente do espelho de corpo todo, olho e penso: que gostosa! No instante seguinte começa a avaliação: a barriga tá caída, a gordura das costas, olha aí a papada. Como eu lido? Não fico pro instante seguinte 😉

O que eu quero dizer é que eu procuro exercitar um olhar generoso. Um jeito generoso de ver os outros, procurar suas belezas. Que compreende um olhar generoso e de aceitação de mim mesma. Acho que existem (ou eu sinto) dois tipos de cobrança/situações. Uma que é estrutural. Não precisa ninguém dizer que eu estou errada em ser gorda: a poltrona do avião diz, as marcas de roupas que não produzem acima de determinados números dizem, os personagens de filmes e novelas que sempre se definem pelo corpo dizem (gordo é repulsivo, meio bobo, às vezes é engraçado, mas nunca sexy ou inteligente de fato), as matérias parciais nas revistas e na televisão sobre dieta, estilo de vida, etc relacionando peso com valores morais e comportamentais dizem(pessoas gordas são preguiçosas, não tem autoestima, precisam de uma mudança de vida). O outro tipo de cobrança/situação me chega por meio de ações e ditos contraditórios das pessoas que me amam e/ou são próximas. Minha mãe, por exemplo, de vez em quando me pergunta se eu não vou emagrecer, que essa barriga não é saudável e tal. Mas quando vou visitá-la me elogia, me acha linda, serve cerveja e cozinha um monte pra mim. Ou a amiga que vem conversar comigo porque agora estou namorando e preciso (sic) me cuidar mais (me cuidar mais = emagrecer e aparentar mais vaidade como usar batom) pra que o moço não perca o interesse mas que super me admira (e isso não é uma frase irônica, eu sei que ela realmente gosta de mim, me aprecia, me acha sensacional) e deseja ter minha (sic) segurança e autoestima. Ou ainda como moços por aí que já me perguntaram se eu não vou emagrecer ou se eu não me acharia mais bonita mais magra, mas sempre quiseram rala e rola e na hora do rola e rala é nos “excessos” que eles se empolgam. Então, eu rio. Você pergunta como lido com essas cobranças e eu penso isso: eu gargalho. Porque as opções são: emagrecer (não vou), sofrer com isso (não gosto), ou rir e viver (prefiro). Então eu digo pra mamys que a comida tá gostosa, digo pra amiga que não espero do moço interesse eterno e que se o critério dele fosse magreza e maquiagem certamente ele teria se engraçado por outra pessoa e, bom, nunca respondia pros moços, tava ocupada e de boca cheia, hohoho.

R: meu momento mais “no padrão” – uma afirmação disso – foi quando, aos 24 anos, fiz um book com um fotógrafo. Era meio terapêutico, uma maneira de deixar pra trás uma certa sensação de “patinho feio e inteligente” que me acompanhava. Tinha aquela coisa dos seios grandes, de ser “de outro padrão”. Branca, peituda, magra. Quando eram valorizadas as curvilíneas, morenas, de peitos pequenos. Adorei fazer as fotos, posar, achei que ficaram bem bacanas (num sentido meio teatral, já que a maquiagem, as poses, não era eu de verdade); outros acharam também e isso é espelho, é onde a gente se reflete e alimenta autoestima. Mas sempre valorizei muito a “dinâmica” com relação à “estática”: não tenho nenhum apreço pelos ditos belos (na beleza padrão de revista e de TV). Sempre gostei de brilho no olho, de gargalhada, de jeito de ser. Desde criança, eram esses os meninos que me encantavam: os que “sabiam ser”, e não os chamados de bonitos. Aí me encontro com esse olhar generoso que você diz que exercita: gosto de encontrar belezas, e encontro. Na pele, no corpo, mas também e sobretudo no movimento, no andar, no falar, nos gestos de mãos, no inclinar de cabeça, no acender um cigarro, no segurar um copo. Em homens e mulheres. Tenho muita pena dos homens que não admitem achar outros homens bonitos, como se lhes faltasse um pedaço, sabe.

4. Você, como mulher e ativista, reflete sobre essa questão da opressão a corpos, particularmente intensa no caso das mulheres. Queria que você comentasse um pouco isso, inclusive falando do contraponto: a magreza.

L: Eu me inquieto que a publicidade designe determinadas representações para as pessoas gordas. Eu questiono a indústria da moda. Eu me indago sobre os estereótipos reproduzidos em filmes, séries e novelas. Mas a minha questão não é apenas se o padrão atual é opressivo para as mulheres/pessoas gordas. É que exista um padrão ou que existam padrões que escalonem que corpos são mais bonitos, desejáveis, aceitáveis. Os corpos são diversos. São gordos e magros e altos e baixos e jovens e velhos e cada um tem a sua beleza. Não é com a reordenação do que é melhor que se constrói uma sociedade inclusiva e acolhedora, acho eu, mas com a aceitação de que não há melhores, há os corpos que levam a vida que levamos.

Nem sempre o discurso da militância está atento a essas matizes e, algumas vezes, culpabiliza as mulheres magras no lugar de se estar atento à estrutura. Eu acho que não interessa se a mulher é magra por metabolismo, por estilo de vida ou porque se esforça em dietas, cirurgias e diversas intervenções com maior ou menor sofrimento físico ou psíquico. Não interessa se a mulher é mais ou menos refém do discurso da beleza magra. Nós não temos que ser questionadas individualmente, acho. A questão deve ser sempre a busca de uma mudança na cultura. Para que as mulheres, as pessoas, não tenham mais que sofrer pra se enquadrar.

Eu acho que a questão central de opressão dos corpos não é a gordofobia, embora seja essa a manifestação mais evidente e cruel que vemos na convivência social diária. Penso que o que está mais no cerne é o escrutínio e o controle sobre o corpo feminino. O fato de que não questionamos as sucessivas avaliações e julgamentos pelos quais o corpo feminino passa, seja por ser gordo demais, magro demais, malhado demais, velho demais, negro demais, com pelos demais se mantém, acho, intrinsecamente relacionado com a legitimidade de que um saber externo e terceiro decida e opere sobre ele, seja a medicina, a religião, o Estado.

R: achei muito pertinente isso aí que você falou. Embora o problema da “gordofobia” seja, também, um problema prático: as pessoas não cabem. Nas roupas, nos assentos, nas passagens. Como se esse mundo não fosse feito para elas – o que, evidentemente, gera outras dores. Mas a magreza considerada excessiva também pode ser foco de muita reprovação e de muita sensação de inadequação. Assim como a busca dessa magreza vista como beleza e perfeição pode levar à doença, na forma do binômio bulimia/anorexia. Identifico-me com isso também, já fiz dieta (quando já era bem magra, mas não via isso) e cheguei a pesar 49 kg para 1 metro e 68. Só me dei conta de que estava indo além do razoável porque quase desmaiei na aula de canto. O resto das pessoas, em volta, me aplaudia. E isso também me assusta retrospectivamente. Ontem ouvi no rádio um comentário sobre “pneus” da Fernanda Lima: um horror, a invasão, o direito que as pessoas se arvoram de ficar falando mal do corpo das mulheres ( e ela tem corpo, basicamente, de modelo), porque são gordas, magras, idosas demais para usar biquínis…. isso sai tão espontaneamente, é tão naturalizado… como se fosse uma espécie de obrigação das mulheres. Como se fosse reprovável não cultivar e manter certo padrão de beleza, sendo mulher.

5. Como você se posiciona em relação às diversas inciativas de busca de emagrecimento, tais como dietas e cirurgias plásticas?

R: Já escrevi sobre isso (no texto “A Mulher em Bancas”): acho isso tudo uma prisão do cacete. E que fique claro: não é uma reprovação – mais uma – à mulher que acha que deve corresponder ao padrão x ou y e para isso faz o que considera necessário, mas sobre a sociedade que as empurra para esse padrão cada vez mais estreito. Estava lendo estes dias, por exemplo, sobre a onda de rinoplastias no Irã: de onde vem isso? Os narizes lá tendem a ser naturalmente aduncos, mas o padrão estético ocidental é diverso. No universo do cinema, as mulheres são cada vez mais iguais. E isso me entristece, porque a isso corresponde também um estreitamento do nosso sentido de beleza: quanto menos diversas as belezas possíveis socialmente, menos aguçados estarão nossos sentidos para percebê-las. Há, por assim dizer, um certo embotamento social da percepção do belo. Que ocupa um espaço cada vez mais estreito. Por mais que a gente (eu, você) se revolte contra isso na prática, construindo nosso próprio sentido de beleza, é uma luta inglória. Dá uma passada numa banca de jornais e olha só as capas de revistas femininas: uma mesmice só. Tristeza. E ao mesmo tempo, a certeza de que a gente tem que ir adiante. E questionar, e mostrar outras possibilidades, e fotografar, filmar, exibir, discutir. Ampliar. As redes permitem isso. Vamos aproveitar.

L: Concordo inteiramente com você, não se trata de avaliar e condenar as mulheres individualmente, eu penso no sofrimento silencioso sedimentado diária e imperceptivelmente que nos conduz a esse olhar critico sobre nós mesmas e as exigências que construímos a partir daí. Sinto que as iniciativas individuais são a forma como cada uma consegue lidar com sua história, com as demandas sociais, com os padrões. E devem ser respeitadas ao mesmo tempo em que não se pode deixar a peteca cair no questionamento do porque, na reflexão sobre o cenário em que essas ações se tornam necessárias.

6. Como você entende a questão corpo magro X saúde X corpo gordo?

R: A questão da saúde, pra mim, já é uma questão. Quer dizer, essa obrigação de ser saudável (ainda antes de falar do gordo x magro) já é uma coisa questionável. Por quê? Nem sempre foi assim. Se eu escolho beber, ou comer aquilo de que gosto, ou ser sedentária e viver com meus amigos nos botecos da vida, por que isso seria pior do que a vida daquele que escolhe ir à academia todo dia, só comer tal ou qual coisa, ser moderado, não fumar…? Um “sim” – à vida saudável – tem sempre um “não” embutido – às atitudes consideradas não-saudáveis. Que podem ser as que me dão prazer, as que me trazem conforto. Pode ser o que eu tenha vontade de fazer. Eu ou qualquer um. Ninguém deveria ter o direito de se meter na vida dos outros como se metem, dizendo “você devia malhar mais”, “devia comer mais verduras” e tal.
Tem aí uma reprovação meio moral que me dá agonia. E olha que comigo isso não acontece; apesar de hoje eu estar um monte de quilos acima da magreza original, não tem ninguém me dizendo que eu devia isso ou aquilo. Mas vejo acontecer, muito. E aí tem esse outro ponto: as pessoas consideram, a priori, que magro é igual a saudável, gordo é igual a doente. E não adianta a pessoa gorda argumentar com resultados de exames, com dados concretos: é um a priori muito estabelecido, se você é gordo, algo de errado deve haver com você. A contrapartida é que se você é magro, nem sempre identificam a tempo quando há algo de errado com você, como em tantos casos de anorexia não-identificada.

L: eu responderia assim, do jeitinho que você respondeu. Que não há nenhuma garantia a priori de que o corpo magro é saudável e o corpo gordo não, que essa equação é sustentada pelo preconceito. E, para além, que nenhum discurso seja estético, médico, moral ou religioso externo deveria pautar e moldar os corpos e suas vivências acriticamente. Incluindo o paradigma da saúde como meta e da juventude como momento a se preservar e perpetuar o máximo possível.  Me preocupa a forma como o discurso estético se entrelaçou ao discurso médico e o poder que o discurso médico tem sobre o corpo, especialmente o corpo feminino (como bem se percebe em relação a questão do parto). Fico pensando se não caminhamos, em algum grau, pra uma certa patologização do viver contraditoriamente sustentada pela busca ativa da vida mais “corretamente” vivida. Uma coisa que eu costumo repetir é que eu levo a vida do corpo que levo e levo o corpo da vida que levo. Não acho que é modelo pra todo mundo, mas conforta e acolhe.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

42 ideias sobre “Uma conversa sobre corpo

  1. “A gente optou por não botar imagens: aqui, o que conta são as palavras, os relatos, a imagem que a gente tinha da gente mesma.” – me aproprio desta sentença também para lembrar o quanto do desejar outro corpo não está diretamente relacionado com a visão. Por mais óbvio que pareça, a gente se esquece que se apaixona através de textos e conversas, empatias e simpatias e que a beleza é das coisas mais multiformes.
    Lembro-me, quando menino de escola primária, me apaixonei umas duas vezes, e nas duas vezes colegas me repreendiam dizendo que eu gostava de “meninas feias”. Não conseguia entender como isso se operava, eu gostava delas por uma série complexas de coisas que não tinham nada a ver com padrão. Sonhava com elas, pensava nelas, e sofria… sofria, aquela coisa de Charlie Brown, mesmo.
    E, né, o sofrer com o próprio corpo, a gente sofre e abre mão levando banalidades a sério. Por vezes sem julgar os outros mas julgando-se. Até pouco depois dos vinte anos me reconhecia como um cara “feio”. Foi a partir do momento que liguei definitivamente a forma como eu me relacionava com o conceito de beleza que tinha para os outros à forma de lidar comigo, que percebi a amplidão do que é belo. E é nessa abertura de 360º, em 3D, que me relaciono comigo mesmo e com os “amores”, todas as pessoas com quem tenho me relacionado são lindas, e há narcisismo sim nisto, eu me vejo nelas e gosto de seus corpos, em todas as suas variações, curvas, sobressaltos, marcas, cicatrizes etc.

    • Putz, que comentário massa, Welber. Inda mais vindo “do lado dos meninos”. Eu sempre me apaixonei por gente fora do padrão, esteticamente. Mas de mulher isso não é muito cobrado, né? No colégio, eu era apaixonada por um menino que, quando entrou na minha turma, me impressionou pelo sorrisão. Pelo humor. Pela segurança. Pela generosidade. E isso, claro, aparece no olhar, no jeito de falar. Isso encanta. Ele, como outro amigo meu recente que tem o mesmo estilo, colecionava apaixonadas: não havia essa questão de padrão ou não-padrão, galera caía (cai) mesmo. E eu fico pensando que para homem é mais fácil, que não se lhes cobra tanto essa questão. Seu comentário mostra outras nuances….
      Beijo e obrigada pela visita! 🙂

      • “Ou ainda como moços por aí que já me perguntaram se eu não vou emagrecer ou se eu não me acharia mais bonita mais magra mas sempre quiseram rala e rola e na hora do rola e rala é nos “excessos” que eles se empolgam.” – Olha, sei que não posso falar por uma classe (sic), ou gênero (sic 1) ou qualquer outra categoria de forma generalizante, mas, acompanhando a experiência cotidiana, consigo visualizar essa fala da Lu “lá fora”. Se há a pressão midiática, o discurso de beleza chapada e monótona, há o fato: as pessoas se relacionam ou apenas se “pegam” por muito mais do que corpos “afinados com a tv”. Tudo bem que tenho me afastado muito da convivência com muitos homens por me entristecer com seus discursos misóginos, mas os poucos que admiro e compartilham parte de suas vidas são bem desligados da propaganda em suas relações. Porém, ainda insisto no narcisismo, egoísta que sou, ainda me privo ao máximo de quem não me é espelho. Porque quero a vida, ao MEU jeito, linda.
        Beijos.

        • sobre isso, me lembrei de dois episódios da vida real: o primeiro é uma moça linda, *mas* redondinha, que tinha um “peguete” que gostava de trepar com ela, mas não de sair com ela: pegaria mal para sua imagem social.
          Fueda.
          O segundo: um casamento de longa data, se despedaçando, em que o cara comia a mulher por trás, “para não ficar olhando a sua cara”.
          As duas pessoas (os homens) são socialmente adaptadas, não parecem trogloditas nem brucutus. Imagina os outros. A gente tem que ir fundo nesse mundo aí. Que é o mesmo da violência dos homens de bem, que eu mencionei nesse post (em que conto a segunda história). http://biscatesocialclub.com.br/2013/11/violencia-mulher-homens/

          • Ah, sim, pois primeiro vem o discurso. Depois vem os fatos e nossa perplexidade (ou não). A gente vai tentando não julgar e, ao mesmo tempo, fazer minimamente uma teia de segurança nos relacionamentos de toda ordem. Espelhos não dizem a verdade (o que é verdade, afinal?), mas dão uma básica referência. Se nos enganarmos, revemos, e reconstruímos as questões. Enfim.

  2. Tenho muito que aprender.
    Há muito venho tentando olhar sem julgar. Ainda mais sendo alguém mais das figurinhas do que das palavras. A forma, a embalagem pra mim são importantes mas o conteúdo tb define a forma e transparece. Um brilho no olhar é muito bom.
    A imposição de um corpo e de um modelo já ultrapassou todos os limites do absurdo. Hoje, os homens tb têm que entrar num padrão.
    Numa sociedade cada vez mais individualista é engraçado ver a padronização e todos virando robozinhos.
    Mas tudo é uma questão de mercado e lucros. Quando a Lu diz “Não precisa ninguém dizer que eu estou errada em ser gorda: a poltrona do avião diz, as marcas de roupas que não produzem acima de determinados números dizem, os personagens de filmes e novelas que sempre se definem pelo corpo dizem (gordo é repulsivo, meio bobo, às vezes é engraçado, mas nunca sexy ou inteligente de fato), as matérias parciais nas revistas e na televisão sobre dieta, estilo de vida, etc relacionando peso com valores morais e comportamentais dizem(pessoas gordas são preguiçosas, não tem autoestima, precisam de uma mudança de vida). ” pra mim fica tão claro a questão do mercado, lucro, do capitalismo. Impõem mesmo um padrão. Com o tecido de dois vestidos grandes se fazem 3 pequenos, onde sentam 2 gordinhos pode-se colocar 3 magros – apertados, mas é uma passagem a mais. Além do lucro enorme que a indústria da dieta proporciona.
    Então, ganham de todos os lados. Mas não deixar se influenciar com toda propaganda é bem difícil. Só sendo lindas, maravilhosas e cultas como vcs duas.

    • Acho que tem alguma razão nisso aí, Claudio. Mas acredito que não é assim tão direto. O capitalismo e sua cultura são complexos e resultantes, não penso nisso como sendo conscientemente orquestrado. (menos no caso dos assentos: já me disseram que o modelo para avião – que diminuiu muito o tamanho das cadeiras – foram os aviões japoneses!). Acho que existe um simbólico que associa poder e magreza, mas tem a ver com uma certa cultura do supertrabalho, do “ser pilhado”, e também da contenção de um certo tipo de desejo corporal – comer e dormir, basicamente. Trepar e trabalhar incessantemente, brilhar, “aproveitar” (o que quer que isso queira dizer), essa é a cultura valorizada. O cara que chega no trabalho às 19:00, produz loucamente até as 21:00, e de lá emenda num restaurante, numa noitada onde brilha, exuberante. Move-se rápido, pensa rápido. Rápido é o termo. E isso pode ter a ver também com a cultura magra. Aí vem a TV, que “engorda” as pessoas. E a alta costura, que gosta de “cabides”.
      Mas é bom lembrar que gente dita muito magra também sofre, ouço isso todo dia: as meninas que viram modelos famosas na adolescência foram chamadas de “cabo de vassoura” e muitas vezes são preteridas nas festinhas. Os meninos que viram modelos também carregam marcas da adolescência, quando não pegavam ninguém.

      • Acho que complexidade é o termo pra tratar do assunto. Acho que tem muita, muita relação com o controle do corpo. O controle do prazer. Não pode comer, trepar, dormir (sabe aqueles pecados capitais?) como quer. tem que fazer isso, claro, comer BEM, trepar CERTO, descansar ADEQUADAMENTE.

  3. tenho 66 no corpo, e uns 38 na cabeça. não pinto mais o cabelo e assumo integralmente o meu corpo não tão mais jovem – é a minha historia que está ali. não poderia ser diferente.
    minha cabeça está a mil, estou muito inserida no mercado de trabalho e na minha área profissional encaro qualquer competição com a garotada, na boa.
    mas sou invariavelmente tratada como uma vovó. uma mulher sem muita serventia, porque não reproduz mais. é estéril, vive na menopausa.
    no meio em que a gente vive, um corpo de mulher que envelheceu, que não tem mais o brilho na pele, onde o tempo cravou sem piedade os seus dentes, esse corpo incomoda tanto que preferem não ver… a mulher mais velha não tem o direito de exibir pra todo mundo como o ser humano é fragil e está sujeito ao tempo, entende? sinto na pele, sou praticamente invisível… 😀

  4. Ai, Lu e Renata, o que dizer? Gostei demais, né? E tive uma ponta de invejinha em muitos momentos. Porque eu sou a pessoa que só muito recentemente parou de sofrer com isso. Eu, quando tinha uns 13 anos, me lembro que achava que jamais ia transar na vida, porque se tirasse a roupa e visse o micro pneuzinho que eu tinha na barriga, o cara se desinteressaria. Eu super comprei, a vida inteira, o discurso do modelo de magreza. Durante anos da minha vida eu achava que ninguém ia se interessar por mim porque eu era feia – nariz grande, dentes separados, varizes nas pernas e, vejam bem, GORDA, porque o “certo” é usar manequim 38. E acho lindo e libertador que se possa viver de outra forma. E hoje tô aí, pensando sobre isso, principalmente sobre a gordofobia. Sobre o quanto ela faz mal pra saúde das pessoas. E super concordo, e até já escrevi sobre isso, que saúde não deveria ser um parâmetro universal, mas tem isso, que a Jeanne Callegari até tem lido sobre, que as pessoas gordas às vezes gostariam de fazer exercícios, mas são ridicularizadas quando fazem. A vergonha do próprio corpo causada pela gordofobia social é muito mais nociva para a qualidade de vida de maneira geral do que a gordura. Disso eu não tenho dúvida.

    • isso que cê falou, de ter vontade de se exercitar e ter vergonha e tal, acho super importante de ser destacado. Eu não tenho vontade de me exercitar, você me conhece, mas adoro dançar. Aí tinha essas aulas de dança do ventre e eu me inscrevi (e eu tinha tipo uns dez ou quinze quilos a menos) e fui lá fazer com a roupinha super sexy que encomendei à minha mãe, rs. Barriga toda de fora e talz. E aí mais de uma pessoa lá (mais magras que eu Oo) vinham me dizer que estranharam eu chegar de barriga de fora, que não tinham coragem de usar o top e sei que lá. Veja bem. Uma aula. Só com mulheres. Um tipo de aula que, teoricamente, é mais acolhedor. E como é difícil mudar o paradigma de que o corpo precisa ser alguma coisa: não precisa ser saudável, não precisa ser bonito, não precisa ser jovem. Como é difícil assim: um corpo que sente prazer em ser. Anyway, não durou muito, minha irmã não foi comigo, era longe, sábado de manhã… mas aprendi a fazer o 8 e aquele lance que a gente entra e sai do véu… deu pra usar em muitas situações, como direi, divertidas. Fico pensando que se fosse um lugar mais divertido, acolhedor pro corpo, talvez eu tivesse me demorado uma coisinha…

    • Iarita, que comentário legal. E foda isso, mesmo, né. Tem aquela parada de que “de perto ninguém é normal”. E parece que, em lugares em que se dá muita bola pro padrão do corpo, todo mundo se olha com uma lupa e a tendência é essa mesmo. Fiquei muito impressionada com uma fala da minha professora de italiano, que é linda, e padrão, dizendo que até os 24 anos (24!) não tinha coragem de usar saia curta, porque todo mundo dizia que ela era muito magra. E essa sobre a vontade de fazer exercício é bem importante mesmo. A vergonha. Lembro de amigo que tinha sido gordo na infância, e não tirava a roupa na praia nem por um decreto. Lembro que eu cresci na Suíça, onde educação física era levado muito a sério. Não “ginástica”: exercício, andar muito, nadar… e também ginástica, como parte disso. Não tinha essa parada, viu. As crianças não se olhavam do jeito que se olham aqui. Era exercício, não era exibição de corpo. Não era sexualizado. A gente podia reclamar e achar chato, mas não rolava isso de vergonha de tirar a roupa. Quando voltei, aos quase 13, é que me deparei com todos esses problemas em que ainda não tinha pensado. E me cobri, primeiro. Pra me proteger e entender. Fui me pelando, aos poucos. Na faculdade, usava minissaia direto. Mas isso era porque antes, até ali, eu só usava calça jeans, rasgada, riscada, desenhada: eu tava compensando… aí (nessa mesma época) fui fazer dança. E na minha escola de dança, o vestiário era único, o chuveiro era unissex. Pense numa coisa boa pra matar preconceitos… 😉 o corpo em movimento. o corpo de trabalho. o corpo de esforço, de força, de flexibilidade, de leveza, de ação. outro corpo. ninguém olhava pros outros na hora de trocar de roupa e de tomar banho.

  5. meninas…. tenho mais ou menos a mesma idade que vcs mas sempre fui cheinha, não era gora ainda, apenas cheinha, mas vejam só.. já era chamada de gorda na escola since evah… meio meio é a classe média plano piloto brasília. não era uma coias acolherdora. meus pais não eram acolhedores e carinhosos. não aprendi a me amar mesmo. daí que nunca me senti bonita, nunca me senti aceita, sempre me senti feia. até hj isso é assim. reflexos. daí que acho que o fato de vcs não terem sido gordas nessa época fez/faz grande diferença, sabe? que vcs acham?

    • Iara, acho que faz diferença sim. Porque a adolescência é uma fase delicada na construção da auto estima, né. Se o meio não é acolhedor há muito mais dificuldade da pessoa ficar à vontade com seu corpo, acho.

    • acho que faz diferença, claro, Iara. Esse negócio de adolescência e de construção de identidade deixa marcas… eu, como contei, tinha muitas questões aí. Esse negócio do peito grande, não sei se cês lembram ou têm idéia (já que hoje é tão diferente e a gente comprou a estética gringa/barbie): eu morria de complexo, monte de gente fazia plástica (pra diminuir), eu só não fiz porque não tinha grana, certamente. Me chamavam de “Fafá” (por conta da de Belém) certa época, a época mais foda, acho, na escola. E eram meus amigos, aqueles de quem eu gostava, o menino de quem eu era a fim…. o emagrecimento excessivo da época posterior tem a ver com isso: descobri que tinha um nível de magreza em que meu peito diminuía….

      • Acho que no meu universo ter peitão era bom, era tipo um atestado de “maturidade” (mas eu já reparei que a dinâmica nordestina era bem diferente da do sudeste nessa época, né)… o meu era meio pequeno (cresceu depois da amamentação). É triste com a escola pode ser um lugar tão cruel, né? Não lembro de ninguém implicando comigo, nem de eu implicar com ninguém, mas como eu falei, minha escola era peculiar.

        • Era sim. Minha prima, mesma época, no Recife… parece que fazia o maior sucesso no colégio. Por conta disso aí que você falou. Eu fazia o maior sucesso. Com gente muito mais velha… o modelo era bem outro. E, pra piorar minha vida, eu tinha uma mãe considerada linda – pelo mundo, mas sobretudo, pelos meus amigos e pelos meninos por quem eu me interessava!!!!

          • E, pra mim, peitão era importante também porque grande parte da minha “formação” foi feita pelo Corujão (filmes da década de 40 a 60, aqueles peitos enromes e espetados e talz)…

          • tive maior problema com peitão. até hj tenho problema de postura por isso. irmã fez plástica com 15 anos, mas tinah problemas de coluna por causa do peitão daí que não conseguiu amamentar quando teve filho e mega se arrependeu. isso de seguir estética é muito louco.

          • ai, tadinha. eu não sabia que dava problema desse tipo… gosto da idéia do caminho percorrido até a gente aceitar-se. embora entenda que tem gente que precise de uma transformação maior (cirurgia) pra chegar lá.

  6. Então, Lu, foi assim pra mim: eu tava indo bem, tipo assim super bem, no sentido da autoestima, no comecinho da adolescência. Eu ainda tava na Suíça, e lá eu era bacana… aí voltei pro Rio, descobri que eu era branca (e não morena, como achava), que moreno era bem mais valorizado, e que aqui as mulheres consideradas gatas eram pequeninas, curvilíneas de bundão e peito pequeno.
    Ou seja, quase o oposto de mim, hahahaha. Durma-se com um barulho desses. Demorei pra me recuperar dessa, viu…

    • É louco essa coisa do padrão, né, Renata? Você falando do peitão e tals, que valorizado era peito pequeno, e eu lembro de quando isso virou, foi na década de 90 mais ou menos, ou final dos 80, quando e Monique Evans colocou silicone. O doido do padrão peitão é que durante muito tempo eu acreditei que meus peitos fossem pequenos, já que grandões assim eles não são. Mas certeza que se fosse crescida nos anos 80 acharia grandes demais.
      Pra mim o que era complicado era a pressão por uma suposta delicadeza, que é racista também. Minha mãe é morena, mas tem nariz pequeno, ombros estreitos, quase não tem pêlos. Eu com 12 anos tinha mais pelos nos braços que os meninos da minha idade. E sofria bullying por isso. Fora narigão, ombros largos. Então hoje eu me vejo um mulherão. E foi engraçado porque recentemente duas amigas, que não se conhecem, me contaram que as mães se referem a mim como “um mulherão”. Mas esses traços fortes, essa exuberância e tal, a gente sustenta melhor depois dos 30 eu desconfio. Porque na adolescência a gente não é mulherão. A gente não é nem mulher ainda, na verdade.

      • E isso era parte do problema, Iara. Lembro de uma viagem de escola, eu devia ter uns 14 anos, um professor olhando uma foto minha de biquíni, totalmente lúbrico. Eu tava do lado dele e ele não se deu conta que era eu, a foto era meio de longe, não dava para ver o rosto. Perguntou “quem é essa?” E eu fiquei roxa, e fiquei com raiva, eu tinha quatorze anos e não queria ser aquilo ali. Nem para o bem, nem para o mal. Não queria. Morria de inveja da minha prima, apenas um ano mais nova, mas que era baixinha e tinha cara de menina ainda. E, pensando hoje, ela deve ter lá tido seus próprios problemas por isso… 😉 (?)

  7. Renata, concordo que não seja tão direto. Prefiro o termo da Lu – complexidade.
    Acho que são várias camadas, de temas completamente diversos que vão dizendo e conduzindo pro mesmo. Ou meio que parecendo justificar as outras escolhas.
    Na questão do corpo, acho que hoje os homens podem estar palpitando mais sobre o padrão estabelecimento, mas muito ainda da cobrança vem das outras mulheres. Como o caso da Lu, que poderia não ser uma cobrança, só alguém espantado de alguém conseguir de fazer – com naturalidade – aquilo que ela não consegue. Mas que aí começa colocar pulga atrás da orelha onde/em quem não devia.

    • Claudio, acho que não. Não vem das outras mulheres. Vem da sociedade, que é machista até o talo. Machista até o talo no direito que ela dá (aos homens, às pessoas em geral) de dar palpite no corpo das mulheres. Das mulheres, predominantemente, não dá pra fugir disso. Sim, os padrões são sociais, e muitas mulheres os incorporam e também julgam as outras. Mas acho que, quando a gente busca “o ovo ou a galinha” dessa conversa aí, vem de uma estrutura social em que o corpo da mulher é objetificado. Por quem? Pelos homens hetero, basicamente. Não somente, mas basicamente. Você não acha?

      • Eu também acho que o problema é estrutural e que somos criados e criadas imersos na cultura e na estrutura machista, o que diminui, em muitas situações o senso crítico(tá tudo muito internalizado, né) e daí as mulheres reproduzem a opressão, opressão esta que as aprisiona também, inclusive.

  8. não me peso há alguns anos… resolvi tentar quando passei uns tempos numa casa que não tinha espelho de corpo inteiro (nem geladeira, passava manhãs inteiras cozinhando, conversando, não comia carne, caminhava meia hora pra chegar numa vila, vida bem “natureba” mezz e tals…), aí de repente tava passando na rua e me “flagrei” num desses espelhos e “putz, que mulher bonita!”. era eu. mas né? só sei que foi longe dos ponteiros da balança propriamente dita que “descobri” minha tendência a engordar ou emagrecer excessivamente quando estou triste ou alegre também excessivamente, então hj meu “cuidado” é tentar manter um certo equilíbrio entre o que as sociedades cobram (no plural mezz) e o que eu me cobro (pq tb tenho tendências à auto-vilania vezoutra), mas o processo até lá, afe!!!… enfim… deliça de texto…

    • pois então… pesar-se, não pesar-se…. acho que a gente não pode é reduzir-se a isso, medir-se por isso. Adorei o “putz, que mulher bonita!” (e é mesmo… 😉 )

    • tão importante essa discussão também, Iara. Em tempos em que IMC é justificativa para que gente que passou em concurso não possa assumir a vaga.

  9. De repente me sinto assim, numa conversa deliciosa, com uma cerveja na mão, o violão parado num canto aguardando a hora de ser usado e abusado. Não preciso de fotos para imaginar, né mesmo?

    Eu era muito magra quando criança. Muito. Na adolescência isso melhorou, mas comparada a toda a minha família, de mulheres fartas assim como as nossas mesas de almoço mineiro, eu era um ser estranho. Minhas tias viviam falando com minha mãe para me darem algum medicamento, para me levarem na casa delas que “fariam um regime de engorda”, afinal, mulher boa é mulher de anca larga, de quadril recheado, parideira de primeira! (conseguem imaginar?)
    Minha irmã mais velha (um ano e cinco meses mais velha somente) representava esse padrão. Eu, com 12 anos, parecia ter nove. Ela, com 13, parecia ter 18. Ela começou a namorar nessa época, eu só fui ter um namorado fixo com 18 anos de idade. Antes disso, só beijos de uma noite, afinal, quem ia querer essa coisa magrela? “Sem ter o que pegar”, diziam irmãs e primas, apiedadas de mim.
    Tinha dentes tortos e não tinha dinheiro para pagar um aparelho, então sorria pouco ou de boca fechada. Só fui usar mini saia com 17 anos, porque uma paixão da época me disse que eu tinha pernas lindas… e isso me deu coragem.
    Com 28 anos fiz faculdade e finalmente coloquei o bendito aparelho. Que me fez emagrecer ainda mais, cheguei a pesar 47 quilos com 1,68m de altura.

    Confesso que não gosto de ver as fotos da minha formatura por isso…

    Tomei sustagen anos para engordar. Cápsulas de cevada (e a cerveja também…delícia…rs). Mas só fui engordar uns três anos atrás, com quase quarenta!

    E agora olho meu corpo e ainda não consigo amá-lo, não como deveria. É o mesmo corpo de antes, mas agora com a marca do tempo, com os pneuzinhos, com uns cinco quilos acima do “padrão”. Penso em fazer regime, mas chega a noite e caio de boca num chocolate quente com pãozinho de sal e manteiga e largo pra lá essa ideia.

    Mas mesmo me vendo presa aos padrões, reconheço também que nunca perdi uma chance de emprego por ter o corpo que tinha. Nunca fui julgada como uma “desleixada” ou com baixa autoestima (e eu tinha baixa autoestima), ao contrário de quem é considerado “gordo”.

    Quando foi que perdermos o domínio dos nossos corpos a esse ponto? Se é que um dia tivemos…

    Vou pensar, repensar, ler de novo, abrir o armário, me despir e rever cada pedacinho de mim.

    Obrigada, queridas. <3

    • Dri, querida, queria contar que a cada comentário nesse post aqui, tão pessoal, tão doído, me convenço que foi bom escrevê-lo e escrevê-lo nesse formato. Contando as nossas histórias de corpo. Chamando pra conversa. Tanto a se dizer sobre isso…. e a cada um, a cada uma que escreve fico pensando que temos que conversar mais, aumentar a roda, chamar mais gente, tomar (né) mais cerveja. Muito assunto sobre esse assunto que é a gente e como a gente se situa no mundo.
      E você viveu os dois lados disso, esse que conta aqui, o outro (de ser considerada bonita, o que, ao contrário do que se pensa, não traz só vantagens) acolá….
      beijo grande.

      • Post incrível. Vontade de convidar todo mundo pra festa! =)

        Tem ainda esse lado, o que passei de violência sexual, de assédio, dos privilégios que detenho até hoje e estou tentando conectar tudo sem me perder dentro de mim mesma.

        Precisamos de um novo #saudadedoteurabo em BH urgente! Dessa vez com vocês duas (e eu sem Leon pra poder me acabar na farra!)

  10. Pingback: Ainda corpo: a necessária desnaturalização de padrões estéticos | Biscate Social ClubBiscate Social Club

  11. Pingback: aceitação generosidade gordaBiscate Social Club

  12. Pingback: Velhice, saúde e o cuidado em nossa sociedade |

  13. Pingback: Velhice, saúde e o cuidado em nossa sociedade | Áfricas - orgulho de ser!

  14. Pingback: Velhice, saúde e o cuidado em nossa sociedade | Áfricas - orgulho de ser!

  15. Pingback: Sexo, Idade e o Absurdo | Biscate Social ClubBiscate Social Club

  16. Muito interessante a entrevista,- l acompanhei com especial atenção aos comentários masculinos acerca do tema. Para enriquecer ainda mais a discussão, ficam algumas dicas de leitura:
    – O intolerável peso da feiúra: Sobre as mulheres w seus corpos. Ed. Garamond, 2006.
    – Com que corpo eu vou? Sociabilidades e usos do corpo nas mulheres das classes populares. Ed. Pallas, 2012.
    – Corpo pra que te quero? Usos, abusos, desusos. Ed. Appris, 2012.

  17. Pingback: Além do que se pode ver | Biscate Social Club

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *