Quem tem medo de Valesca Popozuda?

Por Daiany Dantas*, Biscate Convidada

É possível que hoje ninguém na música popular brasileira seja mais impactante que Valesca Popozuda. Deixando de lado juízos de gosto e valor, quais artistas encontramos por aí com tanta capacidade de provocar reações tão intensas, de revirar olhos e estômagos, desencadear balanços – físicos e mentais – sobre a nossa história cultural? Por trás de suas letras pulsam questões de classe e gênero que escancaram muitas das nossas desigualdades, de nossa pouca aceitação ao gosto das classes populares e ao protagonismo sexual das mulheres destas classes.

valesca

Valesca, com seu corpo biônico, sua mestiçagem loira e lentes de contato azuis é um corpo que propõe muitos trânsitos – da dança de fundo ao microfone e frente do palco, da periferia ao palco midiático, de uma realidade colonizada à colonização dos espaços públicos – é um retrato vivo de nossas ambiguidades e contradições, da nossa NÃO democracia racial, da NÃO igualdade de gênero. É tiro, porrada e bomba na calmaria da burguesia “de bem”, pois para falar ela não usa artifícios. Sua palavra é firme e seu desafinar é autêntico.

Décadas depois de Marta Suplicy ter sido perseguida pelas “Senhoras de Santana”, ela também reclama o direito das mulheres a serem donas do próprio clitóris e terem os orgasmos que quiserem, mas abre mão dos nomes científicos. Prefere os apelidos cotidianos de alcova, pois assim resignifica não só o corpo que ela reclama para si, mas a liberdade desses espaços tão cobiçados a partir do desejo – por isso buceta, cu, grelo, em suas letras, são todos piscantes e desejantes – e isto é, claro, inesperado. Um acinte, uma vergonha!

Sua maior vergonha exposta, no entanto, não é a bunda siliconada (uma entre tantas nessa pátria de paniquetes estáticas, tratadas como samambaias mudas ou marionetes em jogos de humilhação), é um corpo punido por pretender o direito ao prazer, é esse exercício performativo e político que faz de Valesca uma artista tão odiada por uns – e amada por outrxs. Ela é um corpo com voz, não é só mais uma bunda assujeitada? O que ela é, então?  – toda uma mentalidade Casa Grande e Senzala entrando em combustão.

Valesca evidencia os não-me-toques de uma classe média que ama ser retratada como branca e hidratada em seus apartamentos bem decorados e com vista pro mar do Leblon, mas não quer sentar à mesa e banquetear com quem desce do morro para beber vinho da mesma taça. Ela mostra a persistência e atualidade de nossa cultura política que rechaça tudo aquilo que propõe um deboche desde as classes subalternas – estas podem, sim, ser escrachadas, desde que sob o controle vigilante de mídias conservadores, onde funkeira é favelada, nordestina é empregada doméstica e negro é bandido. Valesca não é uma personagem de Zorra Total, sua zorra é outra, seu discurso é transparente, de quem escolhe os próprios termos e não precisa de consentimentos. É um discurso de sobrevivência cujo escudo é justamente não ter escudo algum. Ela quer o poder da buceta porque a buceta é dela. Quer gozar, quer dar, quer te dar. Não porque alguém pede, mas porque ELA quer.

E aí vem o maior pecado de Valeska. Colocar o desejo feminino na baila, claro, é pedir para ser linchada. Geni não sai de moda. Ainda mais uma Geni gritando de autoestima, que pede para xs inimigxs “latirem mais alto” que dali, do camarote, ela não xs escuta. Como ousa? Quer subir no palco? Quer gozar e ainda quer divar? Quem ela pensa que é?

Márcia Tiburi, na Edição 188 da Revista Cult diz que Valesca é uma “Robin Hood estética”. Mas ela vai além. É carnavalesca, antropofágica, deglute os castelos inacessíveis do luxo e os transforma em cenário kitsch – haja peles, mármore, coroas, tigres e dentes de sabre, e, assim, seu batidão funk desautoriza a herança aristocrática. Traz a riqueza à sua comunidade e a subverte naquilo que ela tem de mais caricata e reconhecível. Valesca irrita porque é ela quem está parodiando, escolhendo como ser “rycka”, pois os ricos são os engraçados. É ela quem está rindo. E daí a riqueza deixa de ser dos outros e se torna de qualquer, farta e comum. E isto, claro, desagrada. Quem disse que funkeira e “favelada” pode ostentar?

E Valesca é filosofia pura. É o hedonismo bacante e dionisíaco de Nietzsche, deixando os apolíneos ofuscados com sua capacidade de se envaidecer das próprias regras. É o corpo sem órgãos deleuziano, escorrendo das mãos de um projeto coletivo que o segrega, e problematizando o lugar que ocupa ao negar as jurisdições que o controlam, é a reinscrição performativa butleriana, em seus palavrões que clamam para si o desejo (tão negado) das mulheres… é grelo pulsante, é riqueza, é empoderamento, e, claro, sendo tudo isso, só podia ser muito PAVOR, né?

Mas ninguém precisa temer Valesca. Mesmo. Basta ficar calmx, “deixar de recalque” e se dispor a abrir mão de convicções sequer fundamentadas. Em vez de rechaçá-la sem sequer ouvir o que ela tem a dizer, apostando nessas tintas fortes que a emolduram toda vez que ela surge num flash da mídia de massas, podemos aprender com ela sobre quem somos – e quem podemos ser. Em vez de xingá-la, confirmando todos os padrões que ela faz tremer, podemos nos gratificar por viver num mundo onde Valesca existe para confundir público e privado e ser visível e notória em ambos.

E sobre os juízos de gosto… ocorre que minimizamos artistas em função de barreiras que dizem muito mais respeito aos nossos preconceitos políticos e culturais que a valor artístico (as pessoas se vangloriam de que não ouvem e não gostam, mas é Valesca quem é chamada de ignorante… Será?). Costuma-se nivelar os gostos como selo de qualidade e mérito humanístico a partir do lugar social de onde esses gostos emergem… Achamos que não gostamos, mas somos, na verdade, dominados pelas fronteiras que segregam centros e periferias. Se nos deixarmos ilhar, perderemos uma parte importante de nossa história e nossa realidade… E viveremos interditados em nosso conteúdo “autorizado” – geralmente porque produzido por gente branca, vestida, “limpinha” e, claro, a maioria homem. Então, vamos encarar ou ralar?

IMG_20140409_232626Daiany Dantas foi uma jornalista que amava o nariz de cera e é uma professora de Comunicação Social que adora o barulho das teclas. Feminista sem carteirinha. Iconoclasta apaixonada pelas imagens. Filósofa de sala de cinema. Poeta de guardanapo e humana do Pingo, Kiki, Hoshi e Tapioca.

 

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6 ideias sobre “Quem tem medo de Valesca Popozuda?

  1. Só se for ironia!
    Apesar de um texto bem escrito, e argumentos ”consideráveis”, não passa de uma baboseira sem tamanho.
    Sim, Valesca é uma mulher que todos devemos respeitar, e não tem porque ser ironizada do jeito que foi nesses ultimos dias. Mas vamos com calma, uma mulher que canta ”tô com o cu pegando fogo” ”um otário pra bancar” ”fiel é o caralho, você é a empregadinha, lava, passa, e cozinha, mas a pica dele é minha” não tem nada de filosófico. Essa comparação com Nietzsche, é absurda. Hedonista? Me poupe.
    Não se trata de gosto musical, se trata de conceitos de vida. Uma pessoa que tenha esse tipo de pensamento certamente não é uma pessoa de boa índole.
    Não precisamos exagerar tanto assim…
    Mas é um ótimo texto! rs

    • Olá, Ana. Antes, agradeço ao elogio feito à minha escrita, nem concordo tanto, mas fico contente. Sobre o conteúdo, bom, quando escrevi o texto entendi que ele poderia abrir alguns debates. E vejo isso como positivo. Acredito que você sabe que não se trata de uma ironia. Ao contrário. É uma provocação. Por isso os vocativos e as interrogações. Compreendo os seus questionamentos, mas para ser convencida de que ele se trata de uma “baboseira” apesar dos argumentos “consideráveis” eu precisaria entender conhecer melhor os argumentos contrários. Em respeito aos termos de diálogo que uma caixa de comentários oferece, me disponho a aprofundar (ainda que de forma resumida, já que algumas afirmações rendem, certamente, outros textos, que não preciso ser eu a escrever), algumas questões que você dimensiona.
      1º. O absurdo nietzscheano. Absurdo foi exatamente o que o filósofo ouviu de seus críticos quando publicou O Nascimento da Tragédia, problematizando o racionalismo socrático como algo que desconsiderava os nossos instintos carnais e separava mente e corpo. Ele rompe com toda a tradição ocidental em separar as capacidades humanas em dualidade (corpo X mente, natureza X cultura) a partir da oposição entre apolíneos e dionisíacos, mostrando que o deus bacante, seu aspecto carnavalesco e hedonista totalmente fundado numa cultura do corpo também era parte de nossa cultura. Que a arte está, sim, associada à experiência, não é algo que se constrói apenas nas redes de conhecimento (historicamente vedadas às mulheres, aos servos, aos estrangeiros, não considerados cidadãos nas comunidades gregas). O texto é muito superficial ao tratar dessa questão, sim, é apenas um artigo opinativo para circular na rede. Mas Valesca é tão absurda hoje, ao colocar o corpo, em suas formas cotidianas e abjetas, no território da arte quanto Nietzsche foi em seu tempo. Pensar sensualmente, com toda a expressão latejante de seu grelo, com o corpo inteiro e não só com a mente apartada dele é algo que atrai para ela grande partes de detratorxs do seu modo de expressar. Embora, Claro, Nietzsche tenha construído seu repertório crítico a partir de uma fundamentação teórica e ela não. Mas isso não deveria ser demérito. Ao contrário. Hoje vemos um investimento teórico grande em valorizar a crítica cultural feita pelas massas, de dentro, justamente de quem se expressa a partir de uma memória e vocabulário próprio de seu contexto. Isto é o que, por exemplo, o pensamento decolonial faz, ao levantar que a memória de populações iletradas ou de linguagem oral ou idiomas colonizados foi completamente varrida do mapa do pensamento pelas matrizes epistemológicas (brancas e patriarcais) dos totens acadêmicos. Já está na hora de revermos isso… Portanto, é sim, hedonismo. E não é uma comparação absurda. Ao não ser se desconsiderarmos o pensamento do próprio filósofo.
      2º. O periguete Power e suas questões com o feminismo. De fato, muitas das canções de Valesca trazem o embate santa X puta. Uma questão básica do feminismo é não aderir a essa dicotomia, imposta para estruturar o patriarcado e suas instituições; fundada na lógica que separa as mulheres públicas (putas, trabalhadoras liberais e qualquer uma que saia de casa e conviva no mundo público em meio aos homens) das privadas (donas de casa ou qualquer que tenha vínculos familiares com os homens, salvaguardando suas honras – filhas, irmãs, esposas). Ok, sabemos que é importante discutir que santas e putas são igualmente opressões engendradas pelo patriarcado e que a rivalidade entre mulheres só destitui as possibilidades de luta entre as mulheres e o sistema, enfraquecendo-as. Mas, entendendo que pessoas como Valesca ou Tati Quebra Barraco (sou feia, mas tou na moda) não começaram a construir suas ações culturais a partir de leituras feministas, mas reagindo ao que vivem. Entendo (eu, Daiany) que o feminismo burguês com formação universitária deveria ser mais reflexivo e menos combativo com as resistências possíveis dentro dessas estruturas onde surge o feminismo popular. Há certamente um preço que se paga e uma série de tecnologias punitivas que se instalam sobre as mulheres que tratam de diluir a fronteira entre o público e o privado. E as canções de Valesca surgem num contexto ainda mais problemático. São comunidades periféricas onde “a real” é outra, há toda uma distorção dos princípios democráticos pela legislação interna imposta pelo tráfico, onde as lutas cotidianas se resolvem nos limites daqueles muros e as resistências, não tomar as letras como elementos isolados de sua realidade, mas problematizar, sim todo o seu contexto, entendendo que certas ações são pensadas para dialogar dentro do cenário em que elas sobrevivem. E nessas comunidades ser a “outra” é uma questão punida com o linchamento crítico, a invisibilidade e o isolamento social, do qual participam as próprias mulheres ditas “de boa índole”. Aliás, acho também que devemos evitar o maniqueísmo do bem contra o mal nas análises, pois este também enaltece essa dicotomia machista santa X puta. Cabe lembrar que, assim como muitas outras autoras, compositoras e escritoras já o fizeram anteriormente, o contato com a filosofia feminista vem mudando bastante o pensamento da funkeira, basta ver a entrevista que ela concedeu à revista Época, na qual menciona que homem na relação é o responsável imediato pelas infidelidades (não a “outra”) e estas deveriam ser cobradas deles, não resolvidas entre as mulheres como se este fosse um suposto troféu.
      3º. Quanto à “tou com o cu pegando fogo”: quem nunca? Questão bastante democrática, aliás, já que todo mundo tem, homens e mulheres.
      De resto, obrigada pelo comentário.

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