Você, o Médico ou o Estado?

Por Renata Côrrea, Biscate Convidada

Texto 1: Em trabalho de parto, levada por policiais armados e obrigada a fazer uma cesariana que não queria: não é mentira. Aconteceu em Torres, RS

Texto 2: Justiça retira mãe em trabalho de parto de casa para obrigá-la a fazer uma cesariana

Texto 3Um corpo que não é seu – Repúdio contra a violência sofrida por Adelir Carmen Lemos de Góes

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Para quem está achando justificável ou ok dez policiais arrastarem uma gestante pra fora de casa em trabalho de parto: eu não vou entrar em indicações necessárias e desnecessárias de cesárea. Mas eu vou falar de ética profissional. E de direitos sexuais e reprodutivos das mulheres. Se a médica ou a juíza tivessem seguido os princípios da bioética, jamais teriam mandado dez policiais armados na casa de uma gestante em trabalho de parto. É ético o mandato só ter sido expedido com tanta rapidez pois a médica era amiga da juíza?

Politicamente o que aconteceu foi um caso de punitivismo. Uma mulher decidiu a respeito do seu proprio corpo e foi punida por isso. É impossível não perceber o paralelo entre as violências sexuais sofridas por mulheres todos os dias. Acabou de sair uma pesquisa do ipea onde dizem que mulher com roupa curta merece ser abusada. O que é isso além de punitivismo?

Juridicamente é um precedente perigosíssimo você tirar uma cidadã da sua casa, uma cidadã que assinou um termo de responsabilidade, uma cidadã que estava acompanhada, que tinha feito pre natal e mais do que isso uma cidadã que DECIDIU não seguir uma orientação que não coadunava com suas crenças e conhecimento. Então agora se uma testemunha de jeová não quiser receber transfusão de sangue um médico pode obrigar? Então se vocês decidirem se tratar com homeopatia (é placebo, não vai curar!), comer doce (dá diabetes!), fumar (câncer!) numa balada, beber (dá cirrose e vai que você resolve pegar o carro?), usar decote (as pessoas acham que roupa provocante te coloca em risco se violência) o Estado vai ter o direito de colocar a polícia na porta de vocês? Afinal são atitudes que podem colocar a vida de vocês em risco. Ué? Mas quem decide o que acontece com o seu corpo? Vocês, o médico ou o Estado?

Aliás o bebê não estava sentado. Isso foi só a justificativa da médica. O bebê estava cefálico. Mas isso não importa. Esse bebê podia estar de lado, podia ser o bebê de rosemary, podia ter feito mecônio 12 cruzes. Não importa. Importa que o que uma mulher decidiu a respeito do seu corpo foi desrespeitado pelo Estado. Sabe que sistema político violava os corpos das pessoas com justificativas institucionais? Dou uma chance.

A ditadura acabou. Mas não para as mulheres. Acabou 50 anos atrás. E ainda vivemos em estado de exceção. Temos direitos humanos. Exceto quando usamos roupas curtas, estamos grávidas, somos biscates, etc etc. Quase humanas.

renata corrêaRenata Corrêa é uma tijucana exilada em São Paulo, fotógrafa sem câmera, desenhista desistente, roterista praticante e feminista. Já fez livro pela internet, casou pela internet, fez amigos pela internet, compras pela internet, mas agora tá preferindo viver um pouquinho mais offline. Saiba mais dela no seu blog ou no seu tuíter @letrapreta.

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4 ideias sobre “Você, o Médico ou o Estado?

  1. No caso das Testemunhas de Jeová, ocorre o mesmo, de juízes que obrigam através de médicos. Mesmo tendo documentos que isentam os médicos e que procuram tratamentos alternativos. Infelizmente a cultura brasileira não aceita algo que foge aos padrões, tanto que toda discriminação no Brasil vem disso. Alguém foge de um padrão aceito, ela é punida severamente. No caso da grávida, dos gays, dos negros, das Testemunhas de Jeová e qualquer outro que fugir dos padrões.

  2. No caso das Testemunhas de Jeová o Estado interfere somente em caso de menores: se os pais não autorizam uma transfusão de sangue por exemplo, uma assistente social solicita a retirada provisória da guarda da criança que passa ao Estado. Após os procedimentos, a guarda é devolvida aos pais. Mas nesse caso, estamos falando de crianças nascidas.
    No caso da gestante, simplesmente não há justificativa: ela foi tratada como mera chocadeira como são, aliás, todas as mulheres no Brasil.
    Um episódio triste e lamentável.
    (pequena correção: a ditadura não terminou há 50 anos. Ela começou há 50 anos atrás e durou 21.)

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