Abrir o olhar

Les Demoiselles d’Avignon. Picasso. <3

Abrir o olhar, era disso que falávamos. E de que continuei falando. Abrir o olhar. Dar-se conta de que beleza, feiúra, são conceitos construídos. Dar-se conta é o primeiro passo. Livrar-se dos padrões que não são nossos, voltar àquela fase, bebê, em que a gente não sabia ainda que existiam padrões e se encantava diferente: com cores, com texturas — uma pele macia, um colo confortável e aconchegante, morninho, um sorriso aberto, uns brilhos –, com jeitos, se encantava diferente e verdadeiramente, se encantava do nosso jeito. Antes. Antes de ouvir dizer que tal ou qual é bonito, que tal ou qual é feio. Antes de entender isso, de acreditar talvez. De incorporar no olhar.

Nu Descendant L’Escalier. Duchamp

Tem uns sofrimentos que percebo virem daí. E agora não estou falando de aceitação de nosso próprio jeito, de nosso próprio corpo (embora sempre também): estou falando do outro. Da aceitação do outro. De fulano que gosta de sicrana, gosta mesmo (e eu não ponho isso nem um segundo em dúvida), mas tem vergonha de apresentá-la aos amigos e conhecidos: fulana é “fora do padrão”. Do padrão de quem? Não dele, claro, que dela gosta; do padrão dos outros, daquela camisa-de-força que impingem a todo mundo que é o que se considera “a beleza certa”, e seu anverso, a não-beleza. Já ouvi histórias assim, de um fulano que saía com sicrana, que trepava com sicrana  (trepava: o desejo fazia-se presente, não é mesmo? desejo, essa prova dos nove), mas não saía em público. E a dor envolvida. E a aceitação por parte de sicrana. Que também acolho, que também acredito que faz parte. Ela, com ele, sentia-se bem. E aceita. Embora quisesse mais, sentisse falta da exposição, da “saída do armário”. Ele digladiava-se com seus próprios preconceitos, com sua própria necessidade de aceitação por parte dos pares. Ela-espelho. Ela-consciência. Ele-dogmas. Ele-insegurança. Ele-dificuldade.

Mulher tuaregue.

Tenho vontade de botar os dois no colo. De dizer “pronto, passou” e soprar o dodói. O dodói que é dos dois, que veio na forma do xarope amargo e intenso das normas e regras da estética social. Essa mesma que gera aquilo que chamo de “corpo-troféu”. O conquistado, através de muitas dores e dificuldades (o que aumenta, inclusive, seu valor): e pode ser exibido em capa de revista. O corpo domado para entrar nos padrões. Tem aquelas pessoas que, por circunstâncias meio genéticas, meio de criação, enquadram-se sem nenhum esforço nesses padrões: será a vida fácil para essas? Esse texto da Adriana Torres fala disso com muita propriedade, acho. Nem assim.

As possibilidades de agora, do século XXI, tecnologia, abundância de informações e de acessos, poderiam ser usadas para isso: para, a partir da ampliação do olhar, quebrar preconceitos, eliminar pré-julgamentos, acabar com padrões estéticos. Olho pra dentro, e tento buscar alguma vantagem nesses padrões: não encontro nenhuma, sinceramente. Só desvantagens. Só aprisionamentos. Só dores construídas. Só desencontros e impossibilidades.

E no entanto, nosso sistema de padronização acachapante parece fazer justo o inverso: a partir de certos centros muito bem estruturados de poder, disseminam caixinhas estreitas e exigem que todo mundo nelas se esprema. Leitos de Procusto. Pra caber, há que se cortar pés, há que se esticar pernas. Há que se alisar cabelos, que se perder quilos, que se afinar narizes, apagar rugas, definir abdômen, pernas, glúteos. Duro leito de Procusto onde tão poucos cabem por obra e graça da natureza, que tem mais o que fazer do que cuidar de leitos alheios.

Abrir o olhar, dizia eu. Alargar. Mudar a postura. Não precisa mexer nada, não precisa nem sair do lugar. É uma mudança bem interna, uma decisão de não deixarem dizer, de fora, o que é feio, o que é belo.
A pergunta, acho, é: o que te emociona?
A resposta, suspeito, é algo como: ainda não sei, mas quem sabe…? 😉

E isso é um convite.
(caso não tenha ficado claro.)

P.S.
Só depois de ter escrito o post é que vi essa história, uma história que fala tão bem disso de que tentei falar aqui. Veredas possíveis. Novos olhares.

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6 ideias sobre “Abrir o olhar

  1. Como eu disse, já prevendo, ler um texto seu é como saborear um bom vinho: a gente vai bebendo aos poucos, de repente dá uma golada, fica envergonhada com o excesso, volta, saboreia na boca mais um pouco…

    Enfim, lindo. Fodástico. Pra ficar pensando dias. Nesse olhar. =)

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