Ainda corpo: a necessária desnaturalização de padrões estéticos

Renoir. Outros padrões.

Escrevi, junto com a Lu Nepomuceno, um post-entrevista conjunta sobre corpo, sobre percepções e padrões, que tá aqui. E a repercussão deste, junto com minhas próprias inquietações, me fazem voltar ao tema hoje – acho, aliás, que esse tema merecia uma série dele, a galera toda do Biscate escrevendo sobre corpo, contando histórias, desmontando preconceitos. Seria lindo, acho que dava muito pé. Mão. Peito. Bunda. Enfim. Dava. A gente já é dada mesmo…

Voltando: o que mais me impressiona, e isso não é de hoje, é a naturalização dos padrões. A substituição do “eu acho bonito” por “é bonito”. Me lembro de uma conversa muito antiga, de quando eu era adolescente, em que eu dizia que achava determinado cantor negro bonito. E minha interlocutora dizia “você não pode achar isso, ele tem nariz chato, ele tem cabelo pixaim…”

Cabelo pixaim. Nariz chato. Pronto. A pessoa não pode mais ser bonita, com essas características. Como se houvesse alguma ordem prévia que ditasse as regras de beleza, em que entrariam “nariz afilado” (que é um pernambuquês para “nariz fino”) e “cabelos lisos”. Agora, mais recentemente, alguns episódios me trouxeram essa conversa à memória.

O primeiro foi o da jornalista que disse que as médicas cubanas tinham “cara de empregada doméstica”. Como se as pessoas nascessem com “cara de médica” ou “cara de empregada doméstica”. Certamente ela não foi a única a pensar isso: afinal, no Brasil das desigualdades enormes e  persistentes, a incidência de gente loira (não é “branca”, atenção: é loira mesmo) entre os médicos que protestavam contra a vinda dos médicos cubanos (aqui, um exemplo) deveria causar vergonha a todos os brasileiros, pelo que isso demonstra sobre o fracasso do país que dizia que ia pra frente (uôuôuôuôuô). Isso, é claro, cria naturalizações. Mas essa jornalista não só pensou: ela pensou e escreveu em rede social, como se fosse uma “gracinha”. O que assusta tanto.

Uma vez, uma amiga querida – negra – me disse: “Renata, o racismo é sempre estético em primeiro lugar”. Nunca esqueci. Porque é mesmo, né. Não é sobre “alma”: é sobre pele. Sobre nariz. Sobre cabelos. Sobre corpo. Sobre o que se chama de belo, o que se chama de feio. E aí, puxando o fio da meada, a gente chega no outro episódio que eu queria destacar aqui: a eleição de Lupita Nyong’o pela revista americana People como a mulher mais bonita do mundo.

(pausa para Lupita. respiro.)

Pareceu-me uma eleição absolutamente razoável,  por qualquer critério que se use (isso, evidentemente, aceitando que eleger “a mulher mais bonita do mundo” seja razoável; mas aí já é outro assunto.). Jogando com “as peças do inimigo”, ela foi escolhida, no começo do ano. E foi um frisson no mundo. Por aqui, ouviram-se muitas vozes protestando. Não vou reproduzir essas falas, mas o tom era basicamente o mesmo do da jornalista. Como pode uma pessoa com “cara de empregada” (racismo e classismo andam juntos como gêmeos univitelinos) ser a mulher mais bonita do mundo? Para uma revista americana, ainda mais? Por trás disso, tem, certamente, a idéia de que cabelo liso, loiro, olhos azuis, são, por necessidade, “mais bonitos.” Naturalmente. Por desígnio divino. “É” assim.

Nada melhor para esse tipo de idéia do que viajar. Não precisa nem ser pra outro país: a gente tem vários num só, aqui. Amazônia. Sul. Nordeste. Tantas caras. Tantas misturas. Altos e baixos. Cores variadas. Rostos árabes, rostos negros, rostos rosas, rostos morenos. Traços indígenas. Asiáticos. Temos gentes de todos os jeitos. Alargar o olhar. Aprender e apreender belezas, como diz a Lu na nossa conversa já mencionada, assim:

“O que eu quero dizer é que eu procuro exercitar um olhar generoso. Um jeito generoso de ver os outros, procurar suas belezas.”

Dar-se conta de que o que você chama de bonito (você, eu, qualquer um) tem a ver com o que disseram a você na infância que era bonito. E seu reverso: o que disseram que era feio. Explicitamente ou insidiosamente, sub-repticiamente. Jeitos de olhar, de tratar, de falar a respeito. Isso deixa marcas de que a gente nem se dá conta. Até ser jogado em lugares onde os padrões são diversos. Aí é jogo de rebobinar a fita (ok, não se rebobina mais fita, mas cês entenderam), começar de novo, do zero. Começar de novo? Olhar de novo, procurando belezuras. Que las hay. Sempre. Entender as belezuras que os outros acham. E quanto mais a gente andar nesse caminho, que é um caminho que se escolhe andar, mais a gente vai se dar conta de que “beleza” é algo que se cultiva no olhar. No perceber. “Beleza” é desconstrução de padrões. É desmonte de regras. Beleza pode deixar de ser prisão. Se a gente deixar acontecer. Se a gente escolher.

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8 ideias sobre “Ainda corpo: a necessária desnaturalização de padrões estéticos

  1. E é todo dia olhar pro espelho e lutar contras vozes que dizem q cabelo branco é feio, que ruga tem que ser disfarçada, que tem que emagrecer, que tem que fazer “tratamento estético”, aff, saiiii, sou bonita, me deixa =)
    Beijos, lindona!

  2. Procurar belezura é o melhor jogo, porque tal qual naquele outro, o do contente, a gente se acostuma – e se acostumando vai rearranjando o de-dentro e tendo mais generosidade consigo mesma.

    • verdade. essa a minha aposta, que isso é aprendido e pode ser modificado e elastecido, ampliado. até, quem sabe, a gente não precisar mais dessa muleta pra se sentir bem e pra se gostar – e gostar do outro.

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