Entre Braga e Nova York: Variações de um queer português

Por Mayra Resende*, Biscate Convidada

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A primeira vez que ouvi António Variações me veio careta e risada. Perguntei: isso é sério? Ele fez sucesso? E aí, como tudo o que me vem causando estranheza ultimamente, resolvi deixar a curiosidade conduzir uma descoberta incrível. Variações talvez pudesse ser definido como uma mistura de Amália, a fadista-diva (para ele, diva-fadista), com a performatividade autêntica de quem não se abate pelo olhar moralista, e uma boa pitada de espírito Faça Você Mesmo porque, se for pra esperar, morro sem mostrar pra esse país o que preciso expressar. A melhor definição, entretanto, é a de si mesmo: dizia que era qualquer coisa entre Braga, cidade de origem, e Nova York, metrópole cosmopolita de espírito variante, tal como o nome artístico que levava.

Um oceano inteiro de distância entre a aldeia que nasceu no norte de Portugal o a metrópole-selva-de-pedra estadunidense dá uma ideia das rupturas que teve ao longo dos seus 39 anos vividos. Cresceu em meio ao trabalho da terra, ouvindo o pai tocar cavaquinho e acordeon, atiçando os ouvidos de menino que se encantava pelas romarias e expressões folclóricas. Mudou para Lisboa aos doze anos, seguiu como militar para Angola e de lá soltou-se pelo outro velho mundo de Londres e Amsterdã, retornando para Lisboa  onde trabalhou como cabeleireiro no primeiro salão unissex de Portugal. Foi ali que escolheu o Variações incorporado como pseudônimo daquela persona cujo nome “sugere elasticidade, liberdade”. Se definia como uma pessoa que não se limitaria em um estilo nem para o que cantava, muito menos para o que seria (mais informações biográficas aqui)

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Nessa profusão de experiências, imagina só: Portugal, mais de 40 anos de Ditadura chega ao fim em meio a cravos e esperança, espectro conservador ainda pairando no ar. E aí surge um cabeleireiro, munido de tesoura e uma K7 caseira, apaixonado pelo fado e cantando amores queer. O tempo de dois discos, a primeira morte de um lusitano famoso em decorrência de complicações pelo HIV.

 “Canção do Engate”, lançada dez anos depois do 25 de abril que oficialmente coloca fim na Ditadura de Salazar, fala de amor como há muito não lia. Expressa, pela canção, a tensão do amor entre dois homens, em meio à aventura dos sentidos:

 Canção do Engate (1984)

Tu estas livre e eu estou livre
E há uma noite para passar
Porque não vamos unidos
Porque não vamos ficar
Na aventura dos sentidos

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Dois anos antes do lançamento de Canção do Engate, a homossexualidade em Portugal ainda era considerada crime. Variações não rompe somente com a estética moralista por meio das roupas e cores que se apresentava para seu mundo, mas também com o espectro opressor do passado em que cresceu. Expressa seu desejo sexual em meio a uma democracia ainda nascente, tematizando as tensões entre amor e sexo, ao falar dos encontros descompromissados, mas intensos em duração:

Vem que o amor
Não é o tempo
Nem é o tempo
Que o faz
Vem que o amor
É o momento
Em que eu me dou
Em que te das

“Eu nasci no tempo errado”, dizia. Com a urgência que pulsa de dentro, talvez o tempo errado de Variações tenha sido o tempo certo para mostrar o quão atrasado aquele tempo estava. A canção rock e pop portuguesa não foi mais a mesma. E nem sou eu quem digo. O legado de três anos de carreira e dois discos ainda gera lindas releituras e inspirações. Um português, como lá dizem, com canções a não perder!

Uma versão de Tiago Bettencourt para Canção de Engate:

 

De pijaminha e ursinho na TV:

Texto inspirador (agradecimento pela indicação à amiga conterrânea de Variações, Catia Ferreira): Queer Interventions in Amália Rodrigues and António Variações.

523512_740147959334223_1070089815_nDiz, sobre si, Mayra Resende: Se onde nasci ajuda a me definir: sou do planalto central, Brasília céu no horizonte, pôr-do-sol toca o chão. Se o que estudo ajuda a me definir: sou socióloga de formação, mas a paixão mesmo é por cultura – oral, escrita, desenhada, cantada, tradicional, quente, fria, seca, crua. E um certo encanto pelo que não entendo e não uso, mas acho lindo, tipo, mapas.

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2 ideias sobre “Entre Braga e Nova York: Variações de um queer português

  1. Moro em Portugal há mais de 10 anos, e desde que escutei as músicas de Antonio Variações me apaixonei por elas, gostaria de ouvir Ney Matogrosso cantando elas, pois acho que seria perfeito na voz dele. As músicas dele que gosto mais são: ESTOU ALÉM E ANJINHO DA GUARDA. A música Estou Além reflete a nossa adolescência quando não sabemos quem somos e o que queremos.

  2. Olá, Roji! O Variações é mesmo uma linda descoberta. 🙂 Com a última ida de Ney praí achei que alguém fosse jogar essa ideia pra ele. Ficaria sensacional! Acho que “O corpo é que paga” também encaixaria bem na proposta dele. Vamos ficar na torcida de que a descoberta também o encante!

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