Estamos em reforma

Há cerca de um ano e meio, talvez influenciada pela Elis que cantava a tal da casa no campo, me mudei dum quitinete naquela avenida movimentada do bairro universitário e embrenhei-me no verde.  Ao invés de viver a paz e o bucolismo prometidos musicalmente, foi desde então que passei a andar com uma placa de “estamos em reforma” pendurada no pescoço.

Pedreiros, tijolos, cimento, barulho, arrastar móveis, crises de stress, dor de coluna, tem sido uma constante, mas também as novidades e descobertas diárias desse “sentir-se em casa” diferente do antes.

Como tenho pouco dinheiro, o lugar que já foi um ateliê de tijolinho aparente e que nem banheiro tinha, tem se transformado num lar muito de pouquinho em pouquinho, com a ajuda quinzenal e nem sempre competente, mas confortadora e falante de Aldenir, o pedreiro.

Poético, né?

É.

Ou era.

Até dia desses, em que o inverno começou a dar o ar de sua graça e a chuva infiltrou-se em cascatas pela janela nova da cozinha e aranhas caranguejeiras e armadeiras passaram a me lembrar constantemente que eu “não estava mais no Texas, Totó”.

Doze palavrões, uma garrafa e meia de vinho, mil arrependimentos suspirados de saudade da “civilização” depois  foi quando intensifiquei o pensar acerca dum “habitar” biscate.  Será que “isso” existe?

Enfim, lembrei que independente de onde e quando gosto de decoração, curto organizar os detalhes e planejar confortos coloridos, mas diferente dos apartamentos impecáveis das revistas que tratam do tema, sei que meus espaços sempre estiveram longe da perfeição. Ainda bem. Ainda bem?

Fui dormir bêbada, um pouco mais apaziguada e sonhei com uma promoção sensacional de telhas e madeiramento.

Acordei de ressaca, dei um “jeitinho” na janela com a cortina do box, fui trabalhar e na volta comprei flores para plantar no vaso terracota. Não consigo imaginar o que alguma outra biscate, depois de um stress qualquer, resolvesse fazer… se arrumar para alguma balada?

Mas sei que desejo a nós duas é que  tenhamos ambas “festas” sensacionais. Andando descalças no jardim ou circulando de salto alto em algum piso espelhado.

Pois é, o fato é que acredito que uma casa, assim como nossas vidas, nunca está pronta.  Mas podemos dar um tempo, curtir o que já foi feito e esperar que o temporal diminua. Também podemos arrumar as malas, visitar outras paisagens, transitar entre as possibilidades, com a certeza de que há um logo ali para onde voltar.

E que só para alguns isso é “bom”…  para mim pelo menos tem sido.

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