Sem palavras

 

Mulher vento ventania vendaval

 

Sem palavras, para recordar. Porque hoje me deu saudades, saudades dela: Kiara Terra, minha amiga, minha irmã, minha querida que voa comigo pelas tantas incógnitas e sentimentos que nos assolam. Com quem partilho perguntas, belezas, poesias, dores, e os mais diversos percursos de dentro e fora de mim. Com quem tento arrumar o inarrumável. Com quem não sei de nada, com quem rio de mim mesma horas a fio, com quem reinvento-me despida de certezas. E com quem, vez em quando, escrevo palavras e desenho silêncios para abraçar o pensamento e dançar a vida.

Então, deixo aqui algumas de nossas danças. Daquelas que a gente se solta, e rebola, e busca  mais caminhos para o amor e para dar vazão ao pulso que vem de dentro.

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Se a vida toda coubesse em palavras eu escreveria. Sem preguiça cada letra. Frases inteiras, sentenças feitas, espaços vazios preservados. Nelas o intervalo entre nossos olhos. Se coubesse, se fosse o suficiente, eu teria feito. Mas não. A vida escapou-me do controle. A dança enlaçou-me a cintura, fluindo em seu ritmo intenso, requebrando e levando-me para além de mim.
Um sol bonito ensurdeceu meus ouvidos, e encharcou minhas mãos. Tomou pra si minha boca e meu pensamento e, ao invés de escrever, eu vivi. Sem vírgula, cada momento. Vida enchente, vida humana do aqui-e-agora. Vida corredeira, que me surpreende a cada passo em que não penso, e não escrevo. Em que simplesmente sinto, com todos os sentidos despertos para o que corre em sangue e vísceras, em realidades que me escapam às palavras. A vida me ocupa de viver.
Aconteceu e não me lembro quando. Um arrebate sem tempo. Um vento que me levou sem que eu pudesse entender o que me levava. Foi então que eu senti, com o peito aquecido pela luz: sem tocar o chão não há como escrever. Sem pisar a terra não há como fazer poesia tangível. No voo palavra é vento transpassando a pele. No chão palavra é vida possível. Vento sem frio. Mergulho acolhido e quente.
Amor não pode rimar com guerra, pois amor é sorte. Amor não pode ser reticência em espera sem solo. Depois de tocar a pele presente do outro, não há retrocesso possível. Depois de acessar o caminho secreto, viver é flor que desabrocha sem tempo. É perfume que adoça a alma e aumenta a fome. E eu tenho fome de vermelho. Vivo e vivido em desejos de ondas de mar.
Eu rio a brincadeira bonita. Rio da sorte de querer viver. Secretamente antes, agora num declarar de janelas. Agora em vida de correr descalço, sentindo cada folha verde. O tempo das esperas havia terminado. Agora é deslize de apenas ser, nua, sem subterfúgios poéticos de algum dia. Joguei fora minhas réguas que nunca soube usar direito. Sempre foram pequenas para os meus desmedidos.
Estiquei palavra pra cobrir javali. Dobrei lavei e quarei ao sol, e nenhuma frase podia salvar-me de mim. Era nado em direção à correnteza mais forte de estar viva. Estava diante do salto. Cachoeira colossal. Saltei. Corpo na correnteza. O tempo lavou meus cadernos, molhou cada folha, desperdiçou os dias ainda não vividos e li: vá correr  sem medo.
Você nasceu agora, aqui de dentro de mim, e diante disso tudo tem música e sol.
Kiara Terra e Silvia Badim

Kiara Terra e Silvia Badim

 

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