Sete de Mãe, digo, de Maio

“Filhos, há que se ter essa coragem:
ir e deixá-los, deixá-los ir.” (Renata Lins)

Domingo é o dia das mães. Eu sou mãe. Uma mãe biscate. Laralilá. Adoro comemorações. Sou festeira. O que eu não sou é uma boa mãe. Nem má. Sou, apenas. Acho importante desmistificar isso que ser mãe é padecer no paraíso. É nada. Tem um monte de coisas boas e um monte de coisas péssimas. E uma porção de coisas que normalmente são boas mas que naquela hora são péssimas e uma porção de coisas que são péssimas mas, em alguns momentos, ficam até boas.

calvin

Minha mãe é exatamente assim, como na tirinha. Dava jeito em tudo (em certos dias em que preciso de colo, ela ainda dá). O jeito que minha mãe dava sempre parece melhor que o jeito que eu dou (em uma análise feita por mim mesma se eu fosse minha filha). Já pro Samuel, o jeito que eu dou parece ótimo. Ah, os pontos de vista!

O certo, certo mesmo, é que eu só sou a mãe que eu sou, isso significando o que quer que signifique, por causa do Almir, o pai. O Almir fez possível uma maternidade mais tranquila e alegre. Ele estava sempre lá. Ele está sempre aqui. O Samuel, hoje, mora com ele. É ele quem cuida das coisinhas que a nossa sociedade, com seu apego aos papéis, credita às mulheres. Ele que olha se as unhas estão curtas, as tarefas feitas e a saúde em ordem. Sou muito grata por tê-lo como companheiro nos cuidados com o Samuel. Se eu sou a mãe que sou, com defeitos e acertos, é muito por sabê-lo aqui, perto, disponível e pronto pra tocar o barco. E, mais, só sou a mãe que sou pela incrível e amorosa rede de familiares e amigos. Suas dicas, sua disponibilidade, seus exemplos, suas perguntas, suas aporrinhações. Tudo que me fez tentar, pensar, mudar.

Ser mãe não é a coisa mais importante que sou. Nem a menor delas. Sou eu, como tantas outras coisas que sou. Não sou a “Mãe”. A cada dia vou dando ao termo “mãe” mais a minha cara, o meu jeito, o meu ritmo. Por outro lado, o exercício da maternidade vai me constituindo e caracterizando. Não vem primeiro o ovo nem a galinha, mas um omelete de frango, acho.

O certo é que tem memórias que, quando o peito dói, servem de bússola e alento. Como o dia em que fui, a pé, da Universidade ao escritório, tomando banho de chuva, barriga de sete meses, enorme, a sensação de prazer e liberdade. Ou amamentar. Amamentar pode ser complicado, pra muita gente é. Pra mim foi alegria e prazer desde a primeira vez (tenho vídeo provando, mas acho que ele não seria aprovado pela censura, o outro seio fica lá, exposto e descarado). Ou colocar o filhote pra dormir na rede. Ai, poucas coisas são tão gostosas na minha memória como aquele peso no peito, o cheirinho cativante e a respiração pausada. Às vezes que ele fica doente (eu sei, sou terrível) e procura a minha mão. Mesmo grande, 16 anos e quase 2 metros, quando ele tem febre e quer ficar aconchegado, meu coração dá saltos. Nenhuma dessas coisas é natural. Não vem no automático. São construções. O amor não é um dado. É um processo e o filho sempre, sempre, permanece um Outro, acho eu. Estranho, invasor, conquistador. Bárbaro, em todos os sentidos do termo. Quase sempre como a gíria.

mafalda - mae

Comecei dizendo: domingo é dia das mães e eu sou mãe. Equívoco, claro. deveria ser: “domingo é dia das mães e eu sou mãe do Samuel”. Ser mãe não é uma categoria abstrata a qual nos enquadramos. É uma experiência concreta que vai sendo o que que vou sendo e vai me tornando quem sou. Não sou Mãe. Sou a mãe desse moço aí, meio menino, meio rapaz, quase homem. Outro. Admirável, interessante, divertido, enraivado, carinhoso, impertinente. Ele. Eu. Nós.

samu3

E hoje, pra terminar a conversa, hoje é sete de mim, digo, de maio. Já faz dezessete anos que você, Samuel, está por aí, por aqui, em mim. Já faz dezessete anos que você me surpreende, alegra, tira o ar, preocupa, enerva, confunde, enternece, dezessete anos que me comove. Dezessete anos e eu ainda sei tão pouco sobre você, sobre nós, sobre ser quem eu deveria ser com você ou pra você. Não sei estar, talvez, onde você quer. Mas estou onde você precisa, espero. Estou aqui pra você. Te amo. E tenho um orgulho danado de fazer parte dessa história que é sua, que é você. Parabéns, eu digo, por ser assim como é: em construção.

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