Amar é Dar

Tem a Tulipa. E aquela música que todo mundo gosta, inclusive eu. “Só sei dançar com você, isso é o que o amor faz”. Tão tentador, não é, poder acreditar que o amor é esse moldador de peças de quebra-cabeça que nos faz achar um encaixe perfeito, que o amor garante exclusividade, que o amor é sintonia. Só que. Pelo menos não do lado de cá do abismo. Daqui, “amar é dar o que não se tem a alguém que não o quer”. Tem o amante, ouiés. O amante é aquele que sente que algo lhe falta. Não sabemos o que é, mas é claro, olha só, deve estar nessx moçx faceirx de olhos cor de âmbar (ou complete aqui conforme seu desejo). E amamos. Amamos isso que supomos estar no outro e que preencheria o que nos falta. A tampa da panela. A metade da laranja. O parceiro perfeito da dança. Daí, tem o amado. Opa, me escolheram, essx daí deve saber o que eu tenho pra dar. Eu não sei o que é, mas que importa, se elx me quer, elx viu em mim isso. Belezinha, né? Só que o amado também é ser de falta. Também ele espera a tal completude. O que ele tem a dar ao amante é: nada. Ou ainda: sua própria falta. Seu buraco. Seu oco. O amor preserva, justamente, o lugar da falta. O amante precisa que o amado seja também amante. Amar é querer ser amado. É além: é querer ser amado do jeito que queremos que o amor seja.

"o sono compartilhado é o corpo de delito do amor"

“o sono compartilhado é o corpo de delito do amor”

E aí eu lembrei uma outra dança. Da Teresa com o amigo do Tomas (n’ A Insustentável Leveza do Ser). Tomas a quem ela ama com essa fome que a devasta (e não há metáfora melhor para o amor, acho eu, porque a fome só finda definitivamente quando finda o sujeito. No por enquanto, a saciamos transitoriamente. Amar é bem assim, de vez em quando parece que. Mas, a seguir, queremos mais). Dizia eu, Teresa dança com o amigo de Tomas. Porque, repare bem, ele, Tomas, não gostava de dançar. E aí Tomas fica ali, mastigando ciúme, observando como eles – Teresa e seu amigo inominado (e não ter um nome não deve ser por acaso, né, Kundera, seu lindo) – dançam bem juntos. “Ele estava estupefato de ver com que precisão e docilidade ela se adiantava uma fração de segundo à vontade de seu parceiro. Essa dança parecia proclamar que sua dedicação, esse ardente desejo de satisfazer o que lia nos olhos de Tomas, não estava necessariamente ligado à pessoa de Tomas, mas que estava pronta a responder ao apelo de qualquer que fosse o homem que encontrasse em seu lugar”. É claro que o ciúme de Tomas inibe que ele reconheça que não é qualquer homem em seu lugar, mas ele ou qualquer homem que ocupassem esse lugar: de alguém que tem algo que ela supõe que a complete. Que a faria feliz. Plena. Futuro do pretérito. Ou ainda. Pretérito mais que perfeito, se não ligarmos à gramática.  Tomas desconhece que o amar não é acaso, é repetição. Tem aquele traço único que buscamos e que supomos em quem amamos. É esse traço, que desconhecemos mas reconhecemos, que faz a amarração. Ponto de estofo. Teresa ama Tomas, um tanto, porque supõe que ele sabe alguma coisa sobre ela que ela mesma desconhece. O amor é uma pergunta. Um desassossego. Amando, buscamos o apaziguamento da hiância*, mas, rá, só podemos fazê-lo reconhecendo que ela existe: a distância. O vazio. O desamparo. Quando enunciamos eu te amo como se fosse eu preciso. Eu preciso que você precise. É aí, na vulnerabilidade – e na aceitação da vulnerabilidade do outro – que o desencontro – marca das relações humanas – nos permite ser – na falta de palavra melhor – felizes (e o pra sempre, sempre acaba).

 * Hiância é tipo um não-lugar. É como o vazio que tem entre os parênteses ou aquele símbolo do vazio na matemática. É um nada margeado, relativizado, definido por ser bordeado, porque é um nada que só (in)existe a partir de um alguma coisa que existe. Porque como somos seres de linguagem o vazio absoluto é impossível de dizer (como, ademais, qualquer coisa do real), quando nomeamos: nada, aí existe algo, a nomeação pelo menos, né. Ou resumindo: o que é fendido, lacuna.

Ou leiam esse texto sensacional que a Renata Lins já tinha sugerido, Verbete: Amor

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8 ideias sobre “Amar é Dar

  1. Beibe, tão lindo e tão preciso o texto. Necessidades. Os vazios devem, acho, ser apontados, mostrados, assinalados, marcados com caneta colorida e fosforescente. Pra gente não confundir. Não achar que ‘querer pra si’ é igual a ‘amar mais’. Que não é, que não é mesmo. Perguntar-se, sempre e todo dia, o que será que você gosta em mim, o que será que ele gosta em mim, o que será que eu gosto do que ele ou ela gosta em mim. Não pra ficar neurótico: pra, paradoxalmente, relaxar. Não confundir o coração batendo, o suor frio, o aperto na boca do estômago com intensidade do sentimento. Como diz aquele meme lá, isso é outra coisa.
    E não esquecer, nunca, que tem gente que ama contido: que ama quieto, que ama calado. Que ama assim sem por isso amar menos.
    Aliás, o que é “menos”? O que é “mais”, quando se trata desse assunto aí?
    [continuação em breve num post perto de você, em que prometo citar inclusive nossa musa Agatha.]
    Adoro que você me ajuda a pensar.

    • É isso, isso mesmo: relaxa. Aceitar que não tem tampa pra panela, metade da laranja, sapato velho pra pé torto, peça de quebra-cabeça… que o que tem é essa vontade, né. O querer. E, sim, sim, sim, não tem balança nem régua, não tem jeito “certo” de amar e ser amado.

      Quero muito seu post.

      • Eu tenho uma lista de livros que releio pelo menos uma vez por ano. Dependendo do assovio no oco do peito, até mais que isso. Esse do Kundera é da linha de frente. Por um tempo, Napaula, também pensei que Teresa era eu. mas depois – ou antes – pensei o mesmo de Sabina, Franz, Tomas e até do senhorzinho dono do porco. Até que tudo fez sentido: eu não era os personagens mas as letras que os narravam. Ou estava nelas, pelo menos. Nesse trecho da dança, sem dúvida alguma. Quando Sabina deixa Franz. Quando Teresa acha que é “ele” por causa do livro… enfim. Releiam e me contem, rs.

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