As mulheres do Maneco

Manoel Carlos é descrito como um autor de mulheres, em especial por causa de suas Helenas, série iniciada por Lilian Lemmertz em Baila Comigo e terminada agora por sua filha, Julia, na novela Em Família. Mas ao ver a atual novela das 9 e rever no Viva, História de Amor, com outra Helena, vivida por Regina Duarte, me pergunto o porque desse título.

a última Helena (Julia Lemmertz)

a última Helena (Julia Lemmertz)

Naonde que resolveram que o Maneco entende tanto assim de sentimentos femininos? O que vejo em ambas as novelas, e em especial na novela atual são mulheres neuróticas (no sentido freudiano) beirando a histeria, outras beirando a psicose (vide a Juliana de Em Família).

Juliana (Vanessa Gerbelli) descontrolada -- de novo -- no capítulo de ontem (foto: gshow)

Juliana (Vanessa Gerbelli) descontrolada — de novo — no capítulo de ontem

Todas poderiam fazer parte de um clássico da literatura de autoajuda: Mulheres que Amam Demais, que inclusive já apareceu numa novela do Maneco, que tratam de co-dependência emocional, o livro inclusive gerou grupos de ajuda pra dependentes emocionais a exemplo do AA. As mulheres das novelas do Maneco amam filhos, maridos, namorados, ex-namorados, ex-maridos e por aí vai muito mais que a si mesmas e suas vidas giram somente em torno disso. A vida familiar para o Maneco está acima de tudo. Ninguém curte os amigos, os estudos, o emprego, nada. Para a mulher do Maneco só existe o amor e pra provar o amor, só muita, muita dor. Pra ela, claro.

As mulheres de Em Família matam pra ter uma filha porque não concebem uma vida sem aquela determinada criança. Não amadurecem e vivem presas ao passado e à figura materna, filhas são eternas filhas adolescentes, mesmo quando mães. Filhas adolescentes saem de casa mas papai paga as contas, ficam emburradinhas por tudo, escolhem o pior sujeito da face da terra pra casar. Sempre amam o homem errado, óbvio, mas é aí que se prova o amor, né Maneco? Amando muito o estrupício que vai destruir a sua vida. #SQN

virgilio

a voz da razão é sempre masculina; em “Em Família” essa voz é de Virgílio (Humberto Martins)

Já a voz da razão na novela existe pela boca de um homem, Virgílio ( alter ego do autor?, assim como o Dr. Moretti em História de Amor?), havendo , inclusive, um diálogo onde se diz que “tinha que ser ele, tinha que ser um homem” pra resolver aquela situação (mais uma bebedeira do Felipe, irmão da Helena). Virgílio em geral pensa com calma e lucidez, ao contrário das mulheres da novela, que berram e esbofeteiam em cena ao esboço da menor contrariedade. E quando Virgílio se altera, como no capítulo do dia 03/06, é visto como másculo e enfim deixou de ser banana. Quero, ainda, deixar anotado que Humberto Martins está excelente no papel, mesmo a novela sendo péssima.

Sendo assim, se a gente concorda que o Maneco é um autor de mulheres, ele está escrevendo para quais mulheres? Será essa falta de identificação da mulher moderna que tem as rédeas da própria vida nas mãos, que ama mas não é escrava de nenhum amor e tem diversos interesses que tem deixado a novela com índices de audiência tão baixos? Acho mesmo que essas mulheres se identificavam mais com as empreguetes (Cheias de Charme), que eram amor, garra, trabalho, amizade e não uma neurose sem fim. Só resta torcer pra novela acabar logo, ou tentar a novela da Record.

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3 ideias sobre “As mulheres do Maneco

  1. Texto ótimo, tb acho que ele estereotipa demais as mulheres. A ninfeta provocante (Anita, Luiza, Joice), a “madura” dividida (Helena, Helena), a balzaquiana histérica (Heloísa, Juliana). Todas sonhando com uma felicidade que vem do outro. Análise certeira. Concordo até que Humberto Martins está ótimo (embora eu não goste do personagem…)…

  2. Análise perfeita! Concordo plenamente! E adiciono uma coisa que percebi nesta Helena, ela é derrotista ao contrário do que percebi nas outras, que sempre se mostraram mais otimistas apesar de chorosas e sofredoras. Esta também, parece-me, se vitimiza mais, se sente a coitada, talvez por ser mimada, enfim…
    Realmente Humberto Martins está surpreendendo. Mas fico me sentindo sempre muito mal quando me pego analisando as mulheres da novela.

  3. O pior é gente que enxerga ele como um entendido sobre mulheres, um gênio, um poço de sabedoria feminina. E acabam se baseando nele para escrever outros papéis, mesmo que inconscientemente, pois esses são praticamente os únicos exemplos de mulhEres que o povo vê na TV.

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