Conversas sobre o feminino e outros bichos

Ontem, almoço com amiga querida. E conversas sobre o feminino. O não-feminino. Ela, como eu, cresceu naquela terra distante de relógios e vacas (que permitem os queijos e os chocolates). Chegou aqui, como eu, no início da adolescência. E teve que se deparar com o que era ser mulher, aqui.

Talvez por isso a conversa tenha sido na base de tanta concordância: a gente se entende, por ter tido um primeiro olhar sobre isso lá na Europa. Por ter crescido ouvindo conversas de feministas da década de 70, por lá. Por ter as mães que a gente teve, que, embora não se dissessem feministas, faziam parte dessa época pós-queima de sutiãs, em que as mulheres ocupavam os espaços, tratavam dos seus assuntos. Reivindicavam. Era o mundo pós-pílula, e, na Europa, era um mundo ainda marcado pelas duas grandes guerras – quando os homens foram para as frentes de combate e as mulheres ficaram para tocar a vida civil, as fábricas, os campos… quando acabou a guerra, como fazer as mulheres voltarem para dentro de casa?

Não que não houvesse contradições nesse mundo aí: eu, menina de classe média que crescia no Rio de Janeiro, fui pela primeira vez apresentada às noções de que meninas são “mais arrumadas”, “têm cadernos mais limpinhos” lá, em Genebra. Nunca tinha ouvido falar disso…. na escola, a gente tinha aula de costura e culinária, enquanto os meninos tinham “trabalhos manuais” variados. Coisa que me parecia bizarra. A gente reclamava muito disso, aliás. A gente, todas as meninas. E, na década de oitenta, isso mudou, como me contou minha professora de primário, Mlle. Guelpa: todo mundo passou a ter aula de tudo. Juntos e misturados, como deve ser.

Divaguei, mas esse parágrafo me trouxe de volta ao assunto: o que é “feminino” e “masculino”, onde se dá a linha de demarcação. Quem sempre morou no mesmo lugar, acho, pode ter mais dificuldade de perceber o quanto esses conceitos são construídos. A mim, na volta, no começo da adolescência, foi necessário um longo período de adaptação: como “ser menina” no Rio de Janeiro? Não era igual ao que eu conhecia; ralei para entender. Tanta coisa que, pra mim, era só um jeito de ser sem maiores consequências, aqui me encaixava em categorias bizarras como “hippie”, “fora do padrão”, “moderna” (Rá. Moderna, eu, aos treze anos? Passe de novo.).

A contraface disso, é claro, estava no que é “masculino”. Na estreita definição de “masculino”: tudo era considerado “efeminado”, no Rio de Janeiro, ou assim me parecia. Como sentar, como mover-se, como falar… regras tão rígidas. Sob pena de ser achacado pelo resto do mundo, sob pena de ser chamado de tantos nomes depreciativos. Sob pena de não ser amado e aceito, que é o que a gente sempre quer, no final das contas. Sobretudo quando é criança, quando é adolescente.

Olhando hoje, tanto tempo depois, a sensação que tenho é que isso aí só piorou. Afinal, na década de oitenta, ainda havia eflúvios de Hair, de amor livre, de flores nos cabelos. No meu portal, dizem-me. Certamente, no meu portal. Mas é dele que continuo olhando o mundo, e mesmo aqui, as definições me parecem hoje, tanto tempo e tanta luta depois, mais estreitas. Continuamos no mundo do “homem não chora”, e a ele adicionamos brinquedos ainda mais definidos por gênero: o mundo das meninas, antes bem colorido, virou um insuportável universo cor-de-rosa. Até ovo Kinder hoje tem “de menino” e “de menina”, pelamor. Caixinhas apertadas. Tão difícil se encaixar. Corresponder às expectativas. Saltar a barra cada vez mais alta da aceitação sem questionamentos. Mas aí, se for pra ser aceito assim, não pode tanta coisa. Não pode camiseta rosa, não pode brincar de boneca, não pode gostar de glitter ou de maquiagem, não pode usar cabelo assim ou assado… não pode. Meninas também não podem, e são suavemente empurradas para o universo fofo e cor-de-rosa, inexoravelmente. Um universo em que importante é ser bonita e fazer pose, biquinho, charme.

Que difícil.

Aí, claro, cada vez fica mais gente de fora: que não consegue se encaixar nem em uma, nem em outra. E que quer ser ouvido. Que quer estar, ser, poder. Como todo mundo. E agora? O que fazer?

Talvez, quem sabe, uma dica, pra começar a conversa.

Post1

Esse texto, que vai ficar assim mesmo, meio aberto e sem certezas, cheio de angústias arranhadas e de dúvidas implícitas, mas com muita vontade que esse panorama mude, tem a ver com o almoço de ontem (obrigada, Claudinha!), mas tem também a ver com a nota tão estranha que circulou em jornal carioca essa semana. Nota que me ficou entalada na garganta. Porque era “engraçadinha”. Porque vinha de coluna “descolada”. E porque encerra, em tão poucas linhas, uma quantidade tão absurda de preconceitos… e penso na minha escola primária, que na década de oitenta aboliu essas diferenças. E lembro que estamos em 2014. E me dá uma tristeza. Um cansaço.
Post2

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Uma ideia sobre “Conversas sobre o feminino e outros bichos

  1. Pingback: Cuidar de meninos, ainda | Biscate Social ClubBiscate Social Club

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *