À guisa de amor, pelas beiradas

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Tentando falar de amor pelas beiradas: é nesse ponto que começa o texto, com o comentário longo que deixei nesse post aqui da Luciana em que ela falava de amor e que sequestro de lá para cá:

Beibe, tão lindo e tão preciso o texto. Necessidades. Os vazios devem, acho, ser apontados, mostrados, assinalados, marcados com caneta colorida e fosforescente. Pra gente não confundir. Não achar que ‘querer pra si’ é igual a ‘amar mais’. Que não é, que não é mesmo. Perguntar-se, sempre e todo dia, o que será que você gosta em mim, o que será que ele gosta em mim, o que será que eu gosto do que ele ou ela gosta em mim. Não pra ficar neurótico: pra, paradoxalmente, relaxar. Não confundir o coração batendo, o suor frio, o aperto na boca do estômago com intensidade do sentimento. Como diz aquele meme lá, isso é outra coisa.
E não esquecer, nunca, que tem gente que ama contido: que ama quieto, que ama calado. Que ama assim sem por isso amar menos.
Aliás, o que é “menos”? O que é “mais”, quando se trata desse assunto aí?
[continuação em breve num post perto de você, em que prometo citar inclusive nossa musa Agatha.]
Adoro que você me ajuda a pensar.

 E, como prometido,  venho continuar a conversa. Ela tinha me perguntado, antes, se eu tinha algum texto sobre amor. E eu ri e disse que não. Depois li o texto dela e lembrei de alguns que falavam disso assim, pelas beiradas, e estão linkados lá. Mas era pelas beiradas, porque não sei muito falar disso. É como algo que fica ali, no meio, e eu contorno, e, ao contornar, a este algo tento dar forma. Delimitá-lo, chegando tão perto quanto possível. As bordas do Vesúvio. As margens do Mediterrâneo. De algo grande. Profundo. Denso. De algo que poderá nos engolir, nos devorar. Sim, confesso: sou meio cautelosa quanto a isso aí que chamam de amor. E que eu não sei direito o que é. Sei tão pouco que não consigo falar disso, a não ser pelas beiradas.

Paixão eu sei: é febre, é taquicardia, é suor, ardência, angústia. E passa. Paixão, por definição, é algo que passa. E ainda bem, acho eu. Quem é que aguentaria viver daquele jeito, com aquela febre, aquele desespero, aquela fome de outra pessoa vinte e quatro horas por dia, trezentos e sessenta e cinco dias por ano? Dá não. É lupa demais, tensão demais, fora do eixo demais. É bom, claro que é bom. Pode até ser absurdamente bom. Mas é bom, inclusive, porque passa.

Amor é diferente disso.
[escrevo e paro: definição? não sei. reverência. respeito. um certo temor, talvez.]
Nele só poderei chegar dando voltas, arrodeando, fazendo de conta que é possível ser leve. Usando, talvez, aquela expressão da minha avó que eu demorei tanto tempo para entender: “vai comer um quilo de sal com ele”. Comer um quilo de sal demora. Dá para a gente ver tantas facetas da pessoa. Os dias sim, os dias não, os dias quem sabe. Os dias nunca mais. Os chuvosos, os de vento forte. Os ensolarados também, os levinhos como a brisa, os suaves. Tantos dias. Que vão se acumulando e se transformando. E a cada dia a gente se pergunta: outro? E se responde. Sim. Ou não. E isso não é amor, é convivência. É escolha de convivência. É dizer sim, tantas e tantas vezes. E às vezes também dizer não. E o não também pode falar de amor, e tantas vezes fala. Já que amar deveria ser não precisar receber de volta. Dar, pura e simplesmente. Dar-se. Dar o melhor de você. Para o outro.

E aí tem algo que sempre suspende meu pensamento: O que é “o melhor de você”? E, indo mais além: será que “o melhor de você” é o que o outro espera de você? O que deseja, aquilo de que precisa? O vazio a ser preenchido? Será…?

A pergunta contém sua própria resposta, sem surpresa: claro que não. Você só pode dar o que você tem, o que, em última instância, você é. Inevitavelmente. E o que o outro deseja é tão apenas o que lhe falta, o que já lhe faltava antes de você aparecer. O fato de você preencher ou não esse espaço, de suas arestas encaixarem ou não nas reentrâncias do outro, é puro acaso. É sorte. A gente pode até agradecer quando acontece, mas entender? Acho que não. Embora o outro, esse outro específico e suas reentrâncias de contornos particulares, possa também iluminar facetas que antes permaneciam na sombra, por tanto tempo que você até tinha meio que esquecido que elas existiam.

Como é que dois porcos-espinhos fazem amor? Com muito cuidado.

Narrativas e movimentos. Coreografia, já que não existe o jogo sem o outro. Mesmo que o outro não saiba. Não, não, ele não é responsável. Ele apenas é. E a intensidade da marca que deixará em você depende apenas do que você é e do espaço que você dá. Não é “ele”, “ela”. É ele, ela, vistos por você. Recebidos por você. Traduzidos por você. Ele é. Você percebe e recebe. Capta. O que você capta não é o que ele é: é o que você identifica. Aquilo que te sensibiliza, aquilo para o qual você está atento, aquilo que você está preparado para acolher e para deixar instalar-se.

Quero ficar no teu corpo feito tatuagem
que é pra te dar coragem
de seguir viagem
quando a noite vem.

Pra te dar? Pra me dar. Pra me dar coragem de seguir viagem, quando a noite vem. Porque gosto do meu reflexo nos seus olhos. Do meu nome na sua voz. Da minha cabeça no seu colo. Do seu sorriso em mim, das suas lágrimas em mim.

Eu.

Uma vez ele me disse (e eu nunca esqueci): “A gente está sozinho sempre, ao se jogar na água. A gente pode é torcer para que haja alguém com uma toalha felpuda do lado de fora, na beira, para que a gente possa se enrolar.”

O estar sozinho é condição e necessidade. O que não impede a escolha de caminhar juntos. Mas é e será sempre escolha. Mesmo que pareça não ser. A cada dia em que a gente permanece (e acumula mais um dia na pilha de dias, sim, não, talvez), a gente escolheu ficar. Mais um dia.

Amor, você perguntou? Não sei mesmo. O que dá pra contar são uns arrodeios aí.

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