Há uma luz que nunca se apaga…

Por Niara de Oliveira

Há uma luz que nunca se apaga...

Biscatiei com a morte quase toda minha vida. Sempre me pareceu uma boa ideia, extremamente simpática e atraente. Passei da infância pra adolescência me debatendo com a obrigatoriedade da vida. Não escolhi estar aqui, apenas estou. Então, por que não decidir não estar mais? Tanta gente interessante, cheia de coisas para dizer se matou, optou por não estar mais aqui… E eu adorava gente morta.

A adolescência é bipolar, né? Over na farra e na deprê ao mesmo tempo. E essa coisa meio dark, meio deprê me definia quando adolescente. Pode ser porque fui adolescente nos anos 80 e nenhuma outra época se encaixou tanto com esse sentimento, acho. É assim que percebo, daqui do meu portal.

— ai, que infortúnio! (Funérea, a diva gótica)

— ai, que infortúnio! (Funérea, a diva gótica)

Adolescente — mas não apenas — biscateia demais com a morte. Pelo desajuste, pelas incertezas ou certezas demais, pelo que lê e ouve. E tudo na minha adolescência, completamente revolts, me levava a simpatizar com o universo suicida. Digo universo e não o suicídio em si, porque existe quem curta viver para gostar da morte. Tem até mercado para isso. Encontrar Smiths, Cure, Joy Division a partir dos 14 anos ajudou demais nesse processo.

O Calvin (filho) gostar de Smiths não é uma coincidência ou acaso. Ouço em looping There Is A Light That Never Goes Out — estou ouvindo agora –, que fala da morte como uma experiência agradável, se for eternizar aquele momento. Nada mais adolescente que isso. Trágico, fugaz, efêmero. E apaixonante.

disse em outro momento que foi essa música que me salvou da mediocridade. E não há exagero nisso. Guria pobre no subúrbio de Pelotas, não tinha acesso a outro tipo de cultura que não a massificada e massificadora. Ou se comprava os discos ou não se ouvia nada diferente do que tocasse no rádio. E minha primeira sensação de pertencimento ao mundo me veio justamente nessa declaração de despertencimento e desajuste do Morrissey. Também porque é uma declaração de amor. É triste sem ser. Trágica, fugaz, efêmera e, principalmente, silenciosa. Ele certamente escreveu o que não conseguia dizer. Tão eu. Ainda hoje tão eu. Até tatuei no braço…

minha tattoo

minha tattoo, fiz em 2013

Me leve para sair esta noite
Onde exista música e pessoas
que sejam jovens e vivas
Sendo levado no seu carro
Eu nunca mais quero ir para casa
Porque eu não tenho mais uma casa

Me leve para sair esta noite
Porque quero ver gente, eu quero ver luzes
Sendo levado no seu carro
Oh por favor, não me abandone em casa
Porque esta não é minha casa, é a casa deles
E eu não sou mais bem-vindo

E se um ônibus de dois andares colidisse contra nós
Morrer ao seu lado, que jeito divino de morrer
E se um caminhão de dez toneladas matasse nós dois
Morrer ao seu lado
Bem, o prazer e o privilégio são meus

Me leve para sair esta noite
Oh me leve para qualquer lugar, eu não ligo
E numa passagem subterrânea escurecida, eu pensei
“oh Deus, Minha chance finalmente chegou”
Mas então um estranho medo me tomou
e eu não pude pedir

Me leve para sair esta noite
Oh, me leve para qualquer lugar, eu não ligo, não ligo, não
Apenas indo no seu carro
Eu nunca mais quero ir para casa
Porque não tenho mais uma casa
Eu não tenho mais

E se um ônibus de dois andares colidisse contra nós
Morrer ao seu lado, que jeito divino de morrer
E se um caminhão de dez toneladas matasse nós dois
Morrer ao seu lado
Bem, o prazer e o privilégio são meus

Há uma luz que nunca se apaga…
Há uma luz que nunca se apaga…
Há uma luz que nunca se apaga…

Curto bem mais a vida agora. Nunca me senti tão bem em estar viva. Mas isso tem a ver com a minha trajetória até aqui, e não com os sentimentos da adolescência ou por serem sentimentos “característicos da adolescência”. Isso é estigma. Tem gente que biscateia com a morte até morrer bem velhinho. O próprio Morrissey, hoje coroa — e bem mais bonitão do que da época do Smiths — mantém ainda esse tom meio deprê, nas composições e na voz.

Não biscateio mais (tanto) com a morte, mas continuo gostando de gente morta, e Smiths, Cure, Joy Division continuam na minha playlist. E ouvindo There Is A Light That Never Goes Out em looping. #DSCLPmundo

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6 ideias sobre “Há uma luz que nunca se apaga…

  1. Eu lembro quando assisti Sexto Sentido que eu ri na hora que o menino diz: i see dead people. Porque, né, eu vejo, leio, escuto o tempo todo. No caso do cinema, então, são meus preferidos forever.

    No caso dos adolescentes o que eu vejo não se refere só à morte, mas à forma de viver qualquer coisa: é a intensidade. Justamente porque ainda não sobrevivemos a tanto, não sabemos que podemos sobreviver. Justamente porque não amamos/comemos/ouvimos/ etc alguma coisa parecida ou melhor achamos que só existe aquela versão, daquele jeito, e se perdermos o namorado, o show, o ano na escola, enfim, acabou-se vida.

    Eu sempre biscateeei com a morte também, mas de uma forma tão diferente que só me resta celebrar a diversidade da biscatagem. Eu a trato como trato meus moços, na hora que quiser #vaiter e enquanto não chega eu vou me divertindo aqui e ali 😉

  2. E então… esse post… me identifico… não me identifico…. nunca pensei nisso nesses termos: biscatear com a morte.
    Mas pode ser isso sim.
    Smiths <3
    Minha porta para isso era Camus e Sartre, A Náusea e O Mito de Sísifo, e dava pra passar horas e horas e horas e mais horas discutindo se era verdade que "O suicídio é a grande questão filosófica de nosso tempo, decidir se a vida merece ou não ser vivida é responder a uma pergunta fundamental da filosofia." (do referido Mito.). E a falta de sentido de tudo, da Náusea de Sartre. A gente como nada, vazio, por oposto aos seres-outros, preenchidos de ser (animais, plantas, minerais). Me lembrou isso tudo o post. Me lembrou eu-adolescente. Intensa. "Earnest".
    Consegui alguma leveza nessa vida, viu: mas foi à base de ralação. Ô.

    • Agora que foi você quem disse, eu posso dizer, Rê, que eu pensei em você quando coloquei ali no meu comentário o lance da intensidade. Lembrei do que às vezes a gente conversa e me imaginei se você tinha sido assim, intensa. Eu bem achava que sim. Eu não, fuen. Culpo todos os filmes velhos que vi antes da hora 😉

  3. As portas podem ser diferentes, Re, mas essa discussão com mais ou menos elementos se coloca na adolescência para quase todo mundo. E a biscatagi com a morte, Lu, cada um faz a sua, do seu jeito, né?
    ♥ ♥

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