Ninguém nasce feminista, torna-se feminista

Por Nikelen Witter*, Biscate Convidada

feminista

Imagem pescada do Blogueiras Negras

É bem legal dizer que a gente é feminista desde criancinha, que a pataquada do patriarcado nunca nos convenceu, que a rebeldia esteve sempre presente em nossas veias, que nunca atendemos às ordens de fechar as pernas, sentar eretas ou deixar os meninos falarem primeiro. Sério, é BEM legal. Mas, na maior parte das vezes, isso é só uma parte da verdade. Não tem nada a ver conosco, ou com as nossas memórias, nem são mentiras para parecermos mais cool in the feminist world. Tem a ver com o fato de que nascemos imersos numa cultura patriarcal. Com o fato de que ela nos forma, informa e enforma. Se alguém levanta do dedo e diz: “não, comigo foi diferente”, deve lembrar que é um, que isso não é o coletivo, e que as exceções, quase sempre, estão aí para confirmar a regra.

Tornar-se feminista é um caminho longo, cheio de curvas, cheio de auto percepção. Não raro com brigas violentas, com os outros, consigo mesmx. Todas as nossas informações sobre o mundo estão construídas e alicerçadas em séculos dessa cultura centrada no masculino. Estes séculos viajam desde a teoria do sexo único (há o macho e um macho deformado chamado mulher) dos gregos e que até hoje está presente em nossa linguagem quando usamos o homem como sinônimo de humanidade. Passam pela origem do pecado: teu nome é mulher. Chegam ao mundo do sexo binário, em que o feminino (fé menor) é visto como mais frágil, mais fraco, mais indolente (claro, porque ter 19 filhos em sequência é moleza). Todos esses discursos reduzem à biologia elementos que são culturais. Todos esses discursos trabalham no sentido de crescermos acreditando que todas as diferenças com que o mundo trata os homens e as mulheres são óbvias e naturais.

É comum ouvirmos em resposta: “as mulheres têm filhos. Ponto.” Como se isso fosse explicação suficiente. Não é. As fêmeas terem filhos é um dado biológico, no caso dos humanos, porém, todas as construções feitas a partir daí terão traços culturais. No que se releva, no que se hierarquiza, nas formas social e culturalmente endossadas e valorizadas de comportamento. As comparações com fêmeas animais (muitas vezes até “melhores” que as humanas), nesses discursos, têm igualmente o mesmo objetivo, acomodar à biologia – usada como argumento inquestionável (?) – toda a história humana, com sua evolução, diversidade, recriação, reorganização, mutação. Pior, em muitos desses discursos, toda a diversidade da natureza é apagada para se recolher apenas aquilo que pode ser usado para referendar um padrão feminino e ocidental, cuja criação tem cerca de 2 milênios de história e uma “rigidez” de menos de 200 anos.

Criadxs sob esta lógica, tornar-se feminista é contracultura. Nesse sentido, infelizmente, não basta vivência ou experiência. O feminismo como uma meta nos exige reflexão, reconstrução e, quando possível, formação. Já ouvi muitxs jovens dizerem: eu acho legal o feminismo, mas não me sinto capaz de dizer que sou feminista porque não conheço o suficiente. Numa palestra que ministrei, comecei com: “vocês devem ter algumas dúvidas…” O pessoal balançou tão enfaticamente a cabeça que reconsiderei meu algumas.

Nessa mesma ocasião, recebi a seguinte reclamação: “a gente tenta perguntar, mas muitas feministas debocham da gente, das nossas dúvidas”. Identifiquei-me imediatamente nos dois lados da questão. De um lado, essa escalada difícil contra a cultura hegemônica, essas dúvidas que envolvem questionar (muitas vezes) a mulher que mais admiramos e nos espelhamos: nossa mãe e a vida que ela levou. Essa dificuldade de se colocar contra pais, patrões, namoradxs, contra o “mundo todo”. É difícil sim, não se pode fingir que não é. Perceber isso não é afirmar uma guerra ou buscar culpados, é entender as regras do jogo como estão postas. A contracultura das diversas correntes do feminismo quer mudar o jogo todo, mas antes é preciso modificar as peças e aí está a outra dificuldade. A auto modificação leva tempo e causa dores, secreta raivas, afunda tristezas. Num dado momento, olhar para quem ainda não andou esse caminho é como se nos víssemos mais uma vez, aceitando o que nem de longe aceitamos mais.

Como elxs não notam tudo o que está errado? Simples, da mesma maneira que um peixe que nasce na água salgada (mesmo que metaforicamente possa viver na doce) não sabe a diferença entre uma e outra. Não acha que a água salgada lhe pesa, pois ela sempre esteve ali, sempre foi daquele jeito e há uma grande quantidade de peixes dizendo que a natureza é assim e que querer a água doce é loucura de peixas mal amadas que odeiam o mar inteiro.

Não, nem de longe eu imagino ter todas as respostas sobre o feminismo. Acho que nem quero ter. Por isso mesmo, sempre que ouço qualquer pergunta, lá vou eu tentar me pensar, me perguntar; ver se, onde e como essa dúvida me corrói e, claro, buscar informações para responder. Isso porque, dada a minha experiência bem limitada de humana, nem todas as questões da cultura se puseram para mim. Não posso, de onde estou, olhar tudo e dizer que sei como se deve agir nessa ou naquela situação. Assim, creio, ainda estou no processo de tornar-me feminista, como todxs estamos, pelo simples fato de que continuamos a pensar e a responder as questões que o mundo e cultura nos propõem. E essas questões podem ser antigas ou mudar todos os dias.

Quando Simone de Beauvoir falou em tornar-se mulher, ela falava dessa imersão que nos informa e forma. Como não estamos imersos no feminismo, é natural que esse tornar-se seja mais longo, mais difícil e caudaloso. Provavelmente, sequer possa ser terminado por qualquer pessoa nessa nossa estreita passagem nesse mundo. Até lá é perguntar muito. Questionar(-se) o tempo todo. E, quando possível, responder as tantas dúvidas de quem está começando a mesma escalada que a gente.

nikelen*Nikelen Witter teve que aprender a aceitar o próprio nome e com isso compreendeu que não tinha saída se não ser diferente. Transformou a vida de E.T. em profissão só para ler em tempo integral e acabou dando aula de História em faculdade. Atualmente, tenta escrever compulsivamente na medida que os dias e noites permitem, militar pelo feminismo e seduzir jovens leitores (porque a ideia de seduzir os jovens é boa demais!).

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2 ideias sobre “Ninguém nasce feminista, torna-se feminista

  1. Muito bom o texto. Sim é verdade, as vezes perguntamos coisas para muitas importantes e algumas pessoas tratam a pergunta e a pessoa com um desdém fenomenal. Isso, por vezes, inibe a próxima pergunta que seria até mais interessante, talvez. Mas, como enfatiza a Nikelen, tudo é uma construção. Adorei

  2. acho que está certa quando diz que estamos no processo diário de sermos feminista, ainda mais em se tratando de um mundo patriarcal.

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