O machismo nosso de cada dia

Por Niara de Oliveira

Se alguma atriz que hoje é apresentadora de programa e/ou finalmente alcançou o sucesso (resguardadas aqui as noções possíveis do que é fazer sucesso) e tem destaque da/na mídia, seja isso produzido artificialmente ou não, ai dela se fez algum filme pornô ou apareceu nua em alguma capa de revista! Será execrada. Pra sempre.

Mesmo que poucos lembrem, e esses poucos quase sempre recalcados, esse “escorregão” será usado para desmerecê-la, para lembrar a todos que ela já foi objetificada e se se sujeitou à objetificação é porque a merecia, é porque escolheu, é porque é uma ______________ (preencha com o adjetivo moralista e desqualificador que preferir) mesmo.

reparem, sublinhado de vermelho, o número de retweets e curtidas da postagem

reparem, sublinhado de vermelho, o número de retweets e curtidas da postagem (já aumentou, podem conferir)

Ah, o cinema nacional teve uma fase ruim e ~engraçada~ e até homens passaram por isso. Ou, textualmente como me foi dito, “o inusitado é engraçado. O cinema dessa época é engraçado. Homens também pagaram mico nessa época, não?“. Sim, mas ninguém posta foto do Nuno Leal Maia pelado para desmerecê-lo. Né? Porque mesmo que postassem não o desmereceria. São as mulheres que são julgadas por qualquer coisa a todo o momento. Os homens tem salvo-conduto para tudo, para qualquer coisa. Inclusive para dizer que só postaram foto da Regina Casé nua num filme dos anos 80 porque acharam engraçado e não porque estavam sendo machistas.

diálogo com a pessoa que retweetou a postagem machista sobre a Regina Casé, porque achou "engraçado"

justificativa da pessoa para o retweet da postagem machista sobre a Regina Casé, achou “engraçado”

Chata sou eu em observar o machismo e “não deixá-lo rir” de uma piada tão banal, tão corriqueira, tão normal. Chatas essas feministas que não deixam a sociedade objetificar e oprimir as mulheres como bem entendem. A questão é que não estou aqui para deixar ou proibir nada no comportamento de ninguém, só não esperem que não chame as coisas por seus devidos nomes. Nomeio, denuncio, exponho. É só o que posso fazer. É tudo que devo fazer. Porque o dedo apontado para Regina Casé está apontado para mim também, e para todas as mulheres. Esse dedo está apontado para a Xuxa, para a Myrian Rios, para a Gretchen e para qualquer uma que “se deixou” objetificar em algum momento da vida. Não nos interessam os motivos pessoais que as levaram a isso, mas seria muito bom debatermos as condições de opressão que cercearam suas escolhas nesse período da vida. Não nos interessa também o que Xuxa, Myriam Rios, Gretchen e Regina Casé fazem da vida agora. É fã quem quer, curte quem quer, admira quem quer, critica quem quer. O que não pode, amigues, é julgar moralmente a pessoa e nem exigir coerência moral. Aliás, o que é coerência moral? De quem exigimos isso?

De todas essas para as quais vemos dedinhos apontados e ouvimos adjetivos serem pronunciados, apenas a Myriam Rios enveredou pela vida pública, e mesmo assim deve ser julgada por seus projetos e políticas defendidas, e não por seu passado ou pela cobrança de coerência do passado com o presente. Porque né… Ninguém faz isso com um homem na mesma posição. Aliás, sequer investigam. Aliás, um homem jamais estaria na mesma situação. Aliás, se um homem fodeu ou exibiu o pau e a bunda no cinema foi só um passeio do cidadão de bem no submundo da putaria, “não dá nada”. Aliás, putaria pra homem é mérito.

Até quando não perceberemos o que tem de machismo nas nossas atitudes diárias? Até quando apontaremos o dedo para condenar mulheres por seu comportamento sexual? Até quando o comportamento sexual da mulher seguirá nos chocando e sendo assunto público? Até quando o machismo será justificado como piada?

Não sei vocês, mas eu estou pelas tampas. E faz tempo.

a cena que gerou o post no twitter com Regina Casé é do trash "O Segredo da Múmia" (1982), de Ivan Cardoso

a cena que gerou o post no twitter com Regina Casé é do trash “O Segredo da Múmia” (1982), de Ivan Cardoso

p.s.: o tal filme da Regina Casé não é nem pornô, é um trash — O Segredo da Múmia de Ivan Cardoso de 1982. Uma época bem menos careta e moralista que essa, onde o nu no teatro e no cinema eram comuns e bem menos comerciais que hoje.

Quem quiser assistir ao filme completo, clique aqui

Leia também “Não Tem Graça”, da Luciana Nepomuceno.

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