Basta um fio de luz para um quarto escuro não ser mais o mesmo

Por Fred Caju*, Biscate Convidado

quarto escuro

Três noites foram o suficiente para Ângela perceber como era a respiração do companheiro dormindo ou acordado. Por isso não hesitou ao disparar no escuro.

Cícero, por que você demorou tanto?

O homem tentou fingir o sono, não por maldade, mas por achar que a mulher falava enquanto dormia.

Por que, Cícero?

A insistência, porém, dissipou as nuvens da dúvida.

Tirou o acúmulo de ar dos pulmões e aproximou o nariz dos cabelos da companheira. O mesmo cheiro aprisionado de trinta anos atrás.

Não te entendo, querida.

Sempre gostamos um do outro. Mas continuamos por muito tempo deixando o não-dito dar a linha entre nós. Uma palavra e poderíamos ter ficado juntos antes, Cícero.

Estamos agora, querida. Estamos agora.

Olha nossos corpos, Cícero. Falou olhando para o teto como se ali tivesse um espelho e as luzes estivessem acesas. Éramos tão lindos. Tão jovens. Poderíamos ter incendiado o mundo.

Ainda somos, querida. Ainda podemos.

Na juventude você me disse não quando eu cansei de ter que amar sem tocar. Por que só agora?

Não te entendo. O tempo não nos degenerou. Você teve muitos homens, eu também tive algumas mulheres. Ganhamos experiência enfrentando barras e mais barras, assim como já sabemos o que é a felicidade. Hoje podemos ter toda a serenidade para o amor.

E os nossos corpos, Cícero? Eu sei, você nunca ligou pra isso. Mas você sempre soube que eu me importava. E ainda assim não o quis enquanto ele era jovem. Isso não é amor: é um requinte de crueldade da sua parte.

Suas mãos deslizaram no peito de penugem grisalha do homem. Sentiu que dali não sairiam mais palavras. Era o seu carinho de misericórdia.

Você não sente? A espera da morte é mais longa que a juventude. Essa é subversão do tempo contra a pretensão dos homens em marca-lo através do calendário. Eu não posso mais esperar, meu amor.

Os olhos do homem travaram no espelho imaginário do teto. Via-se pela primeira vez velho. Um fiapo de luz iluminou o quarto seguido da batida suave da porta. Estava só.

caju*Fred Caju é nordestino. Poeta. Editor do Castanha Mecânica. Curador do Cronisias. Com letras sumarentas que nos escorrem pelo canto da boca e, vez ou outra, deixam um travo, como a fruta que evoca. Pra gente não esquecer que letra é vida. Querendo mais, tem disponível na net o audiolivro do Arremedos de um dado viciado e os livros pro kindle: Arremedos de um dado viciado e Sumo de ranço.

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