Nós outros, o café e o depois

O gosto. Do café: aroma, paladar, o tato quente com a xícara…

Não é fácil ver ali aquele corpo nu e não pensar que ele é só isso: um corpo. Eu gozei por todas as vértebras, confesso. Não me recordo de nenhum lugar do meu corpo que não tenha sido tocado, brincado, apertado, lambido. Minha língua também desconhece porto, açude, casa, tatame que não tenha beijado naquele corpo. Nós dois estamos aqui, esperando, esperando alguém dizer alguma coisa. Que, certamente, nem precisaria ser. O corpo.

 Fazem do sexo algo sagrado ou mágico. Na verdade vendem o sexo como algo sagrado, responsável pela divino ato da procriação, ou mágico e capaz da maravilha medular de qualquer relacionamento. Nesses dois pontos, sacralizam e mitificam o ato, o fato, o tato. Se por um lado é evidente a repressão, o tornar sujo, o tornar mera ocasião e oportunidade para o cumprimento do destino e o que de fato viemos fazer no mundo, do outro nos impõe obrigações milhares, desde um telefonema até o, no mínimo, tentar ser “feliz” e agarrar esta oportunidade. No fundo resumem o amar a uma oportunidade.

Mas aquele corpo ali se esgotou. Nos esgotamos. Insistir noutra cousa é só lamentar.

Sim. Ele tem nome, o dono do corpo. Ou a dona. Tem uma história. Deve ter sentimentos. Deve ter sofrido desilusões terríveis ou causado danos emocionais, destruído corações. Pode ser que queria casa, abrigo, companhia, filhos. Pode ser que só queira o meu e outros corpos. Pode ser tanta coisa. Mas lembro que agora há pouco fui feliz em cada jato, porra, grito, unha, febre. E talvez, talvez, tenhamos sido fantásticos. Ou não. Ou aquele corpo ali pode ser acostumado a estas festas e eu ser só mais um na conta, no caderno. Pode ser poema. Mas pode ser só uma boa trepada. Uma boníssima. E pode ter sido boa, muito boa, só para mim. Julgam, julgamos. O sexo ocasional como uma falta de amor. Posso julgar júbilo, arrebatamento? Mas só. Só. Desde os consentimentos, desde as pistas dadas e trocadas, desde o beijo. Desde as ironias, desde a brincadeira. Desde que decidimos amar. Sim, amar é também. Amar, trepar, dar, receber, brincar. São muitos verbos para caber numa só página de dicionário.

Estamos esperando. O quê? O que os outros vão dizer? O que nós vamos levar para nossas terapias? Vamos fazer um pacto? Vamos trocar telefones? Aquele corpo ali ainda sem roupa já é ontem. Sabemos disso. Finjo que durmo. Ela também. Ou ele. Quem sabe o que se passa entre corpos? Se verei aquele corpo outra vez? Sinceramente, sinceramente, sinceramente…

A única coisa que quero, agora, é um bom café. E talvez, finalmente, o silêncio.

 café

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