Cuidar de meninos, ainda

DeBruyne

Cuidar de meninos. Já escrevi um sobre isso, aqui. E tenho vontade de falar muito mais sobre o assunto. Meninos: pressões sociais. Ser menino, algo que eu acho tão difícil. Acho tão difícil, daqui de onde olho. Sem ser. Mas vejo as pressões, o tempo todo, permanentes. As pressões para sentar de tal jeito, não mexer a mão de tal outro, falar com voz assim ou assado. As roupas. Ah, as roupas. Só pode isso e aquilo, aquela nem pensar, essa cor de jeito nenhum. De-jei-to-ne-nhum.
“Mas por quê?”
E a resposta definitiva: “Não é coisa de menino”.

Coisa de menino: não é tanta coisa que pode. Tanta coisa não pode. Uma, em particular: não pode brincar de boneca. Não pode ter boneca. Já ouvi histórias de gente que deu bonecos (nem eram bonecas, vejam bem: eram bonecos, bebês) para filhos de amigos. Pareceu fazer sentido, ia nascer um irmãozinho: um boneco é algo que se dá com frequência quando vai nascer um irmãozinho, ajuda a criança a lidar, a aprender a cuidar, a brincar de “ter o seu bebê” também, agora que a mãe vai estar ocupada com um.

Mas não deu certo. O boneco foi rapidamente escondido, afinal, não é coisa de menino.

Que se dá? Ah, sim, se dá para as meninas. Ponto. Menino não brinca de boneca. E vão os pequenos lidar com suas dores sem apoio. Sem aprender a botar no colo, a ninar. No máximo um bicho de pelúcia, não-humano. Boneca, nem pensar. É coisa de menina.

Panelas, comidinhas? Coisa de menina. Vassoura, ferro de passar? De menina. Brilhos, paetês, maquiagens? De menina, de novo.

Pros meninos? Sobram os carros. Carros: potência, velocidade. Atributos “de macho”. Sobram as armas. Na minha casa não rolava: no máximo, pistola de água. Porque era de água, não porque era pistola. Mas é presente comum, né? As pessoas dão. As bolas, que são talvez a parte mais legal. Já tinha comentado no outro texto:

Mas porque não cordas de pular, elásticos? Porque não bonecas? Tantos meninos gostam de bonecas. É tão legal brincar disso. Cuidar. Botar no colo. Fazer carinho. Isso sim é educar um menino pra ele não ser machista. Pra ser um pai bacana. Pra ser feliz como ele quiser ser.

Porque educar é isso, não é mesmo? Educar pra quê? Pra navegar do seu jeito nesse mundão velho sem porteira, acho eu. Pra saber que o outro é outro e é igual a você. E merece respeito, como você. E merece atenção, como você. E merece viver do jeito dele, como você.

E pra isso, é melhor começar cedo. Quando as crianças são pequenas. Bem pequenas. Com o exemplo, ainda mais importante que as palavras. E com as aberturas de espaços. Conviver com os outros diferentes. Aprender que os diferentes são, também, iguais. Brincar. Brincar, que é aprender a vida. Brincar que ajuda a se entender no mundo. Mais meninos brincando de bonecas. De pular corda. De elástico. Brincar de roda. Junto com as meninas. Junto. Fazendo junto. Se fantasiando junto. Criando novos mundos. Do seu jeito. Com o que der. Abrindo possibilidades e caminhos.

E, sim, isso é assunto para esse nosso bloguinho. Que tantas vezes fala da violência contra a mulher. E o que está proposto aqui é, também, forma de luta. Lá no começo, quando eles ainda são bem pequenos, cuidar para começar a desmontar essa armadilha.

calvin-e-haroldo

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5 ideias sobre “Cuidar de meninos, ainda

  1. Muito, muito pertinente o texto. Sou mãe de menino, de adolescente a bem da verdade, e sinto o quanto foi e é difícil educá-lo. Incrível como se pensa que “criar menino é fácil” afinal a dificuldade maior está em criar meninas: porque engravidam cedo, porque podem vir a se envolver com um parceiro/a “inadequado”, entre outros. Como se as meninas engravidassem sozinhas! Como se o homem inadequado ( e na minha visão esse é aquele que não respeita a parceira em todos os sentidos) não fosse de competência também pelos responsáveis pela sua educação. Criar meninos é difícil sim! Sobretudo quando a sociedade tem um discurso castrador ( não pode rosa, não pode boneca, não pode balé, não pode ajudar a família no cuidado da casa) e reducionista ( só pode futebol, carrinho, jogo e esperar que a mãe lhe faça o prato e lhe lave as roupas).
    Desculpe o prolongamento e o desabafo no comentário.

    Abraço!

    • Paty, muito obrigada pela visita e pelo comentário. Eu tenho dois meninos também – as reflexões têm muito a ver com a minha própria experiência. E acho mesmo isso aí que você fala, que o mundo coloca muitos, muitos limites para os meninos. E que é importante que sejam vistos, que a gente cuide de lidar com eles. Os homens nascem meninos, com tantas possibilidades diante de si. Eles não viram homens-machistas de um dia para o outro. Há que se desconstruir o discurso que os leva para esse caminho.
      Beijo e boa sorte na caminhada! 🙂

  2. Eu gostaria de compartilhar aqui que eu tenho um menino.
    Meu filho mais velho, Mondrian, que hoje tem 19 anos e está no exército, por escolha própria. Sempre fui uma mãe muito liberal, sendo que Mondrian teve camisas polo cor de rosa desde muito cedo, apesar de toda a esparrela social. Mondrian brincava do que ele quisesse, e assim que começou a ter noçãozinha, levava o pratinho dele pra pia, e me ajudava nos serviços de casa, por quê não?
    Nunca permiti nenhum tipo de comentário sexista contra ele, e a namorada é a maior fã deste tipo de criação, sendo que depois dele entrar pro exército, ficou mais pró ativo ainda pra ajudar em casa.
    Por isso eu gostaria de dizer: Não se apavorem. O mundo é um lugar obscuro, mas é a mãe quem regula a luz. Mantenham a fé que logo chegaremos em tempos novos!!! Beijos, meninas do blog <3

    • Que bom, Débora. Embora eu ache meio otimista esse “é a mãe que regula a luz”. A mãe, o pai, o ambiente familiar são fundamentais: mas tem a rua, a escola, os amigos… a gente vai adiante. E tenta. Mas não dá pra deixar pra lá não. Obrigada pela visita, pelo comentário! Volte sempre! 🙂

      • Sim sim, o mundo continua um lugar obscuro, e quando eu digo que é a mãe quem regula a luz, eu digo no sentido de ensinar os filhos a lidarem com seus sentimentos… Essa é luz que eu digo. Infelizmente há toda uma sociedade ainda que não está acostumada com os Xs da questão, uma sociedade que mesmo mais adiantada, ainda é preconceituosa, por isso acho que a mãe que trabalha a mente do filho desde cedo ajuda a longo prazo… MUITO longo prazo. Mas fazer o quê se esse otimismo tá meio agarrado na pleura? =D Beijo, obrigada pela recepção!

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